Motivo rompe parceria histórica com JCB após 44 anos e aponta divergências sobre gestão, tecnologia e futuro do negócio

Durante mais de quatro décadas, falar da JCB em Portugal era, para muitos clientes do setor da maquinaria, falar da Motivo. A empresa portuguesa introduziu a marca britânica no mercado nacional, ajudou a consolidar a sua presença e tornou-se um dos seus principais rostos junto dos clientes portugueses. Essa relação chegou agora ao fim. A…
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Após mais de quatro décadas de parceria, a Motivo rompeu com a JCB e justifica a decisão com profundas divergências estratégicas. A empresa portuguesa denuncia tentativas de ingerência na sua gestão, critica a visão tecnológica do fabricante britânico e prepara agora um novo ciclo assente na independência e na inteligência artificial.
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Durante mais de quatro décadas, falar da JCB em Portugal era, para muitos clientes do setor da maquinaria, falar da Motivo. A empresa portuguesa introduziu a marca britânica no mercado nacional, ajudou a consolidar a sua presença e tornou-se um dos seus principais rostos junto dos clientes portugueses. Essa relação chegou agora ao fim.

A Motivo decidiu não renovar o contrato de representação da JCB, encerrando uma parceria com mais de 44 anos. A decisão, anunciada neste mês de julho, representa uma relevante mudança no mercado nacional da maquinaria de construção e agrícola, não apenas pela longevidade da relação comercial, mas também pelas justificações apresentadas pela empresa portuguesa, que aponta profundas divergências sobre a forma como entende dever evoluir o negócio.

Separação após 44 anos

“A marca JCB confunde-se com a marca Motivo, em Portugal”, sintetiza  Maria Luís Gameiro, administradora da empresa. “Foi a Motivo que trouxe esta marca para Portugal, foi a Motivo que criou o mercado e foi a Motivo que o fez crescer.” Segundo a responsável, a proximidade entre as duas empresas foi durante décadas tão forte que o fundador da Motivo, José Gameiro, era frequentemente identificado pelos clientes como “o JCB português”, reflexo de uma ligação iniciada ainda nos primeiros anos de internacionalização do fabricante inglês.

A proximidade entre as duas empresas foi durante décadas tão forte que o fundador da Motivo, José Gameiro (à direita na foto), era frequentemente identificado pelos clientes como “o JCB português”, destaca Maria Luís Gameiro (à esquerda na foto).

O divórcio acontece agora, mas a Motivo garante que a rutura não resulta de um episódio isolado, mas de um afastamento progressivo das estratégias das duas empresas: “Os caminhos aqui e acolá foram-se dispersando”, resumiu Maria Luís Gameiro, explicando que a empresa optou por não prolongar o contrato que mantinha com a JCB, deixando de representar oficialmente a marca desde 1 de julho.

No comunicado enviado aos clientes, a empresa afirma que o “desalinhamento de visão estratégica, investimento e perspetivas de crescimento para o futuro” tornou inevitável a decisão de seguir um caminho independente. A Motivo aponta ainda que a crescente interferência do fabricante na atividade dos concessionários e a adoção de processos que considera “retrógrados” deixaram de ser compatíveis com a estratégia da Motivo.

Ingerência na gestão da empresa

Entre as razões invocadas para o fim da parceria, a administradora da Motivo destacou aquilo que descreve como uma crescente tentativa da JCB de intervir diretamente na gestão operacional dos seus concessionários. Segundo Maria Luís Gameiro, o fabricante pretendia implementar programas informáticos que dariam acesso direto aos sistemas internos da empresa portuguesa: “A JCB começou recentemente a adotar programas que nos queria implementar, programas esses que passariam a ter acesso total à nossa empresa”, afirmou. Segundo a responsável, esses sistemas implicariam que parte significativa da operação passasse a ser realizada através das plataformas tecnológicas do fabricante britânico. “A Motivo é uma empresa independente. Não faria qualquer sentido esta intervenção tão invasiva das nossas operações.”

“A JCB começou recentemente a adotar programas que nos queria implementar, programas esses que passariam a ter acesso total à nossa empresa”, denuncia a administradora Maria Luís Gameiro.

