O impacto da crise energética já está a materializar-se na aviação europeia, com cortes significativos na operação e sinais de pressão crescente sobre os preços. O grupo Lufthansa Group anunciou o cancelamento de 20.000 voos de curta distância até outubro, numa tentativa de reduzir o consumo de combustível num contexto de forte subida dos preços do querosene.
Segundo a companhia, esta redução corresponde a cerca de 1% da capacidade total de transporte de passageiros no verão, permitindo uma poupança estimada de 40.000 toneladas de combustível. O preço do querosene terá duplicado desde o início da guerra no Irão, a 28 de fevereiro, pressionando a rentabilidade, sobretudo em rotas de curta distância. A maioria dos voos cancelados pertence à subsidiária regional Cityline — cujo encerramento já foi anunciado — e incide sobre ligações consideradas não rentáveis a partir de Frankfurt e Munique.
Apesar dos cortes, o grupo — que integra companhias como Austrian Airlines, Swiss, Brussels Airlines, Eurowings e ITA Airways — mantém planos de expansão seletiva em hubs como Zurique, Viena e Bruxelas, numa estratégia de otimização da rede em resposta ao novo contexto energético.
A pressão não se limita ao grupo alemão. A Transavia France cancelou cerca de 50 voos para maio e junho e já aumentou os preços em cinco euros por viagem desde março. “Temos de nos adaptar no dia a dia”, afirma Julien Mallard, sublinhando a necessidade de flexibilidade operacional perante a volatilidade dos custos do ‘jet fuel’. Portugal continua, ainda assim, a destacar-se como mercado estratégico para a transportadora. Em 2025, a Transavia transportou 3,3 milhões de passageiros entre Portugal, França, Países Baixos e Bélgica, com taxas de ocupação superiores a 90%. Para o verão de 2026, prevê oferecer mais de 2,5 milhões de lugares — um crescimento de 5,5% — distribuídos por 24 rotas a partir de cinco aeroportos nacionais.
Em Bruxelas, o cenário é visto com preocupação crescente. O comissário europeu da Energia, Dan Jorgensen, alertou que a atual crise poderá ser “tão grave como as de 1973 e 2022 combinadas”, antecipando “meses ou até anos muito difíceis”. Segundo o responsável, a aviação é atualmente o setor mais exposto, devido à sua dependência direta do querosene, não sendo de excluir novos cortes ou ajustes caso a volatilidade persista.
A Comissão Europeia reconhece ainda o risco para o turismo, um dos principais motores económicos de vários Estados-membros. A subida dos custos poderá traduzir-se em viagens mais caras e menor procura, num verão que se antecipa incerto.
com Lusa





