Alex Zanardi: o italiano que transformou tragédia em capacidade de recomeçar

Alex Zanardi morreu aos 59 anos, na noite da passada sexta-feira, mas a sua história é um caso de reinvenção contínua. Antigo piloto de Fórmula 1, campeão da CART (Championship Auto Racing Teams) e múltiplo medalhado paralímpico (4 medalhas de ouro e duas de prata), o italiano construiu uma carreira que atravessa várias vidas numa…
ebenhack/AP
O italiano Alex Zanardi, antigo piloto de Fórmula 1 e campeão paralímpico, que morreu aos 59 anos, na noite de sexta-feira, deixou um legado que ultrapassa o desporto e se afirma como um dos exemplos mais consistentes de resiliência e reinvenção pessoal.
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Alex Zanardi morreu aos 59 anos, na noite da passada sexta-feira, mas a sua história é um caso de reinvenção contínua. Antigo piloto de Fórmula 1, campeão da CART (Championship Auto Racing Teams) e múltiplo medalhado paralímpico (4 medalhas de ouro e duas de prata), o italiano construiu uma carreira que atravessa várias vidas numa só, sempre marcada por recomeços onde outros veriam apenas fim e que aqui recordamos.

Nascido em Bolonha, em 1966, Alessandro Zanardi começou no karting, como tantos pilotos. O talento levou-o rapidamente às categorias superiores, passando pela Fórmula 3 italiana e pela Fórmula 3000, onde se afirmou como um dos nomes promissores da sua época. A chegada à Fórmula 1, no início dos anos 90, parecia o passo natural, com passagens por equipas como Jordan, Minardi, Lotus e Williams. Ainda assim, os resultados ficaram aquém do potencial, num contexto competitivo e técnico que nem sempre jogou a seu favor.

Foi nos Estados Unidos, longe do palco europeu, que encontrou a afirmação que lhe escapara na Fórmula 1. Ao serviço da Chip Ganassi Racing, na CART (categoria precursora da Fórmula Indy), Zanardi tornou-se uma das figuras mais marcantes da competição. Entre 1996 e 1998, somou vitórias, conquistou o título de “rookie do ano” e sagrou-se campeão em 1997 e 1998. Mais do que os números, destacou-se pelo estilo agressivo e pela capacidade de decidir corridas em momentos improváveis, como a ultrapassagem ao piloto Bryan Herta em Laguna Seca, em setembro de 1996, que ficou para a história, na última volta.

O regresso à Fórmula 1, em 1999, com a Williams, revelou-se, no entanto, um retrocesso. Sem pontos marcados e com dificuldades de adaptação ao monolugar e ao contexto técnico da equipa, Zanardi terminou a temporada sem cumprir expectativas. Regressaria aos Estados Unidos em 2001, numa tentativa de retomar o caminho que já conhecia.

Foi nesse ano que a sua vida mudou de forma irreversível. A 15 de setembro de 2001, numa corrida da CART na Alemanha (no circuito de Lausiztzring), perdeu o controlo do monolugar à saída das boxes e foi atingido a alta velocidade. O impacto destruiu o veículo e obrigou à amputação de ambas as pernas. Chegou ao hospital em estado crítico, com múltiplas paragens cardíacas, mas sobreviveu contra todas as previsões médicas.

O que poderia ter sido o fim de uma carreira tornou-se o início de outra. Menos de dois anos depois, Zanardi regressou à pista, com um automóvel adaptado e próteses desenvolvidas por si. Competiu no Campeonato do Mundo de Carros de Turismo (WTCC, World Touring Car Championship) com a BMW, onde conquistou quatro vitórias entre 2003 e 2009.

“Quando acordei e percebi que não tinha mais pernas, eu não me perguntei ‘o que farei sem elas?’, mas, sim, ‘ok, o que preciso para fazer tudo o que quero sem pernas?’”, lembra Zanardi, sobre o acidente em 15 de setembro de 2001. Ele planeava um rápido regresso às pistas, mas encontrou ceticismo, afinal, um piloto amputado de ambas as pernas era inédito no automobilismo. “As pessoas temiam que algo pudesse acontecer comigo, e fiz inúmeros exames médicos para obter a minha licença!”. Em Munique, foi recebido de braços abertos. “Tive a sorte de a BMW se interessar pelo projeto”.

Alessandro Zanardi em janeiro de 2019

Mas foi fora do automobilismo que construiu a fase mais improvável da sua carreira. A partir de 2007, dedicou-se à handbike, modalidade de ciclismo adaptado. Em poucos anos, passou de estreante a referência mundial. Conquistou seis medalhas nos Jogos Paralímpicos, três em Londres 2012, incluindo duas de ouro, e três no Rio 2016, novamente com dois títulos. Somou ainda vários campeonatos do mundo e vitórias em maratonas internacionais, como Nova Iorque.

A sua relação com a adversidade nunca foi de confronto direto, mas de adaptação. O próprio Zanardi assumiu várias vezes que a chave não estava em recuperar o que perdeu, mas em maximizar o que restava.

Depois do acidente de 2001, afirmou sentir-se feliz por estar vivo, relativizando a perda das pernas. Essa perspetiva tornou-se um dos traços mais citados da sua personalidade.

Em paralelo com a competição, criou a associação Bimbingamba, dedicada a apoiar crianças amputadas, muitas delas vítimas de guerra, através da produção de próteses e programas de reabilitação. O impacto do seu percurso passou, assim, a estender-se para lá do desporto, com uma dimensão social concreta.

Em 2020, sofreu um novo acidente grave durante um evento solidário em handbike, ao colidir com um camião. Ficou com lesões neurológicas severas e passou por um longo processo de recuperação, regressando a casa em 2021. Viveu os últimos anos afastado da exposição pública, junto da família.

A morte foi confirmada pela família, que indicou que Zanardi faleceu de forma serena, rodeado pelos seus. Nas reações institucionais, o padrão repetiu-se: mais do que os títulos, destacou-se o exemplo. A primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, referiu a sua capacidade de transformar “cada prova da vida numa lição de coragem”, enquanto o Presidente Sergio Mattarella sublinhou a sua “coragem, resiliência e capacidade de transmitir entusiasmo”.

O presidente e CEO da Fórmula 1, Stefano Domenicali, afirmou estar “profundamente triste com o falecimento do meu querido amigo Alex Zanardi. Ele foi verdadeiramente uma pessoa inspiradora, como ser humano e como atleta. Guardarei para sempre comigo a sua extraordinária força. Ele enfrentou desafios que teriam parado qualquer um, mas continuou a olhar para frente, sempre com um sorriso e uma determinação obstinada que nos inspirou a todos.”

Num contexto em que a carreira é frequentemente vista como uma progressão contínua, o percurso de Zanardi sugere que a capacidade de recomeçar pode ser, em si, a competência mais determinante.

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