A administradora declara ainda que, durante diversas reuniões ficou claro que a empresa portuguesa recusou aceitar esse modelo de funcionamento: “Somos uma empresa independente. Naturalmente, representando a marca, temos de respeitar os standards da marca, mas eles não entenderam que nós não estaríamos dispostos” a aceitar esse nível de controlo, afirmou.

Inteligência artificial versus uma visão “retrógrada”

Outra das divergências apontadas prende-se com a visão tecnológica das duas empresas. A Motivo afirma estar a desenvolver projetos de inteligência artificial destinados a otimizar processos internos, acelerar respostas comerciais, melhorar a gestão operacional e antecipar necessidades de manutenção. Segundo Maria Luís Gameiro, esses projetos foram apresentados à JCB durante o período em que ambas mantinham a parceria.

A JCB é uma das referências mundiais em termos de veículos de trabalho, industriais e de construção

De acordo com a administradora, numa fase inicial a iniciativa foi recebida positivamente, mas a posição do fabricante britânico terá mudado: “A JCB disse que a inteligência artificial era para tolos”, afirmou, acrescentando que esse episódio evidenciou uma diferença profunda na visão de futuro das duas empresas.

A responsável acrescenta que a Motivo considera igualmente que alguns dos futuros equipamentos da JCB previstos para o mercado português representam “um voltar atrás”, defendendo que o mercado nacional procura soluções tecnologicamente mais evoluídas e automatizadas.

Independência estratégica

O fim da representação da JCB obriga a Motivo a redefinir a sua estratégia comercial. Para já, a empresa garante não ter ainda anunciado um novo fabricante para substituir a marca britânica, embora revele estar em conversações com várias empresas internacionais: “Não temos neste momento nenhuma outra marca de máquinas em concreto para trabalhar”, adianta Maria Luís Gameiro. Ainda assim, assegura que existem vários projetos em análise e que a empresa pretende trazer para Portugal “as máquinas que o nosso mercado pretende, as máquinas que os nossos clientes precisam e as máquinas com uma relação qualidade-preço justa”.

Com o fim da representação da JCB, a Motivo tem vários projetos em cima da mesa para trazer “máquinas que os nossos clientes precisam e com uma relação preço-qualidade justa”.

Para Maria Luís Gameiro, a decisão representa sobretudo uma aposta no futuro: “As empresas portuguesas são também elas ousadas , com dinamismo, com visão de futuro e perspetiva de investimento. Estamos aptos para utilizar as inteligências artificiais a nosso favor para criar riqueza em Portugal”, afirmou, reconhecendo que se trata de uma decisão “arriscada”, mas que considera ser “a melhor decisão para o mercado português”

A empresa, que possui desde 2010 uma firma de aluguer de máquinas de trabalho, a SpeedRent, pretende igualmente adotar uma estratégia menos dependente de um único fabricante, permitindo-lhe adaptar mais rapidamente a oferta às necessidades dos diferentes segmentos do mercado.

Preocupações financeiras

Maria Luís Gameiro levanta ainda dúvidas sobre notícias publicadas na imprensa económica britânica relativas à política de distribuição de dividendos da JCB. Segundo a administradora, essas notícias suscitaram preocupações internas sobre a evolução financeira do fabricante e sobre a capacidade futura de investimento da empresa: “Também nos fez preocupar qual será o futuro desta empresa multinacional quando o seu dono lhe retira mesmo as reservas que seriam necessárias para a sua operação, desenvolvimento e crescimento”, afirmou.

A responsável sublinhou que esta preocupação deve ser entendida no contexto da responsabilidade assumida pelos concessionários perante os clientes, que acabam frequentemente por responder pelas dificuldades relacionadas com equipamentos ou garantias.

Garantias aos clientes

Apesar do fim da representação, a Motivo, que celebrou 50 anos no ano 2019, assegura que continuará a prestar apoio aos atuais utilizadores de equipamentos JCB durante o período de transição. No comunicado dirigido aos clientes, a empresa afirma que permanecerá disponível para assegurar assistência, apoio técnico e acompanhamento das máquinas em operação, enquanto prepara a apresentação do novo projeto empresarial. No site da empresa, a Motivo colocou uma informação em que refere que foi assinado com a JCB um memorando de entendimento para o fornecimento de peças, assistência e garantia até 31 de outubro.

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