Uma noite num palácio (contada por uma menina de 12 anos)

Quando a minha mãe me disse que íamos passar uma noite num hotel no Bairro Alto, imaginei um quarto bonito, um pequeno-almoço bom e, se tivesse sorte, uma piscina. Não tinha piscina. Mas já lá vamos. O hotel chama-se Palácio Ludovice e, quando entrei, fiquei entre duas emoções ao mesmo tempo: surpresa e felicidade. Foi…
ebenhack/AP
O convite foi do Ludovice Palácio Hotel. Uma experiência que não vou esquecer, porque cada detalhe, cada passo, cada mimo é uma memória guardada no meu coração,
Life

Quando a minha mãe me disse que íamos passar uma noite num hotel no Bairro Alto, imaginei um quarto bonito, um pequeno-almoço bom e, se tivesse sorte, uma piscina.

Não tinha piscina. Mas já lá vamos.

O hotel chama-se Palácio Ludovice e, quando entrei, fiquei entre duas emoções ao mesmo tempo: surpresa e felicidade. Foi exatamente isso que senti. Daquelas surpresas boas que nos fazem querer explorar tudo antes sequer de pousarmos a mala. Mas fiquei quieta, a mão a esconder a boca espantada e os olhos a dançar por todo o lado. Ali mesmo, naquele hall, fizemos as primeiras fotos. Ora eu, ora a mamã. Ai, desculpem, parece que se deve dizer “minha mãe”. Roubei-lhe a mala. E um sorriso também.

Depois subimos ao quarto. O 304. Achei que estávamos num paraíso.

Parecia ter saído de uma fotografia. Ou melhor, parecia ter sido criado para tirar fotografias. E o mais engraçado é que as roupas que tínhamos levado combinavam com a decoração. Tudo tinha tons de azul e branco, como se alguém tivesse planeado aquilo sem nos avisar.

Claro que começámos imediatamente a fotografar.

A minha mãe olhava para os detalhes da decoração. Eu procurava os melhores ângulos.  Somos ambas muito curiosas. Acho que foi a primeira prova de que estávamos a viver a mesma experiência de maneiras completamente diferentes.

Enquanto explorávamos o hotel, fui descobrindo coisas que não esperava encontrar. Corredores enormes, azulejos antigos, escadas, portas, salas e pequenos recantos que pareciam esconder histórias.

A minha mãe contava-me que o palácio tinha sido construído no século XVIII, que sobreviveu ao terramoto de 1755 e que passou por muitas vidas antes de se transformar num hotel.

Eu gostava mais de imaginar quem tinha passado por aqueles corredores há centenas de anos. Era a casa de um senhor arquiteto, como o meu irmão, chamado João Federico Ludovice.

E gostava de pensar se ele também se teria perdido por ali como nós.

Uma das minhas partes preferidas foi simplesmente andar sem destino. Sem horários, sem pressa, sem termos de ir a lado nenhum.

Só explorar. Aquele quadrado de hotel com um restaurante no meio que se via de qualquer janela de qualquer piso. Bastava olhar para baixo. Depois chegou a hora de jantar. No sítio com o nome do dono, até pensei que faltava um “r”, mas depois disseram-me que era assim mesmo.

Então, no restaurante Federico, a minha mãe ficou impressionada com pratos de que eu nunca conseguiria falar como ela fala. Quando lhe perguntam sobre a comida, ela consegue descrever ingredientes, sabores e texturas.

Eu consigo resumir tudo numa frase: Os ovos rotos eram ótimos. As panquecas deliciosas. E aquele cocktail de maracujá sem álcool foi perfeito para um brinde com o Hemingway que a minha mãe escolheu e aproveitou logo para me dizer que era  em homenagem ao Nobel da Literatura.

Mais tarde, a minha mãe foi experimentar uma massagem no spa. Quando voltou, percebi imediatamente que tinha adorado. Vinha a arrastar os chinelos. Nem precisei de perguntar.

Parecia ter regressado das férias dentro das próprias férias. Acho que foi essa a parte favorita dela. A minha foi outra. Uma fonte na sala de jantar. Sim, uma fonte. Incrível não e?

É estranho porque havia muitas outras coisas bonitas no hotel, mas foi aquele detalhe que ficou na minha cabeça. Talvez porque não estava à espera de a encontrar ali. Talvez porque fazia aquele som tranquilo da água a correr.

Ou talvez porque nem sempre são as coisas maiores que ficam na memória.

À noite ainda fomos ao Bar. Estava heio. Brincamos com as palhinhas de arroz e eu continuei a observar tudo à minha volta e a pensar como era estranho estar num palácio antigo no meio de Lisboa e sentir-me ao mesmo tempo numa cidade moderna, a viver uma história de outros tempos. história de outros tempos.

Na manhã seguinte acordei com uma prioridade muito clara. Pequeno-almoço.

A minha mãe estava encantada com a luz a entrar pelas janelas e com a vista para a cidade. Eu estava concentrada nas panquecas. Cada uma com as suas prioridades. Antes de nos irmos embora, a mamã fez-me várias perguntas para saber a minha opinião “profissional” sobre o hotel. Se pudesses vivias aqui? Sim, claro, só precisava de um closet onde coubesse toda a minha roupa. Afinal, a piscina não me fez falta. E no final, percebi uma coisa. Os adultos e as crianças não olham para os lugares da mesma maneira.

A minha mãe reparou na história, nos azulejos, na arquitetura, no vinho, no spa e em todos os detalhes que contam o passado daquele edifício.

Eu reparei nos recantos, no robe à minha medida ( foi o primeiro hotel que se lembrou que eu era uma criança), nos cocktails sem álcool, nos meus pedidos especiais e a possibilidade de correr como se estivesse na minha casa.

Mas talvez seja exatamente isso que torna uma viagem especial. Porque um hotel não é apenas o que vemos. É aquilo de que nos lembramos depois. Diz a minha mãe.

E eu lembro-me, vou-me lembrar sempre, de ter passado uma noite num palácio com a minha mãe, de nos rirmos enquanto tirávamos fotografias e de descobrirmos Lisboa juntas. Ah e de pular de mãos dadas na cama, como se não houvesse amanhã.

 

Mais Artigos