Habitação: Falta de oferta e casas caras vão desacelerar subida de preços

O valor de venda das casas em Portugal continua em máximos históricos, mas o mercado começa a entrar numa fase de maturidade e a prazo poderá haver desaceleração no ritmo de subida dos preços, consideram responsáveis do setor imobiliário. "Não sendo expectável uma inversão a curto prazo, é razoável antecipar uma desaceleração do ritmo de…
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Segundo a presidente da Associação dos Profissionais e Empresas de Mediação Imobiliária de Portugal, Patrícia Barão, é razoável antecipar uma desaceleração do ritmo de subida dos preços, ainda que 2026 continue a registar crescimentos.
Economia

O valor de venda das casas em Portugal continua em máximos históricos, mas o mercado começa a entrar numa fase de maturidade e a prazo poderá haver desaceleração no ritmo de subida dos preços, consideram responsáveis do setor imobiliário. “Não sendo expectável uma inversão a curto prazo, é razoável antecipar uma desaceleração do ritmo de subida dos preços, ainda que 2026 continue a registar crescimentos, embora mais moderados”, disse à Lusa a presidente da Associação dos Profissionais e Empresas de Mediação Imobiliária de Portugal (APEMIP), Patrícia Barão.

Para a responsável, “trata-se de um ajuste natural num mercado que não é elástico e que dificilmente poderá sustentar, de forma prolongada, variações na ordem dos dois dígitos”, segundo afirmou. Bruno Coelho, administrador de imobiliário do Doutor Finanças, concorda que o mercado pode estar a caminho de um arrefecimento porque as famílias começam a adiar decisões de compra.

“O mercado imobiliário é bastante previsível e funciona por ciclos. Neste momento, está num pico de pouca oferta, e o que acontece depois destes ciclos é um arrefecimento do mercado”, explicou o gestor. A tendência, a confirmar-se, significa que os preços tornaram-se “incomportáveis para a classe média, que já não consegue afastar-se mais do centro das cidades. As decisões de compra começam a ser mais ponderadas e adiadas, há mais imóveis disponíveis no mercado e os preços reduzem-se ligeiramente”, disse ainda o responsável da empresa intermediária de crédito.

De acordo com a presidente da APEMIP, a escassez de oferta de habitações “continua a pressionar o mercado”, já que apenas são disponibilizadas cerca de 25 mil novas habitações por ano quando “a procura real exigiria um volume próximo das 70 mil”.

Com base em preços anunciados (e não efetivos) de venda de habitações, a análise trimestral do observatório imobiliário do Doutor Finanças apontou para uma descida ligeira de 0,4% nos valores de venda por metro quadrado entre janeiro e março deste ano. Contudo, os últimos dados estatísticos sobre habitação divulgados pelo INE mostraram uma subida de 16,8% no preço mediano dos alojamentos familiares transacionados em Portugal em 2025 face ao ano anterior, situando-se nos 2.076 euros por metro quadrado, um novo máximo histórico desde o início da série, em 2019.

No quarto trimestre, o crescimento foi ainda mais acelerado, atingindo um aumento de 17,5% face a igual período do ano anterior, com o preço mediano a subir para 2.198 euros por metro quadrado. Também o valor mediano de avaliação bancária na habitação alcançou um novo máximo histórico de 2.151 euros por metro quadrado em março, mais 16,5% do que no mesmo mês de 2025. Ainda assim, o aumento homólogo de 16,5% foi inferior aos 17,2% registados em fevereiro, segundo o INE.

De acordo com a presidente da APEMIP, a escassez de oferta de habitações “continua a pressionar o mercado”, já que apenas são disponibilizadas cerca de 25 mil novas habitações por ano quando “a procura real exigiria um volume próximo das 70 mil”. Também o presidente executivo (CEO) da imobiliária ERA Portugal, Rui Torgal, sustentou que o crescimento dos preços é o resultado de “um desequilíbrio brutal entre a oferta e procura, porque nos últimos 10 a 12 anos não se construiu praticamente nada. E a escassez de mão-de-obra não dá resposta às solicitações do mercado”.

Entre habitação pública, habitação nova e reconstrução ou reabilitação de imóveis usados, Portugal terá um défice de habitação “na ordem de 800 mil a um milhão de casas”, conforme adiantou o responsável. Sublinhando que os preços só descem com maior equilíbrio entre oferta e procura, Rui Torgal admitiu, no entanto, que haverá “um momento a partir do qual o valor será de tal forma alto que as pessoas já não conseguem comprar casas”.

“Algumas das medidas anunciadas pelo Governo podem surtir efeito, mas o imobiliário é um mercado lento. As coisas demoram a surtir efeito. É preciso tempo, mais do que tudo. Estamos a falar de anos”, diz Bruno Coelho, da Dr. Finanças. 

O responsável da ERA Portugal mostra-se crítico do atraso no “choque fiscal” do Governo, que prevê, entre outras medidas, a redução da taxa de IVA de 6% para 23%, acrescentando que teria preferido “um anúncio mais tardio das medidas e uma entrada em vigor mais rápida”, de forma a evitar “a incerteza tremenda que existe no mercado imobiliário”.

Também Bruno Coelho reconhece “um problema estrutural da oferta”, que tem de ser ultrapassado com “mais construção”, maior “acesso a terrenos para construção” e maior rapidez nos licenciamentos. “Algumas das medidas anunciadas pelo Governo podem surtir efeito, mas o imobiliário é um mercado lento. As coisas demoram a surtir efeito. É preciso tempo, mais do que tudo. Estamos a falar de anos”, concluiu.

Patrícia Barão acrescentou que o futuro do mercado habitacional dependerá “da capacidade de reforçar a oferta e de implementar soluções estruturais, como o ‘build to rent’ (construir para arrendar) ou estratégias de densificação urbana, sem as quais a pressão sobre os preços tenderá a manter-se, ainda que de forma mais moderada”.

(Lusa) 

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