Opinião

A Inteligência Artificial conhece a sua empresa?

João Souto

Durante mais de duas décadas, a pesquisa digital por empresas seguiu uma lógica simples: fazia-se uma pesquisa num motor de busca, recebia-se uma lista ordenada de resultados e, após análise das opções, tomava-se uma decisão e passava-se à ação. Nada de muito diferente, aliás, do comércio tradicional – uma boa montra numa rua movimentada sempre aumentou as hipóteses de ser visto e escolhido. Presentemente, há uma mudança observável: cada vez mais consumidores questionam a Inteligência Artificial (IA) para mapear, comparar e escolher empresas para os mais variados objetivos.

A utilização de assistentes de IA – como o ChatGPT, o Gemini, o Copilot ou o Claude – como fonte de respostas para todo o tipo de necessidades pode parecer uma mudança subtil, mas representa uma transformação profunda na forma como as empresas são descobertas pelos consumidores. Num modelo tradicional de pesquisa, a visibilidade dependia (sobretudo) da capacidade de aparecer no topo de uma lista de resultados; no novo paradigma, o utilizador questiona o assistente de IA, o sistema interpreta informação disponível em múltiplas fontes, valida a sua consistência e identifica as empresas que transmitem maior credibilidade. A IA funciona, simultaneamente, como motor de pesquisa, analista e prescritor.

Passámos da pergunta “a minha empresa aparece nos motores de busca?” para “a informação sobre a minha empresa é suficientemente clara, consistente e confiável para ser recomendada pela IA?” e, na maioria dos casos, a resposta não depende de tecnologia avançada ou de investimentos avultados, mas sim da qualidade da presença digital. Os sistemas de IA valorizam “sinais de confiança”, ou seja, procuram informação atualizada, clara e bem estruturada, consistência entre diferentes plataformas, avaliações recentes, referências externas credíveis e coerência nos dados de contacto, localização e atividade. Quando encontram informação incompleta, desatualizada ou contraditória, a confiança diminui e, com ela, a probabilidade de recomendação.

Resultado: depois de algum tempo com esforços concentrados nos motores de busca, redes sociais e em plataformas de terceiros, o website, volta a assumir um papel central, não apenas enquanto montra digital, mas como fonte principal de conhecimento sobre a empresa. É frequentemente a partir da informação constante no website que os sistemas de IA recolhem informação para compreender quem é a organização, o que faz, que problemas resolve, em que mercados atua, onde opera geograficamente, o que a diferencia e como pode ser contactada.

Mas os websites já não trabalham sozinhos. Diretórios empresariais, associações setoriais, plataformas de avaliação, artigos especializados, redes sociais e outras fontes externas funcionam como mecanismos de validação, sendo que quanto mais coerente e consistente for a informação disponível entre diferentes fontes, maior o impacto produzido ao nível da confiança atribuída pelos sistemas de IA.

Neste contexto, também a reputação digital ganha uma relevância acrescida. As avaliações dos clientes deixam de ser um fator de influência na decisão humana e passam a constituir um sinal importante para os sistemas de recomendação. Reviews recentes, autênticas e específicas ajudam a demonstrar qualidade, especialização e experiência real.

Não é difícil perceber que um dos maiores desafios atuais para as empresas, nomeadamente PMEs, seja garantir consistência – para um consumidor e/ou para um sistema de IA. Assim como procuraram medir e melhorar a sua visibilidade nos motores de busca, as empresas procuram agora conseguir “visibilidade para IA”, ou seja, quantificar até que ponto são bem sucedidas nas fontes que os sistemas de IA consultam e interpretam.

Na perspetiva de alguém que apoia diariamente milhares de PMEs nos seus percursos digitais, há que ajudar a traduzir estas mudanças em ações práticas concretas: rever a informação base da empresa, clarificar a descrição dos serviços, atualizar websites e perfis digitais, melhorar a gestão da reputação online e assegurar coerência em todos os canais de presença. Mais do que falar de tecnologia, importa auxiliar os negócios a construir uma presença digital preparada para as novas formas de descoberta, confiança e recomendação.

João Souto,
CEO da Páginas Amarelas

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