Patrick Stewart morreu esta quarta-feira, 28 de outubro, na sua residência em Los Angeles, nos Estados Unidos. A notícia foi anunciada pela família no dia seguinte, através de uma publicação nas redes sociais do ator. Segundo o comunicado, o ator morreu na companhia da mulher, a cantora e compositora Sunny Ozell, e de familiares e amigos, depois de uma breve e difícil jornada com a doença de Alzheimer e demência com corpos de Lewy.
“Guardaremos para sempre a serenidade e a reflexão estampadas no seu rosto — uma memória perene da sua graça invencível”, escreveu a família na mensagem de despedida.
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Com uma carreira de mais de seis décadas, Patrick Stewart tornou-se uma das figuras mais reconhecidas do teatro, do cinema e da televisão. Mas, para além das personagens que interpretou, deixou também reflexões sobre a forma como enfrentamos os desafios, tomamos decisões e aprendemos a lidar com o fracasso.
Uma delas foi destacada num artigo publicado pela Forbes a 1 de abril de 2022, intitulado “Patrick Stewart Shares A Lesson In Bravery” (“Patrick Stewart partilha uma lição sobre coragem”). O texto recuperava uma conversa do ator com Sam Briger, no programa Fresh Air, da rádio pública norte-americana NPR, na qual Stewart abordava uma característica que considerava ter desenvolvido com a idade: a coragem para assumir riscos e deixar de ser tão crítico consigo próprio.
“Sou mais corajoso agora do que era quando tinha 35 anos. Não tenho aversão a correr riscos. E não me julgo a mim próprio. Costumava fazê-lo constantemente. ‘Ah, Patrick, isso não está suficientemente bem. Não está suficientemente bem. Podias ter feito aquilo de outra maneira. Podias ter feito melhor’“, explicou o ator. Para Stewart, essa autocrítica permanente acabava por prejudicar a espontaneidade e a capacidade de deixar surgir sentimentos genuínos: “Isso impede que haja espontaneidade e que se transmita um sentimento genuíno. Por isso, agora sou mais corajoso do que era quando era muito mais novo”, concluiu.
A reflexão tinha uma origem curiosa. Quando estava a terminar os dois anos de formação em representação na Bristol Old Vic Theatre School, o jovem Patrick Stewart foi repreendido pelo diretor da escola, que lhe deixou um conselho que viria a recordar décadas mais tarde: “Patrick, nunca alcançarás o sucesso se estiveres sempre a proteger-te do fracasso”.
A frase tornou-se uma espécie de lição para a vida. E, como sublinhava a Forbes em 2022, também uma reflexão pertinente para o mundo empresarial e para quem ocupa posições de liderança.
Não deixa de ser curioso que, a propósito do falecimento de Patrick Stewart, o também ator Ian McKellen, e amigo íntimo de Stewart e seu colega de elenco na série “X-Men”, referiu que o ator “mostrava abertamente os seus sentimentos, o que fazia dele um homem em quem se podia confiar, que se podia admirar e, no meu caso, amar”, numa publicação na sua conta do X.
SIR PATRICK STEWART (1940-2026)
Before everything else, Patrick was defined by being born and bred in Yorkshire, the proud county in the north of England which he loved to the end. You could hear it in his accented voice and in the stern honesty with which he told you what he thought and felt. Yorkshiremen have no truck with half-truths or avoidance of big issues. He wore his heart on his sleeve, which made him a man to rely on, to admire and in my case, love.
We first met as ambitious young actors with the Royal Shakespeare Company half a century ago but we weren’t in the same productions. My first strong memory was a few years later, meeting him in the street in central London when he told me about an offer to take over a leading part in ‘Star Trek’. “But Patrick think of your stage career in the UK. Do you really want to risk—getting lost in Hollywood for years and years?”. Well, he took the risk and thank goodness for us all that he did for not just his devoted Trekkies but film and theatre audiences, who marvelled at his using international celebrity to star in a string of cinema successes (‘X-Men’ of course) and in great classical plays by Shakespeare, Ibsen, Arthur Miller, Peter Shaffer, Pinter and Beckett at Stratford-upon-Avon, in London’s West End and on Broadway.
