Todos os anos, a 26 de abril, o Dia Mundial da Propriedade Intelectual convida-nos a refletir sobre algo que raramente entra nas conversas de negócio, mas que define, cada vez mais, a capacidade competitiva das organizações: o valor do que se cria com conhecimento. Esta reflexão é ainda mais relevante num mundo marcado por desafios complexos, em que insistir em modelos lineares de inovação é não só redutor, mas contraproducente. A inovação acontece hoje em rede, através de interação, aprendizagem mútua e cocriação. É neste espaço híbrido que os CoLABs se afirmam como infraestruturas críticas. Neste contexto, importa também desmontar um equívoco persistente: a ideia de que a propriedade intelectual (PI) atrasa ou dificulta a colaboração.
Na prática, acontece o contrário. Nos CoLABs, onde os resultados emergem de contributos e domínios diversos, os direitos de propriedade intelectual (DPI) – sejam patentes, marcas, modelos ou direitos de autor – são o que torna a colaboração sustentável. Definem regras, protegem contributos e criam confiança: três condições sem as quais não há investimento nem compromisso de longo prazo. A PI não bloqueia a inovação colaborativa; viabiliza-a. Ainda assim, importa reconhecer que este não é um processo isento de fricção: o diálogo entre parceiros com interesses distintos exige negociação, alinhamento e, muitas vezes, compromisso. Mas é precisamente desse exercício que emergem soluções mais robustas, equilibradas e, em última análise, mais valiosas.
Esta realidade exige sofisticação. A diversidade de atividades, níveis de maturidade tecnológica e objetivos estratégicos obriga a modelos de gestão e exploração de DPI flexíveis. Em muitos casos, a centralização da titularidade no CoLAB, com a construção de portefólios de patentes, permite ganhos claros de escala e de poder negocial, assegurando simultaneamente aos associados direitos preferenciais – desde licenças exclusivas a acesso privilegiado e retorno direto do investimento. Noutros contextos, a transferência de DPI para os parceiros ou a cotitularidade fazem mais sentido. Não há um modelo único, e essa é precisamente a força do sistema.
Os CoLABs desempenham um papel ainda subestimado: garantir que a PI é efetivamente explorada, seja através de licenciamento, parcerias industriais ou criação de spin-offs. Por outro lado, ao desmistificarem processos, oferecerem apoio especializado e integrarem a gestão de DPI na estratégia de inovação, transformam um domínio frequentemente visto como complexo num instrumento efetivo de criação de valor. O impacto é direto: reduzem o risco – financeiro, tecnológico e operacional – e aceleram o desenvolvimento tecnológico, encurtando o time-to-market.
Por fim, há uma dimensão que não pode ser ignorada. Num contexto de grandes desafios societais, a PI não pode ser apenas um instrumento de captura de valor económico. Os CoLABs, pela sua natureza híbrida, têm a responsabilidade – e a oportunidade – de afirmar modelos de exploração que conciliem retorno com impacto. Porque, no limite, inovar não é apenas criar valor. É garantir que esse valor chega onde faz diferença. Manter e fortalecer os CoLABs no ecossistema nacional de inovação é, por isso, essencial para garantir continuidade, escala e impacto duradouro da inovação colaborativa.
Tatiana Costa,
Diretora de Inovação, Financiamento e Propriedade Intelectual da AlmaScience, laboratório colaborativo de inovação dedicado ao desenvolvimento de materiais funcionais sustentáveis e eletrónica verde.





