“O futuro dos livros é uma questão de salvaguardar a liberdade de ler e de pensar”

O que levou o BOOK 2.0 a escolher, em 2026, o mote “Regresso às origens. Regresso aos livros”? Silvia Pazos Rodriguez (SPR): O tema nasce diretamente da reflexão da edição anterior sobre a capacidade que o ser humano tem em se adaptar e se reinventar perante os desafios que enfrenta, mas alargando esta reflexão. Já…
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Silvia Pazos Rodriguez (Diretora Executiva do BOOK 2.0) e Miguel Pauseiro (Presidente da APEL), ligados à organização do BOOK 2.0, alertam para os desafios que a inteligência artificial, a quebra dos hábitos de leitura e a desinformação colocam ao setor editorial - e à própria democracia.
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O que levou o BOOK 2.0 a escolher, em 2026, o mote “Regresso às origens. Regresso aos livros”?
Silvia Pazos Rodriguez (SPR):
O tema nasce diretamente da reflexão da edição anterior sobre a capacidade que o ser humano tem em se adaptar e se reinventar perante os desafios que enfrenta, mas alargando esta reflexão. Já não estamos só a falar de como o setor se adapta à tecnologia; estamos a falar das condições mais amplas que permitem que o conhecimento seja criado, partilhado e preservado, e onde claramente os livros desempenham um papel crucial. Esta edição centra-se na liberdade de publicar e na liberdade de expressão como alicerces de qualquer sociedade aberta, e nas responsabilidades que advêm com sustentar essa liberdade ao longo do tempo.

“Regresso às Origens” significa isso: voltar ao que é estrutural, ao essencial do que é ser humano. Não é nostalgia, mas sim reencontrar o centro antes de voltarmos a avançar, e é também isso que a Vanilla Project, como parceira estratégica do BOOK 2.0 desde 2023, ajuda a garantir: que a ambição do conceito nunca se perca na execução edição após edição.

“Esta edição centra-se na liberdade de publicar e na liberdade de expressão como alicerces de qualquer sociedade aberta”

O que significa, concretamente, “regressar aos livros” numa época dominada pelos ecrãs, redes sociais e inteligência artificial?
SPR:
Significa reconhecer que a edição não é apenas uma atividade cultural ou económica, é parte da infraestrutura das sociedades livres. Escrever, publicar, distribuir e ler formam um sistema interligado; quando um desses elos é ameaçado, todo o ecossistema do conhecimento é afetado. Regressar aos livros, numa época de estimulação constante, é abrandar o ritmo de propósito, é reivindicar tempo, atenção e liberdade de pensamento, que a sociedade contemporânea tantas vezes trata como dispensáveis.

Que novidades distingue esta edição das anteriores?
SPR:
Se as duas primeiras edições foram sobre “Livros e Transformação” e a terceira sobre “Adaptação e Evolução”, esta quarta edição vai mais longe: centra-se em “Responsabilidade e Ação”. Já não perguntamos apenas como o setor se adapta, perguntamos como são feitas as escolhas, como o conhecimento é selecionado, como a leitura é sustentada, e como a edição continua a servir não apenas os mercados, mas os cidadãos. Estruturámos o programa em torno de quatro pilares: cultura, educação, saúde e economia como aliadas do bem social; direitos de autor e IA; e democracia e liberdade de expressão, e ultrapassámos, pela primeira vez, os mil inscritos.

“Ultrapassámos, pela primeira vez, os mil inscritos”

Que oradores destaca entre o painel de convidados? Porquê?
SPR:
É difícil escolher entre mais tantas vozes relevantes, mas destaco sem dúvida a presença do Cardeal José Tolentino de Mendonça, Prefeito do Dicastério para a Cultura e a Educação no Vaticano, pela importância dos valores humanos nos dias de hoje, e de Sanna Marin, ex-Primeira Ministra da Finlândia, pela forma como representa uma liderança mais humana num momento em que o mundo precisa exatamente disso. Destaco também os debates de liderança com CEOs e altos executivos do setor sobre inovação e risco, porque este ano quisemos trazer para o palco não só quem escreve e edita livros, mas quem toma decisões que moldam o futuro do setor editorial e livreiro.

O que mudou no mercado literário desde a primeira edição do BOOK 2.0?
Miguel Pauseiro (MP):
O pano de fundo tecnológico mudou radicalmente, mas o problema de base em Portugal manteve-se: continuamos com um dos números mais baixos da Europa em literacia, em compra de livros – apesar do continuado crescimento da venda de livros – e em livrarias especializadas. O que mudou foi a urgência. Se continuarmos a fazer o mesmo que há cinquenta anos, não sairemos da posição em que nos encontramos, com a agravante de que quem está melhor do que começa a evidenciar uma inflexão muito acentuada. É isso que nos obriga, nesta edição, a olhar de frente para os desafios que o setor tem de enfrentar, com destaque para a captação de novos públicos e a fidelização dos leitores habituais. E claro, também olharemos para a IA e os impactos do seu uso desregulado.