America was his adopted home, where he met his adored Sunny who has cared for him through sickness and health, through thick and thin. But he never forsook his origins: and the proudest achievement of the most respected and beloved actor of his generation on either side of the Atlantic, was his appointment as Chancellor of Huddersfield University in Yorkshire.
His farewell performance in ‘Avengers: Doomsday’ is yet to be seen.
Ian McKellen 29 October 2026
Photo: University of Huddersfield
— Ian McKellen (@IanMcKellen) October 30, 2026
A coragem de tomar decisões
O artigo da Forbes, escrito pelo ex-colaborador da revista John Baldoni, partia de uma comparação entre a representação e a liderança. Embora possa parecer estranho falar de coragem no trabalho dos atores, cada interpretação implica escolhas. Os melhores profissionais procuram uma ligação pessoal com as personagens e utilizam a sua técnica para lhes dar vida, seja numa produção cinematográfica, televisiva ou numa peça de teatro. É precisamente nessa capacidade de escolher que reside uma das principais lições para os líderes.
A liderança, referia o artigo, é também um ato. Não se trata de representar ou dissimular, mas de procurar a verdade através das palavras e das ações. Tal como os atores, os líderes raramente conseguem alcançar grandes resultados sozinhos: precisam de outras pessoas, de equipas e de colaboradores para concretizar os seus objetivos.
Perante decisões importantes, precisam, por isso, de ter coragem para avançar, mesmo quando enfrentam dúvidas ou incertezas. A hesitação permanente e a tendência para questionar constantemente as próprias decisões podem corroer a autoconfiança e comprometer a capacidade de agir.
Nesse artigo, a partir dos ensinamentos de Patrick Stewart, a Forbes identificava três questões fundamentais que devem orientar a atuação de um líder.
A primeira é o que precisa de ser feito? A resposta deve resultar da leitura da situação e da identificação das necessidades da organização e das pessoas e entidades que dela dependem. É a partir dessa análise que se define a estratégia e aquilo que a empresa deve fazer para responder aos seus diferentes stakeholders.
A segunda questão é como deve ser feito? Aqui, a recomendação é confiar nas pessoas responsáveis pela execução. Os líderes devem definir o rumo, mas precisam de saber dar espaço às equipas para decidirem a melhor forma de concretizar os objetivos. Tentar controlar todos os pormenores da execução é cair na microgestão, limitando a autonomia e a capacidade de iniciativa dos colaboradores.
Por fim, importa perguntar o que fazemos a seguir? A avaliação dos resultados e da forma como foram alcançados deve determinar os passos seguintes. Quando algo corre mal, é necessário rever pressupostos e ajustar a execução. Mas mesmo quando os resultados são positivos, os líderes não devem deixar de avaliar continuamente o que está a ser feito, de modo a garantir que o sucesso se mantém.
A importância de avaliar sem ficar paralisado
Outra das ideias destacadas no artigo de 2022 era a importância da autoavaliação. Analisar as próprias decisões, de preferência com a ajuda de um colega de confiança, pode ser um exercício particularmente enriquecedor para quem lidera.
Há, contudo, um risco, salientava o artigo: transformar essa análise numa espécie de paralisia. A reflexão é necessária, mas não pode impedir a ação. Cabe ao líder tomar decisões, avançar e assumir as respetivas consequências.
Tal como acontece na representação, só o tempo permite perceber se determinada escolha foi a mais acertada. No momento da decisão, porém, é necessário fazer o melhor julgamento possível e ter a coragem de viver com os resultados.
O artigo terminava com uma referência à célebre professora de representação Stella Adler, que dizia que a palavra teatro tem origem grega e significa “o lugar onde se vê”. É o espaço onde as pessoas vão procurar a verdade sobre a vida e a sociedade. Revelar essa verdade exige, muitas vezes, coragem. E, indicava a Forbes, nesse artigo, é precisamente isso que se espera de um líder: que seja capaz de transmitir a verdade, tanto através das palavras como das ações.
Uma lição que Patrick Stewart partilhou a partir da sua experiência enquanto ator, mas que continua a ter aplicação muito para além dos palcos e dos ecrãs.





