Dos clássicos à literatura contemporânea: as novidades da Quetzal para o final do ano

A Quetzal, editora do Grupo Bertrand, apresenta para os últimos meses do ano uma seleção que cruza a tradição literária com algumas das vozes mais relevantes da literatura contemporânea. De Ovídio a Borges, passando por Simone de Beauvoir, David Foster Wallace, Julian Barnes, José Eduardo Agualusa e José Luís Peixoto, a programação inclui ainda poesia,…
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Entre clássicos recuperados, novas edições e obras de autores contemporâneos, a Quetzal prepara uma rentrée literária marcada pela diversidade, com propostas que atravessam séculos, géneros e diferentes formas de olhar o mundo.
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A Quetzal, editora do Grupo Bertrand, apresenta para os últimos meses do ano uma seleção que cruza a tradição literária com algumas das vozes mais relevantes da literatura contemporânea. De Ovídio a Borges, passando por Simone de Beauvoir, David Foster Wallace, Julian Barnes, José Eduardo Agualusa e José Luís Peixoto, a programação inclui ainda poesia, ensaio, memória e novas edições de obras de referência.

Em setembro, a editora recupera um dos grandes nomes da poesia latina com “Cantos de Tristeza”, de Ovídio, numa tradução e edição com notas de Carlos Ascenso André. O livro reúne os poemas de Tristia, escritos na sequência do exílio do poeta, condenado aos 51 anos a abandonar Roma e enviado para os confins do Império.

A mudança radical — da vida na grande cidade, entre luxo, festas e amores, para uma paisagem distante, fria e inóspita — deu origem a uma nova forma de poesia. Os poemas assumem frequentemente a forma de cartas dirigidas a amigos, à mulher e até ao imperador Augusto, transformando a experiência do afastamento numa reflexão sobre perda, distância e memória. É neste conjunto que se encontram algumas das bases daquilo a que viria a chamar-se uma “poética do exílio”, destaca a editora.

Ovídio, contemporâneo de Virgílio e Horácio, é uma das figuras fundadoras da tradição poética ocidental. A sua obra inclui títulos como “Arte de Amar”, “Remédios contra o Amor” e “Metamorfoses”. Carlos Ascenso André, especialista em literatura latina e estudos camonianos, foi professor de Línguas e Literaturas Clássicas na Universidade de Coimbra e dedicou grande parte da sua carreira à tradução e estudo dos autores clássicos. A Quetzal publicou anteriormente as suas versões de “Eneida”, de Virgílio, “Arte de Amar” e “Remédios contra o Amor”, estas últimas em edição bilingue.

Também em setembro chega “Não Há Caminho a Direito que Te Leve até Lá”, de Rebecca Solnit, escritora, historiadora e ativista norte-americana conhecida pela sua reflexão sobre feminismo, poder, mudança social, esperança e catástrofe.

Neste conjunto de ensaios, Solnit parte de um mundo marcado pela incerteza para propor uma atitude assente na perseverança, na coragem e na esperança. Os caminhos para uma sociedade mais justa podem ser longos e tortuosos, e os avanços podem ser acompanhados por recuos, mas a autora defende a importância de manter uma perspetiva de longo prazo e de não perder a capacidade de imaginar alternativas.

Com uma obra que se estende por cerca de duas dezenas de livros, Rebecca Solnit tornou-se uma das vozes mais reconhecidas do pensamento cultural norte-americano contemporâneo. A Quetzal já publicou “As Coisas que os Homens me Explicam” e “Esta Distante Proximidade”.

David Foster Wallace regressa às livrarias em setembro com “Breves Entrevistas a Homens Hediondos”, obra originalmente publicada em 1999, pouco depois de “A Piada Infinita”. O livro reúne 23 contos nos quais o escritor norte-americano explora temas como a dependência de drogas, a depressão, o sexo, a misoginia, os relacionamentos, os meios de comunicação e as dificuldades de comunicação entre as pessoas.

A linguagem de Wallace combina humor, sarcasmo e experimentação, mesmo quando aborda personagens e situações particularmente desconfortáveis. Os chamados “homens hediondos” surgem sob diferentes formas, entre ameaça, absurdo e tormento, num universo em que o banal e o bizarro convivem permanentemente.

Considerado um dos autores mais originais da literatura norte-americana da sua geração, Wallace publicou o primeiro romance em 1987 e tornou-se mundialmente conhecido com “A Piada Infinita”. A Quetzal publicou também “Uma Coisa Supostamente Divertida Que Nunca Mais Vou Fazer” e o romance póstumo “O Rei Pálido”.

Ainda em setembro, a Quetzal apresenta “Voltas e Disfarces”, de J. Rentes de Carvalho. Aos 96 anos, o escritor revisita neste livro os anos de 2010 e 2011, numa viagem entre Amesterdão e Trás-os-Montes, entre a cidade e a montanha, a literatura e o silêncio.

