Com a eleição para a presidência da FIDE a aproximar-se – marcada para 26 de setembro, em Samarcanda – e com três candidatos no boletim de voto, o debate sobre o futuro das instituições do xadrez ganha particular relevância. Entre os candidatos está Timur Turlov, CEO da Freedom Holding Corp., empresa-mãe da Freedom24. É neste contexto que importa discutir uma questão mais ampla: a neutralidade institucional no xadrez. O objetivo aqui é defender esse princípio, não uma candidatura.
A 46.ª Olimpíada de Xadrez começou na semana passada em Samarcanda, mas a disputa que irá efetivamente transformar a modalidade acontece fora do tabuleiro. A 26 de setembro, os delegados das federações-membro da FIDE escolherão entre três candidaturas: Jan Henric Buettner e Malcolm Pein, Wadim Rosenstein e Gordon Tang, e Timur Turlov e Viswanathan Anand. Cada federação dispõe de um voto e a candidatura vencedora ficará à frente de uma organização muito diferente daquela que existia ainda há uma década.
Esta diferença é a verdadeira questão. O xadrez cresceu para além das estruturas criadas para o governar. O dinheiro dos patrocínios, que antes provinha de um pequeno grupo de mecenas individuais, chega hoje através de parceiros empresariais com as suas próprias obrigações de prestação de contas. Os programas escolares, que antes eram uma iniciativa paralela de um professor, envolvem hoje ministérios da Educação e números de participação mensuráveis – só o Cazaquistão reporta mais de 60 mil alunos e 1.500 escolas integradas no seu currículo de xadrez. As federações nacionais, que antes funcionavam sobretudo com base no voluntariado, negoceiam agora direitos de transmissão, financiamento público e parcerias com plataformas. Nada disto é negativo. Mas eleva a fasquia relativamente ao que uma federação, a qualquer nível, precisa de ser capaz de fazer: manter contas transparentes, explicar como são tomadas as decisões e deixar claro onde termina a opinião pessoal de um dirigente e começa a posição da instituição.
Uma federação, um voto é um princípio democrático que merece ser protegido. Mas igualdade política e igualdade operacional não são a mesma coisa. Todas as federações têm o mesmo estatuto constitucional, mas algumas dispõem de equipas a tempo inteiro, apoio jurídico, infraestruturas de dados e décadas de experiência institucional, enquanto outras funcionam com um pequeno grupo de voluntários e sem um orçamento dedicado. Uma federação não consegue tirar pleno partido dos seus direitos formais se não tiver capacidade administrativa para participar eficazmente no sistema internacional. Este não é um problema distante – aplica-se diretamente às federações europeias mais pequenas, que enfrentam precisamente este fosso entre estatuto formal e capacidade prática.
Esta última questão tornou-se concreta na Europa recentemente. No passado dia 16, Zurab Azmaiparashvili, recém-eleito presidente da European Chess Union (ECU), afirmou publicamente que, a título pessoal, apoia a candidatura de Rosenstein. Teve o cuidado de esclarecer que se tratava da sua opinião pessoal, e não de uma decisão da ECU ou das suas federações-membro. Um dia depois, a ECU emitiu a sua própria declaração: não tinha sido manifestado qualquer apoio institucional a uma candidatura e a união mantinha-se neutral no exercício das suas funções perante os 54 membros.
Seria fácil interpretar esta troca de declarações como um momento embaraçoso para a ECU. Eu diria que está mais perto de ser precisamente o contrário. Uma organização que permite que uma opinião pessoal fique sem ser contestada é um problema maior do que uma organização que esclarece a situação no prazo de 24 horas. A ECU já tinha criado as condições para o fazer – adotou, no início deste ano, um código de conduta baseado nos próprios princípios eleitorais da FIDE, especificamente para garantir que a campanha decorre de forma justa e que os eleitores podem tomar decisões sem pressões. O esclarecimento não foi uma crise; foi este código a cumprir a sua função.
A razão pela qual isto importa para além de uma única declaração é que o mesmo teste se coloca agora a muitas federações com uma capacidade muito menor para o enfrentar do que a ECU. Uma organização continental com recursos pode emitir um esclarecimento no próprio dia e seguir em frente. Uma federação nacional mais pequena, muitas vezes, não dispõe de uma equipa de comunicação, de apoio jurídico ou de um código de conduta estabelecido a que possa recorrer se uma declaração pessoal do seu presidente for confundida com uma posição oficial. Estas federações têm mais a perder se a fronteira entre “aquilo que o nosso presidente pensa” e “aquilo que a nossa federação faz” não estiver claramente definida, porque são as que têm menos capacidade para lidar com uma disputa que nunca escolheram ter.
Há ainda outra medida de maturidade institucional: a continuidade. Uma federação séria deve ser capaz de mudar de liderança sem ter de reinventar as suas relações, os seus sistemas e as suas prioridades a cada ciclo eleitoral. Os projetos devem pertencer às instituições, não às personalidades. As parcerias devem estar documentadas. Os dados devem permanecer acessíveis. Os programas de desenvolvimento devem ter objetivos mensuráveis que sobrevivam a uma mudança de liderança. Demasiadas vezes, na governação desportiva, chega uma nova administração e a memória institucional desaparece juntamente com a equipa que sai. Não se trata de uma falha de governação de uma determinada pessoa – é um problema estrutural que o mundo do xadrez ainda não resolveu de forma sistemática.
O futuro do patrocínio no xadrez deve também assentar na arquitetura das parcerias, e não nas personalidades. Uma federação deve ser capaz de explicar aos seus membros o que uma parceria pretende alcançar, durante que período, com que responsabilidades e com que resultados mensuráveis. Os patrocinadores precisam de visibilidade e valor; as federações precisam de independência e previsibilidade. Um modelo comercial maduro deve proporcionar ambas as coisas.
É este o padrão que vale a pena aplicar a todos os envolvidos nesta eleição, incluindo empresas como a nossa. A Freedom é parceira principal da Federação de Xadrez do Chipre desde 2023, e esta parceria ajudou a levar para a ilha eventos como o Women’s Grand Prix e o Torneio de Candidatos deste ano. Considero que este é um bom exemplo do que o patrocínio pode proporcionar – mas prefiro que seja avaliado, e não simplesmente aceite com base na confiança, à luz do mesmo padrão que aqui descrevo: o dinheiro está sujeito a condições claras e transparentes e a federação mantém o controlo das suas próprias decisões? Todas as empresas parceiras do xadrez, incluindo a nossa, devem estar confortáveis em responder diretamente a esta pergunta.
Nada disto diz às federações-membro em que candidatura devem votar a 26 de setembro e não vou fingir que a minha própria opinião sobre esta questão é neutra. O que pediria aos delegados que ponderassem, independentemente da candidatura que escolherem, é quais os candidatos que efetivamente desenvolveram o hábito de traçar esta linha – nas suas próprias federações, antes de pedirem o voto de qualquer outra pessoa. A Olimpíada produzirá medalhas. A eleição produzirá um presidente. O resultado mais útil seria uma organização em que fosse mais difícil confundir a instituição com a opinião de uma única pessoa, independentemente de quem esteja a segurar a caneta.
Bulat Latypov,
Chief Communications Officer da Freedom24





