Como é que surgiu a ideia de escrever este livro?
Do gosto pela leitura. Gosto de escrever, porque sempre fui leitor e, embora no início da minha carreira tenha optado por um género completamente diferente, o policial, porque era aquele em que me sentia mais confortável e que me pareceu ser o mais natural para as minhas características, tive sempre em mente a ideia de um dia fazer uma incursão noutro género, o dos romances históricos, o qual também aprecio bastante. Este livro vive comigo, a crescer lentamente, há muitos anos.
O que é que o levou a apostar na ficção histórica pela primeira vez, depois do sucesso já alcançado num outro género?
Foi a concretização de um projeto antigo, como também um desejo de evolução. Não me refiro apenas à minha carreira, ao que o público vê, mas essencialmente enquanto escritor. Publiquei nove thrillers antes deste livro, nos quais tive a oportunidade de explorar vários conceitos e temas, e também de amadurecer como autor. Cheguei a uma fase em que precisei de me colocar perante um novo estímulo, mas ao mesmo tempo desafiar os leitores, convidando-os para uma viagem completamente nova, comigo.

De que forma o processo de escrita deste livro foi diferente dos outros?
Exigiu bastante mais de mim do que os livros anteriores. Não só porque a preparação foi superior, pois não sou formado em História, o que fez com que tenha passado dois anos só a ler vários livros e outros documentos antes de começar mesmo a escrever, como também pelo processo criativo em si.
O Rei Improvável está redigido em três registos diferentes: a narrativa, que é contemporânea; os diálogos, que foram adaptados a partir da linguagem da época; e as cartas, que estão escritas em português medieval. Foi um trabalho exigente; por vezes, difícil, mas igualmente satisfatório.
O que é que lhe interessou nesta história da construção do Mosteiro dos Jerónimos?
O tema da construção de uma catedral é omnipresente na literatura atual. Talvez por influência de outros autores que admiro, no momento em que pensei em escrever um romance histórico, esta foi a ideia que me surgiu imediatamente.
Não é particularmente inovador, até porque em Portugal temos um livro muito famoso que assenta no mesmo conceito, O Memorial do Convento, mas ao mesmo tempo achei que a história do Mosteiro dos Jerónimos é tão rica, que merece ser contada.
Houve algum acontecimento real que tenha sido o ponto de partida para a narrativa?
Real, no entendimento de contemporâneo, não, embora toda a narrativa de O Rei Improvável esteja construída sobre factos históricos e, como tal, reais. Pertencem é a outra época.
Este é o primeiro volume de uma série literária, quais são os principais momentos desta primeira parte?
Diria que é a parte inicial do livro, em que as negociações de paz entre Castela, Aragão e Portugal acabam por definir o modo como as personagens se relacionam, o que depois terá um impacto nos factos que ficaram para a História. E o último terço, já com Dom João II no poder, mas a sofrer uma oposição interna forte, marcada por diversas conjuras, que acabaram por conduzir a um desfecho trágico.

Como equilibrou a fidelidade histórica com a liberdade criativa?
É sempre um exercício delicado. A História, por si, pode ser algo enfadonha, especialmente se nos limitarmos a um relato dos factos que foram documentados. O que desejei fazer com este livro foi dar emoção e vida às personagens, ou seja, trabalhar a partir do que realmente aconteceu e, preenchendo os espaços vazios, com isso construir uma narrativa que permita ao leitor, à luz dos factos históricos, envolver-se com os acontecimentos da época, como se tivesse vivido naquela altura.
Encontrou alguma descoberta histórica surpreendente durante a investigação?
Existiram diversas, mas diria que a principal foi a duração da construção do Mosteiro dos Jerónimos. Não sabia que envolvera quatro empreitadas, que decorrera ao longo de um século, ou que, por exemplo, tivera momentos de grande estagnação, porque o mestre de obras não conseguia executar a ideia subjacente ao projeto.
É esta história que quero contar com a série O Mosteiro, iniciada com O Rei Improvável — como foi erigido este monumento que todos admiramos tanto e qual o papel desempenhado por cada uma das personalidades que acabaram por estar envolvidas.
Consegue fazer o paralelismo entre o período em que acontece o livro e algo daquilo que seja a realidade hoje em dia?
Sim. O Rei Improvável decorre num período histórico muito particular, em que Portugal e os reinos de Castela e Aragão estão a tentar encontrar uma solução pacífica para a guerra em que os seus soberanos se deixaram envolver, tudo em nome do poder. De uma certa forma, acaba por ser um livro muito politizado, marcado pela intriga, e, como tal, com várias semelhanças com a sociedade contemporânea.
Para alguém que tenha começado a ler os seus livros por este livro, qual dos thrillers lhe recomendaria ler a seguir
Normalmente, digo sempre aos leitores para começarem pelo início da série Afonso Catalão, ou seja, A Célula Adormecida. Trata-se de um livro onde a cultura islâmica acaba por ter um papel preponderante no enredo, quase como se fosse uma personagem, para além de proporcionar um entendimento muito grande sobre a personalidade e as motivações do protagonista, o que servirá de base para a descoberta dos volumes seguintes.