Mais intimista do que algumas das suas obras anteriores, o livro cruza memórias, observações e episódios aparentemente pequenos, recuperando a passagem do tempo e as marcas deixadas por uma vida dedicada à escrita. Rentes de Carvalho, nascido em Vila Nova de Gaia em 1930, viveu no Brasil, em França e nos Países Baixos, onde foi professor de Literatura Portuguesa. A sua obra inclui romances, contos, diários, crónicas e ensaios e ocupa um lugar singular na literatura portuguesa contemporânea.

Simone de Beauvoir

Em outubro, a Quetzal recupera uma das obras fundamentais do pensamento feminista com “O Segundo Sexo I”, de Simone de Beauvoir, na coleção A Biblioteca de Alexandria. Quase oito décadas depois da sua primeira publicação, as questões colocadas pela escritora e filósofa francesa continuam a alimentar o debate sobre a condição feminina.

Recorrendo a argumentos da biologia, antropologia, psicanálise e filosofia, Beauvoir analisa os mecanismos sociais e culturais que contribuíram para a construção da mulher como “outro” e para a manutenção de relações de desigualdade entre os sexos. “O Segundo Sexo” tornou-se uma das obras fundamentais do feminismo contemporâneo e dos estudos de género.

Simone de Beauvoir nasceu em Paris em 1908 e morreu na mesma cidade em 1986. Estudou Filosofia na Sorbonne, onde conheceu Jean-Paul Sartre, e participou no debate político e intelectual francês do pós-guerra. Em 1949 publicou “O Segundo Sexo”, tornando-se uma das principais referências dos movimentos de emancipação das mulheres.

Vasco Graça Moura

Também em outubro chega uma nova edição, num único volume, de “Poesia Reunida”, de Vasco Graça Moura. A Quetzal tinha publicado a obra em dois volumes em 2012, numa edição ainda revista pelo próprio autor. Agora, 14 anos depois, a editora reúne novamente a poesia de um dos autores mais singulares da literatura portuguesa do século XX e da transição para o XXI.

A nova edição inclui poemas então inéditos, um índice de versos e um prefácio-estudo de Pedro Mexia. A produção poética de Vasco Graça Moura estende-se por cerca de duas dezenas de livros e integra uma obra mais vasta que inclui ensaio, crónica, ficção, diário e tradução. O escritor e tradutor, que morreu em 2014, recebeu, entre outras distinções, o Prémio Pessoa, o Prémio de Poesia do PEN Clube e o Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores.

Julian Barnes

Julian Barnes é outra das figuras de destaque do catálogo de outubro, com “De Olhos Abertos”. O escritor britânico reúne neste volume ensaios sobre pintura, arte e beleza, traçando simultaneamente a evolução do seu próprio olhar enquanto apreciador de obras de arte.

Ao longo dos textos, Barnes percorre diferentes momentos da história da pintura, do Romantismo ao Realismo e ao Modernismo, e escreve sobre artistas como Géricault, Delacroix, Courbet, Manet, Cézanne, Degas, Bonnard, Braque, Magritte, Mary Cassatt, Berthe Morisot, Howard Hodgkin e Lucian Freud. Profusamente ilustrado, o livro estabelece ainda uma relação constante entre pintura e literatura.

Julian Barnes, nascido em Leicester em 1946, é um dos mais reconhecidos escritores britânicos contemporâneos. Em 2011 recebeu o Man Booker Prize pelo romance “O Sentido do Fim”. Grande parte da sua obra encontra-se publicada pela Quetzal.

Frederico Lourenço

Em novembro, Frederico Lourenço apresenta “A Bíblia Adaptada para Jovens”, uma versão que procura tornar acessível um dos grandes textos da tradição judaico-cristã sem perder a dimensão literária do original.

Partindo do Génesis e chegando ao Apocalipse, a adaptação percorre os principais episódios e personagens da Bíblia, de Adão e Eva a Daniel, passando pelas histórias do Antigo Testamento e pelas vidas de Jesus Cristo e São Paulo. A proposta é oferecer aos leitores mais jovens uma viagem coerente por uma obra que, além da dimensão religiosa, constitui também um dos grandes pilares da cultura ocidental.

Professor catedrático da Universidade de Coimbra, Frederico Lourenço é helenista, latinista, ensaísta e ficcionista. Traduziu a “Ilíada” e a “Odisseia”, de Homero, e diversos autores clássicos. A sua tradução da Bíblia grega valeu-lhe o Prémio Pessoa em 2016 e integra um vasto trabalho de tradução e estudo das literaturas clássicas publicado pela Quetzal.