“Se continuarmos a fazer o mesmo que há cinquenta anos, não sairemos da posição em que nos encontramos”

Portugal continua a ter problemas de literacia. Onde estão hoje os principais obstáculos à criação de hábitos de leitura?
MP:
Estão, sobretudo, na fase em que o hábito ainda não se formou, na infância e na adolescência, onde o livro compete diretamente com um ecrã desenhado para prender a atenção em segundos, não em capítulos. E estão também no acesso: nem todas as famílias têm o hábito da leitura, e outras têm manifestas dificuldades económicas em manter os livros no centro da sua vida; nem todos os territórios têm a mesma oferta cultural. É também por isso que um dos pilares desta edição junta cultura, educação, saúde e economia, porque a literacia não se resolve num único setor isolado, resolve-se quando todos remam na mesma direção.

A escola está preparada para formar leitores num contexto em que a IA pode produzir respostas instantâneas?
MP:
Ainda não, como se vê pelos resultados publicados em diferentes relatórios internacionais. mas acreditamos que vai aprender depressa, porque não tem alternativa. O risco é claro: se a escola continuar a aceitar que no curriculum de português caibam apenas 3 livros por ano e se a escola valorizar apenas a resposta certa – e a IA dá respostas certas em segundos – perdemos o motivo para ensinar a pensar e a pesquisar, com tempo e rigor. O papel da escola tem de mudar de “transmitir informação” para “formar critério”, e o livro continua a ser uma das melhores ferramentas que temos para isso.

“O papel da escola tem de mudar de ‘transmitir informação’ para ‘formar critério'”

Deve a promoção da leitura ser encarada como uma prioridade de política pública?
MP:
Sem dúvida. E um dos pilares que trazemos este ano ao BOOK 2.0 é precisamente esse: o impacto da leitura vai muito além da cultura, toca a saúde, com efeitos comprovados na resiliência mental e na prevenção do declínio cognitivo; toca a economia, como setor gerador de desenvolvimento sustentável; e toca a própria democracia. Tratar a literacia como prioridade menor tem um custo que só vemos a longo prazo.

“Tratar a literacia como prioridade menor tem um custo que só vemos a longo prazo”.

Se pudesse implementar uma única medida para aumentar os índices de leitura em Portugal, qual seria?
MP:
Diria que não há uma medida isolada que resolva isto, e é precisamente por isso que a APEL defende uma verdadeira estratégia nacional para o livro e para a literacia num caminho que é de todos, e para todos. Se tivesse de escolher um ponto de partida, inevitavelmente, tem de ser a escola lado a lado com a família. Depois, reforçaria de forma séria os incentivos já existentes, como o cheque-livro para os jovens, e os benefícios fiscais à compra de livros em sede de IRS, porque, tal como têm sido pensados, ainda estão longe do valor necessário para consolidar hábitos de leitura duradouros.

“Reforçaria de forma séria os incentivos já existentes, como o cheque-livro para os jovens, e os benefícios fiscais à compra de livros em sede de IRS [para aumentar os índices de leitura em Portugal]”

Qual é a sua opinião sobre esta entrada da IA no mercado literário, com cada vez mais livros publicados a serem escritos por esta ferramenta?
MP:
Vejo isto como um dos principais desafios que o setor editorial e livreiro tem pela frente, não a IA em si, mas o seu uso desregulado. A APEL defende que a Inteligência Artificial deve estar ao serviço da Humanidade e da criação humana. A sua utilização pode contribuir para ganhos de eficiência, apoio a processos de trabalho e novas soluções técnicas, mas não pode significar a substituição do trabalho humano, nem a desvalorização da criatividade, do espírito crítico, da sensibilidade estética e dos valores éticos que são intrínsecos à condição humana.

Neste contexto, a APEL considera igualmente essencial proteger os conteúdos das editoras, dos autores e dos restantes titulares de direitos, designadamente impedindo a sua utilização não autorizada para fins de treino de modelos generativos de Inteligência Artificial. Só garantindo o respeito pelos direitos de autor e pelos direitos conexos será possível defender a criatividade humana face à reprodução, apropriação massiva ou imitação automatizada por sistemas tecnológicos.

