Documentário histórico sobre enfermeiras portuguesas na I Guerra Mundial chega ao cinema

O documentário “Damas”, da realizadora portuguesa Cláudia Alves, que recupera a história pouco conhecida de mulheres que participaram na Primeira Guerra Mundial, como enfermeiras, e contribuíram para a construção de um hospital em França, estreou em Portugal. “Um acaso conduziu-me aos arquivos da Cruz Vermelha Portuguesa, onde encontrei este álbum de fotografias de mulheres portuguesas…
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O documentário “Damas”, da realizadora portuguesa Cláudia Alves, que recupera a história pouco conhecida de mulheres que participaram na Primeira Guerra Mundial, como enfermeiras, e contribuíram para a construção de um hospital em França, estreou em Portugal.
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O documentário “Damas”, da realizadora portuguesa Cláudia Alves, que recupera a história pouco conhecida de mulheres que participaram na Primeira Guerra Mundial, como enfermeiras, e contribuíram para a construção de um hospital em França, estreou em Portugal.

“Um acaso conduziu-me aos arquivos da Cruz Vermelha Portuguesa, onde encontrei este álbum de fotografias de mulheres portuguesas que foram para a guerra”, relata a realizadora no inicio do filme, enquanto manuseia o álbum, questionando de seguida: “Por que é que na história das guerras só encontramos homens?”.

Este foi o ponto de partida para o projeto e surgiu de forma inesperada, quando, em 2018, Cláudia Alves consultava arquivos da Cruz Vermelha Portuguesa no âmbito de outro documentário e encontrou um conjunto de documentos que serviram de base a este filme, contou a realizadora, em entrevista à agência Lusa.

“Damas” cruza material de arquivo, encenação e narração ficcionada para reconstruir a história das chamadas “damas enfermeiras”, um grupo de mulheres da alta sociedade que se voluntariou para prestar cuidados aos feridos e construir de raiz, em plena frente de guerra, um hospital no norte de França, inaugurado a 09 de abril de 1918, no início da Batalha de La Lys.

“Foi uma feliz coincidência ter encontrado a história dessas mulheres, que eu não fazia ideia que tinham participado da guerra”, afirmou.

O espólio encontrado no sótão da sede da Cruz Vermelha, às Janelas Verdes, em Lisboa, incluía uma pasta sem catalogação, que guardava intactos cartas, telegramas, plantas de um edifício, fotografias, registos, folhas de serviço e regulamentos das damas enfermeiras que prestaram serviço no Hospital de Ambleteuse, no noroeste de França.

Havia cartas tanto manuscritas como cartas datilografadas, bem como uma série de registos do próprio hospital e cartões de identificação das enfermeiras, acrescentou.

Em algumas das cartas sentia-se tensão, queixume e desabafo, noutras o emprego de uma linguagem formal e que testemunhava relações de poder.

A partir desse material, Cláudia Alves desenvolveu uma investigação mais aprofundada, recorrendo a historiadores, arquivos nacionais e fontes internacionais, incluindo o Imperial War Museum, em Londres, devido à escassez de imagens em Portugal, que “não tem arquivo fílmico”.

“Os arquivos britânicos têm arquivo fílmico com os portugueses (…) Em Portugal existe só da partida deles um pequeno filme, mas de resto não”, explicou.

A realizadora contou que uma das primeiras ideias que teve foi encontrar diários destas mulheres, convencida que estava de que eles existiam e poderiam fundamentar melhor “os sentimentos, o relato dos desejos, mesmo dos desencantos, de alguns desabafos, das dificuldadesque elas passaram”.

“Eu acreditava piamente que ia conseguir e portanto fiz alguma pesquisa genealógica para encontrar os familiares. Nem sempre foi fácil encontrar o percurso até estas famílias”, recordou, especificando: “Eu procurava diários porque eu queria ter um retrato íntimo destas mulheres e não me foi possível encontrar esses relatos”.

Por isso, a ausência de diários ou relatos pessoais das enfermeiras, levou Cláudia Alves a construir uma narrativa ficcionada, centrada numa personagem que serve de fio condutor à história.

“O meu trabalho foi pôr-me no lugar de uma delas e unir as várias pontas soltas que eu tinha encontrado”, explicou.

Além da dimensão histórica, o documentário propõe uma reflexão sobre a invisibilidade das mulheres nos relatos da guerra e a sua emancipação, porque “quase tudo o que se sabe sobre a guerra vem através da ‘voz masculina’ e é por isso importante o resgate das vozes destas mulheres”, afirmou.

Sem assumir um discurso direto, a realizadora admite uma leitura simbólica, “uma espécie de metáfora também da luta pela igualdade de género”.

“Há alturas em que eu acredito que as ponho até mais à frente do seu tempo do que o que elas estavam. Estou a pensar, quando ela fala das sufragistas, eu não tenho a certeza que ela tenha conhecido de perto a luta destas sufragistas”, exemplificou.

O documentário está dividido em quatro partes, a primeira é uma espécie de introdução em que Cláudia Alves relata o processo, de como encontrou o espólio e teve conhecimento da história destas mulheres, e apresenta a personagem principal, que conduz a história através de um relato na primeira pessoa.

A “Parte I” chama-se “Diário de Portugal” e faz um contexto da época, a “Parte II” intitula-se “Crónicas de Guerra” e centra-se mais em episódios da guerra e na construção do hospital, e finalmente o “Epílogo” foca-se no pós-guerra.

O projeto, que é uma produção da Ukbar Filmes, começou a ser desenvolvido em 2018, tendo obtido apoio público em 2020, e atravessou várias fases, incluindo um período de dois anos de escrita durante a pandemia e a rodagem e montagem do filme em 2023 e 2024.

A realização enfrentou também limitações orçamentais, nomeadamente na aquisição de imagens de arquivo internacionais, admitiu a realizadora, afirmando que o valor “dos arquivos internacionais, sobretudo os fílmicos”, é “muito elevado” e “chega-se a pagar três mil euros por minuto”.

“Damas” estreou-se mundialmente em 2025, no Festival Internacional de Cine en Guadalajara (FICG), no México, e passou pelo laboratório Arché – Doclisboa – arrecadando o Prémio de melhor filme em desenvolvimento.

Chega agora às salas portuguesas, após um percurso que, segundo a realizadora, reflete as dificuldades de circulação do documentário.

“Acho que há uma saturação de obras e de produção que ficam à porta dos festivais e não chegam ao público em geral”, afirmou.

Ana Leiria/Lusa

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