José Eduardo Agualusa

Por seu lado, José Eduardo Agualusa reúne em novembro alguns dos seus contos mais representativos em “A Arte da Deriva — Contos. Uma Antologia Pessoal”. Os textos, escritos ao longo de várias décadas e agora revistos para esta edição, atravessam diferentes geografias e misturam memória e invenção, humor e melancolia, sonho e documento.

Um alfaiate contratado para vestir imbondeiros, um marinheiro de Vasco da Gama que continua vivo numa canção cantada cinco séculos depois no Quénia ou o encontro de Jonas Savimbi com o avô no momento da morte são algumas das imagens que ajudam a definir o universo desta antologia.

Para Agualusa, a literatura encontra caminhos que a História nem sempre consegue acompanhar. Cada conto funciona como uma viagem autónoma, mas todos partilham a ideia de que a imaginação não serve apenas para fugir da realidade: pode também ser uma forma de a observar com maior nitidez.

Nascido no Huambo, em Angola, em 1960, José Eduardo Agualusa estudou Agronomia e Silvicultura e viveu em diferentes cidades, dividindo atualmente o seu tempo entre Lisboa e a Ilha de Moçambique. A sua obra, integralmente publicada pela Quetzal, inclui romances, contos e crónicas. Entre as distinções que recebeu estão o Independent Foreign Fiction Prize, o Dublin Literary Award e o Prémio Oceanos.

Jorge Luis Borges

Também em novembro, a editora recupera “O Livro dos Sonhos”, de Jorge Luis Borges, uma antologia que reúne sonhos, visões e relatos de diferentes épocas e culturas. O escritor argentino constrói uma espécie de história daquilo que a humanidade sonhou, juntando textos que vão das primeiras civilizações a autores modernos como Kafka.

A seleção percorre os grandes textos da tradição ocidental e oriental, passando pelas epopeias clássicas, pela poesia latina, pelo Antigo Testamento, pela filosofia chinesa e por autores como Platão, Eça de Queirós, Machado de Assis, Aragon, Yeats e o próprio Borges.

Publicado originalmente por uma editora de Buenos Aires e posteriormente numa edição europeia de Franco Maria Ricci, “O Livro dos Sonhos” transforma o sonho num território literário universal, capaz de atravessar épocas, geografias e culturas.

Jorge Luis Borges nasceu em Buenos Aires em 1899 e morreu em Genebra em 1986. Poeta, ficcionista, crítico e ensaísta, dirigiu a Biblioteca Nacional de Buenos Aires e tornou-se uma das figuras fundamentais da literatura do século XX. O reconhecimento internacional começou a consolidar-se em 1961, quando recebeu o Prémio Formentor, que partilhou com Samuel Beckett.

José Luís Peixoto

A memória e a relação entre gerações estão no centro de “Menina Alzira”, de José Luís Peixoto, outra das novidades de novembro. O livro nasceu de dezenas de conversas gravadas pelo escritor com a mãe, Alzira Peixoto, ao longo de três anos, quando esta já tinha passado dos 80 anos.

As conversas percorrem a infância em Galveias, a emigração para os arredores de Paris, o Maio de 68, o 25 de Abril, a construção de uma família e um AVC, entre muitos outros episódios. O resultado é simultaneamente a memória de uma mulher alentejana com a antiga quarta classe, um retrato de um Portugal em transformação e o testemunho de uma relação entre mãe e filho.

José Luís Peixoto nasceu em Galveias, em 1974, e é autor de uma obra ficcional e poética traduzida para dezenas de línguas. Vencedor do Prémio José Saramago em 2001 e do Prémio Oceanos em 2016, tem uma parte significativa da sua obra publicada internacionalmente.

Mariana Enriquez

Por fim, novembro traz “Alguém Caminha Sobre o Teu Túmulo”, de Mariana Enriquez, uma incursão da escritora argentina pelo universo dos cemitérios. O livro reúne textos sobre as visitas que a autora fez a cemitérios na Argentina, Chile, México, Estados Unidos e Europa.

Lápides, esculturas, criptas, catacumbas, epitáfios, histórias de mortos famosos e anónimos, lendas, fantasmas e referências ao vudu ou ao vampirismo fazem parte deste percurso. Mas, apesar do cenário, a obra está longe de ser apenas macabra: a deambulação pelos cemitérios serve a Enriquez para descobrir histórias, pessoas, arquitetura e memória, muitas vezes com humor e curiosidade.

Mariana Enriquez nasceu em Buenos Aires em 1973 e é jornalista e ficcionista. Colabora com publicações como The New Yorker, Granta e McSweeney’s e tornou-se uma das vozes mais reconhecidas da literatura argentina contemporânea. Em Portugal, estreou-se com “As Coisas que Perdemos no Fogo”, seguindo-se “A Nossa Parte da Noite”, ambos publicados pela Quetzal.

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