“Fazer [as coisas com] ética nas organizações é construir empresas credíveis, responsáveis, sustentáveis e capazes de gerar valor”

A sustentabilidade empresarial começa muito antes dos relatórios ESG, das exigências regulatórias ou dos indicadores de desempenho: começa na forma como as organizações tomam decisões, gerem pessoas, constroem relações de confiança e definem aquilo que é aceitável dentro da sua cultura empresarial. Este foi o ponto de partida do ciclo “Conversas com Norte”, promovido pela…
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O papel da ética, do compliance e da governance na construção de organizações mais sustentáveis esteve em foco em debate promovido pela AEP – Associação Empresarial de Portugal.
Economia

A sustentabilidade empresarial começa muito antes dos relatórios ESG, das exigências regulatórias ou dos indicadores de desempenho: começa na forma como as organizações tomam decisões, gerem pessoas, constroem relações de confiança e definem aquilo que é aceitável dentro da sua cultura empresarial. Este foi o ponto de partida do ciclo “Conversas com Norte”, promovido pela AEP – Associação Empresarial de Portugal, no âmbito do projeto “Novo Rumo a Norte – Rumo à Sustentabilidade”, cofinanciado pela União Europeia através do Programa Regional NORTE 2030.

A primeira sessão, dedicada ao tema “Governança e Ética Empresarial nas MPME”, colocou em destaque o papel crescente da ética, do compliance e da governance na construção de organizações mais sustentáveis, mais resilientes e mais competitivas.

O debate juntou Helena Gonçalves, Professora e Coordenadora de Ética Empresarial na Católica Porto Business School, e Sandra Cunha, Diretora do Departamento Jurídico e da Comissão de Compliance do Grupo Salvador Caetano, cruzando perspetivas académicas e empresariais sobre os desafios da implementação de práticas éticas nas organizações.

Uma das mensagens centrais foi a de que a ética não é um tema reservado às grandes empresas nem um exercício de cumprimento formal. É uma dimensão transversal da gestão empresarial: “A ética não depende da dimensão da organização. Aplica-se sempre — numa empresa com sete, cinquenta ou cinquenta mil trabalhadores”, afirma Helena Gonçalves. Para a especialista, a ética empresarial não é um conceito abstrato, mas uma prática quotidiana, presente na forma como se lidera, se decide e se constrói confiança dentro das organizações. “Fazer [as coisas com] ética nas organizações é, no fundo, fazer bem as coisas para os outros. É construir empresas credíveis, responsáveis, sustentáveis e capazes de gerar valor.” A docente sublinha ainda a ligação direta entre cultura organizacional e desempenho económico.

“A ética não depende da dimensão da organização. Aplica-se sempre”, diz Helena Gonçalves.

“Quando as pessoas estão bem, trabalham melhor. São mais produtivas, mais criativas, mais inovadoras. E isso beneficia simultaneamente os colaboradores e os resultados da organização.” Na sua perspetiva, importa também distinguir ética de mero cumprimento legal. Embora determinadas obrigações dependam da dimensão das empresas, “a ética não começa onde a lei obriga”. A construção de ambientes de trabalho seguros, transparentes e confiáveis deve integrar qualquer modelo de gestão, independentemente da dimensão da empresa.

O debate integrou também a experiência do Grupo Salvador Caetano, onde a existência de uma Comissão de Compliance autónoma reforça a organização interna, a monitorização de riscos e a capacidade de resposta em matérias de integridade empresarial.

Segundo Sandra Cunha, o objetivo destas estruturas não passa por “tornar automaticamente uma empresa mais ética”, mas por criar processos claros, formalizar políticas e garantir mecanismos consistentes de atuação. Atualmente, a Comissão acompanha matérias relacionadas com assédio laboral, conflitos de interesse, prevenção do branqueamento de capitais, combate à corrupção e gestão do canal de denúncias, abrangendo não apenas a operação nacional, mas também a atividade internacional do grupo.

“À medida que determinadas exigências chegam às grandes organizações, essas obrigações acabam inevitavelmente por se refletir nos parceiros e fornecedores”, refere Sandra Cunha.

Para Sandra Cunha, as exigências de compliance ganham cada vez mais peso na relação entre empresas e tendem a propagar-se ao longo das cadeias de valor. “À medida que determinadas exigências chegam às grandes organizações, essas obrigações acabam inevitavelmente por se refletir nos parceiros e fornecedores. É importante que as empresas mais estruturadas também apoiem outras organizações neste percurso.”

A responsável defende, contudo, que práticas éticas não dependem necessariamente de estruturas complexas ou grandes recursos internos. “Em empresas pequenas, implementar uma cultura ética pode até ser mais simples. Sendo uma questão sobretudo cultural, muitas vezes começa pela proximidade, pela conversa, pela formação e pela definição clara do que é aceitável dentro da organização.”

Entre os desafios emergentes, destaca ainda a mudança de expectativas das novas gerações relativamente à qualidade das relações de trabalho, à linguagem organizacional e aos limites dos comportamentos aceitáveis no ambiente profissional.

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