O desafio não é travar os salários, mas criar condições para que sejam sustentados por produtividade, investimento e valor acrescentado.
No segundo trimestre, o índice de custos do trabalho aumentou 5,4% em termos homólogos: 6,7% na construção, 5,7% nos serviços e 5,1% na indústria. O custo médio por trabalhador cresceu 4,9%, enquanto as horas efetivamente trabalhadas diminuíram 0,4%.
A remuneração bruta mensal média subiu 5,1%, para 1.835 euros. No setor privado, aumentou 5,5%, para 1.654 euros. Descontada a inflação, o ganho real foi de 1,8%.
A recuperação do poder de compra é necessária e justa. Mas estará a economia portuguesa a criar valor suficiente para sustentar este crescimento dos custos?
O problema está na produtividade
Não devemos escolher entre salários mais altos e empresas competitivas. Uma economia saudável precisa de ambos. O problema surge quando os custos laborais avançam mais depressa do que a produtividade. Nesse cenário, as empresas têm poucas opções: reduzir margens, aumentar preços, adiar investimento ou contratar menos.
Em 2024, cada hora de trabalho gerou em Portugal cerca de 28,7 euros de riqueza, pouco mais de metade dos 51,2 euros registados, em média, na União Europeia, segundo dados do Eurostat divulgados pela Pordata. Apesar das diferenças de preços entre países, a distância revela o desafio: continuamos a criar pouco valor por cada hora trabalhada.
Esta diferença não mede o empenho dos trabalhadores. A produtividade depende do capital, da tecnologia, das qualificações, da qualidade da gestão, da escala das empresas e da organização dos processos. É um problema estrutural da economia, não uma falha de quem trabalha.
Margens sob pressão
A pressão é especialmente forte nas atividades intensivas em trabalho, nas empresas com margens reduzidas e nos setores expostos à concorrência internacional.
Uma empresa industrial não pode aumentar indefinidamente os preços se os concorrentes estrangeiros produzirem com maior eficiência. Na construção e nos serviços, transferir os custos para os clientes pode reduzir a procura e alimentar a inflação.
Nas empresas mais pequenas, custos laborais mais elevados significam frequentemente menos recursos para equipamentos, novos mercados ou produtos de maior valor. Cria-se um ciclo difícil: a baixa produtividade limita o investimento e a falta de investimento prolonga a baixa produtividade.
Pagar melhor implica produzir melhor
Portugal precisa de salários mais elevados e de empresas capazes de os pagar de forma duradoura. A política salarial deve ser ligada à qualificação, à inovação, à automação e a uma melhor organização do trabalho.
Automatizar não significa apenas substituir pessoas por máquinas. Significa eliminar tarefas repetitivas, reduzir erros e libertar os trabalhadores para funções de maior valor. Quando acompanhada por formação, a tecnologia torna-se uma aliada dos salários mais altos.
A fiscalidade também conta
Existe ainda uma diferença excessiva entre o custo suportado pela empresa e o rendimento líquido recebido pelo trabalhador. Uma parte relevante do esforço salarial perde-se entre impostos e contribuições.
Reduzir a tributação sobre o trabalho permitiria melhorar o rendimento disponível sem fazer recair todo o ajustamento sobre os empregadores. Esta deveria ser uma prioridade num país que precisa de reter talento e competir por investimento.
A resposta não pode passar por comprimir salários. Mas também não deve consistir em criar obrigações laborais sem avaliar o impacto no emprego, no investimento e nas empresas mais vulneráveis. Cada medida deveria responder a três perguntas: quanto custa, quem suporta o custo e como afeta a competitividade?
Transformar custos em valor
Os dados do INE são um aviso. Se os custos laborais continuarem a crescer sem ganhos equivalentes de produtividade, o ajustamento surgirá nas margens, nos preços, no investimento ou no emprego.
Portugal não precisa de uma economia de baixos salários. Precisa de deixar de ser uma economia de baixa produtividade. A ambição deve ser clara: empresas mais eficientes, trabalhadores mais qualificados, melhores salários e maior capacidade para competir.
Não se trata de escolher entre pessoas e empresas, mas de construir empresas que criem valor suficiente para investir nas pessoas. É essa a diferença entre aumentar salários por pressão e aumentá-los por prosperidade.
Ramiro Brito,
Presidente da AEMINHO / CEO Grupo Érre