A promoção da inovação tecnológica não pode ocorrer a partir da transferência não remunerada de valor das indústrias criativas, que suportam o custo de criar os conteúdos, para as empresas tecnológicas e da desvalorização dos direitos de propriedade intelectual. Até porque os sistemas de Inteligência Artificial são já capazes de produzir conteúdos concorrentes em termos económicos das obras de autores, e de editores, que contribuíram para o seu próprio desenvolvimento.

Transparência, consentimento, respeito pelas reservas de direitos, proveniências lícitas dos conteúdos e remunerações justas devem constituir os pilares de atuação dos sistemas de Inteligência Artificial, para garantir que esta se desenvolve num ecossistema em que inovação e criação humana continuam a ser cooperantes, com inegável resultado em termos da evolução e do progresso da Humanidade, ainda que nem sempre ocorra ao mesmo ritmo e de forma justa e equitativa para todos.

“A promoção da inovação tecnológica não pode ocorrer a partir da transferência não remunerada de valor das indústrias criativas”

A indústria editorial está preparada para a revolução da IA ou está sobretudo a reagir a ela?
MP:
Está sobretudo a reagir, como tudo e como todos. Ninguém no setor tem ilusões sobre isso. Por isso é que colocámos os desafios da IA como um dos pilares centrais das últimas edições do BOOK 2.0, não para celebrar a tecnologia, mas para confrontar abertamente os riscos do seu uso descontrolado, ao mesmo tempo que exploramos o que ela pode trazer de positivo aos novos formatos e à captação de novos públicos. Precisamos de acelerar essa reflexão, porque a Europa já mostra sinais de inflexão preocupantes, inclusive no recuo dos índices de leitura entre as gerações mais novas.

“A Europa já mostra sinais de inflexão preocupantes, inclusive no recuo dos índices de leitura entre as gerações mais novas”

Que relação existe entre hábitos de leitura e qualidade da democracia?
SPR:
É uma relação direta, e é o terceiro pilar central desta edição. Numa altura de polarização política e de erosão da confiança na informação, a democracia depende da capacidade dos cidadãos para aceder a conhecimento fiável e pensar de forma crítica. Os livros continuam a ser uma das ferramentas mais eficazes para resistir à simplificação e preservar valores democráticos, e os editores, através das suas escolhas, não são intermediários neutros: moldam ativamente que conhecimento circula e quem lhe tem acesso.

“Os livros continuam a ser uma das ferramentas mais eficazes para resistir à simplificação e preservar valores democráticos”

Num contexto de desinformação e excesso de informação, o livro pode funcionar como uma forma de resistência?
SPR:
Pode, e talvez seja mesmo uma das poucas que nos restam. Ler, independentemente do que se lê, é reivindicar tempo, atenção e liberdade de pensamento, é um ato de presença que, na sociedade contemporânea, se torna quase um ato de afirmação. É por isso que este ano quisemos trazer para o palco não só editores, mas também jornalistas e ecossistemas de literacia mediática, porque combater a desinformação é um trabalho conjunto.

“Este ano quisemos trazer para o palco não só editores, mas também jornalistas e ecossistemas de literacia mediática, porque combater a desinformação é um trabalho conjunto”.

Estamos a perder capacidade de concentração e de pensamento profundo?
SPR:
Os sinais apontam nesse sentido. Vivemos numa era de abundância de conhecimento e de atenção fragmentada, e a questão que colocamos este ano é precisamente essa: como podem os livros continuar a educar e a sustentar as sociedades neste contexto? Não é um problema de preguiça coletiva, é um problema estrutural e à escola mundial. Recuperar a concentração exige escolha ativa, e os livros continuam a ser uma das ferramentas mais eficazes que temos para essa escolha.

“Vivemos numa era de abundância de conhecimento e de atenção fragmentada”

Como é que olha para aquele que será o papel do livro na sociedade nos próximos 10 anos?
SPR:
O futuro dos livros não é apenas uma questão de formatos ou tecnologias: é uma questão de salvaguardar a liberdade de ler, de pensar e de fazer avançar a humanidade. Acredito que o livro se vai tornar ainda mais essencial precisamente por ser aquilo que a tecnologia não consegue substituir. E é essa convicção que sustenta o trabalho conjunto da APEL e da Vanilla Project nesta parceria: continuar a construir, edição após edição, os espaços onde essa relação com o livro se possa reencontrar — não apenas para o mercado, mas para os cidadãos.

MP: O Livro como ferramenta essencial de cidadania e de desenvolvimento humano. Que seja, acima de tudo, um veículo de mobilização do nosso país em torno de um desígnio nacional: “Posicionarmo-nos entre os melhores na Europa e no Mundo, no que diz respeito aos índices de leitura e de literacia, que são pilares da construção de uma sociedade democrática, justa e desenvolvida.”

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