Opinião

Narana Coissoró e a minha eterna Goa

Nilza Rodrigues

Desde menina que ouço o nome de Narana Coissoró.

Cresci numa família goesa onde Goa nunca foi apenas um lugar no mapa. Era uma presença constante nas conversas, nas memórias partilhadas à mesa, nas histórias de quem viveu entre dois mundos e soube fazer deles uma só identidade. E, entre os nomes que surgiam com respeito e admiração, havia um que regressava frequentemente: Narana Coissoró.

Muito antes de compreender a dimensão do académico, do jurista, do professor ou do político, já conhecia a importância do homem. Para quem tem raízes goesas, Narana Coissoró era mais do que uma figura pública. Era um motivo de orgulho. A prova de que um filho de Goa podia alcançar os mais altos patamares da vida intelectual e política portuguesa sem nunca renunciar às suas origens.

Por isso, a notícia da sua morte, aos 94 anos, tem para mim um significado particular.

Portugal perde uma referência da sua democracia. Goa perde um dos seus filhos mais ilustres. E todos perdemos uma voz de rara inteligência, cultura e elegância.

Nascido em Goa, em 1931, Narana Coissoró construiu um percurso extraordinário. Licenciou-se em Direito na Universidade de Coimbra, doutorou-se em Londres, tornou-se professor catedrático e dedicou décadas da sua vida ao ensino, à investigação e ao serviço público. Foi deputado em várias legislaturas, liderou a bancada parlamentar do CDS durante mais de uma década e viria a assumir também as funções de vice-presidente da Assembleia da República.

Mas os cargos, por mais relevantes que sejam, não explicam totalmente a sua importância.

Narana Coissoró pertenceu a uma geração que ajudou a consolidar a democracia portuguesa e que acreditava que a política podia ser um espaço de ideias, de convicções e de elevação intelectual. Era respeitado pelos seus aliados e pelos seus adversários. Tinha a firmeza de quem defendia aquilo em que acreditava, mas também a capacidade, cada vez mais rara, de debater sem hostilidade e discordar sem destruir. Ao mesmo tempo, nunca deixou para trás Goa.

Levou-a consigo para as universidades, para o Parlamento, para os livros e para as instituições a que esteve ligado. Como académico e presidente do Instituto do Oriente, contribuiu para aprofundar a compreensão das relações entre Portugal e o Oriente e ajudou a preservar uma memória histórica que continua a unir povos e culturas separados pela geografia, mas ligados por séculos de história comum.  Talvez seja essa a dimensão que mais me impressiona no seu legado.

Numa época em que tantas vezes nos pedem que escolhamos um lado, uma identidade ou uma pertença, Narana Coissoró mostrou que é possível honrar todas as nossas raízes. Foi goês sem deixar de ser português. Foi português sem deixar de ser goês. Soube transformar essa herança múltipla numa força e não numa contradição. Para muitos goeses da minha geração, e das gerações que nos antecederam, ele representava precisamente isso: a ligação viva entre a terra dos nossos pais e avós e o país onde construímos as nossas vidas.

Hoje, despedimo-nos de um homem que atravessou quase um século de história. Um professor que ensinou pelo exemplo. Um político que elevou o debate público. Um intelectual que nunca abandonou a curiosidade pelo mundo. E um goês que levou Goa consigo para onde quer que fosse.

Fica-me na memória isso tudo e os seus impressionantes olhos azuis. Lembram-me os do meu avô. Bem-hajam. A ambos.

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