A semaglutida, substância ativa que está na base dos populares medicamentos Ozempic e Wegovy, poderá vir a desempenhar um papel importante no tratamento da perturbação do uso de álcool, vulgarmente conhecida como alcoolismo. A conclusão resulta de um ensaio clínico conduzido pela Universidade do Colorado Anschutz, nos Estados Unidos, que identificou benefícios significativos da versão oral do medicamento na redução do consumo excessivo de álcool.
Segundo os resultados do estudo, a semaglutida oral reduziu o número de dias de consumo excessivo de álcool, diminuiu a quantidade ingerida em cada ocasião, reduziu os desejos diários de consumo e ajudou a atenuar os problemas relacionados com o álcool em 50 adultos com perturbação moderada a grave do uso de álcool.
Os investigadores consideram que os resultados representam um potencial avanço numa área terapêutica em que existem poucas opções farmacológicas disponíveis e em que a inovação tem sido particularmente limitada.
Uma área sem novos medicamentos há quase 20 anos
O estudo ganha relevância pelo facto de não ter sido aprovado qualquer novo medicamento para a perturbação do uso de álcool desde 2006. De acordo com a Universidade do Colorado, apenas três medicamentos contam atualmente com aprovação da Food and Drug Administration (FDA) para o tratamento desta condição.
Para o médico Joseph Schnacht, envolvido na investigação, a semaglutida poderá representar uma alternativa importante para doentes que não obtiveram resultados com as terapias atualmente disponíveis: “A semaglutida pode representar uma nova opção de tratamento para a perturbação do uso de álcool, particularmente para aqueles que não beneficiaram dos medicamentos existentes”, afirmou.
Menos álcool e menos canábis
Além da redução do consumo de álcool, os participantes do estudo registaram também uma diminuição do consumo de canábis. Os investigadores observaram ainda uma elevada adesão ao tratamento e uma boa tolerabilidade ao medicamento, com efeitos secundários maioritariamente ligeiros.
A escolha da formulação oral foi deliberada. Embora versões injetáveis da semaglutida já tivessem sido testadas anteriormente nesta área e demonstrado resultados promissores, a equipa de investigação considerou que um comprimido teria maior aceitação junto da população-alvo.
O que se segue?
Os resultados agora divulgados são considerados encorajadores, mas os investigadores sublinham que ainda são necessários estudos de maior dimensão.
A Universidade do Colorado Anschutz e outras instituições académicas estão já a preparar ensaios clínicos mais amplos e de maior duração para confirmar os resultados e determinar qual a dosagem ideal da semaglutida para o tratamento da perturbação do uso de álcool.
Uma condição que afeta milhões de pessoas
A perturbação do uso de álcool continua a ser um importante problema de saúde pública. Dados do National Survey on Drug Use and Health indicam que, só nos Estados Unidos, 27,9 milhões de pessoas com 12 ou mais anos sofreram desta condição no último ano. A doença caracteriza-se pela incapacidade de controlar o consumo de álcool apesar das consequências negativas que este provoca na vida pessoal, familiar, profissional ou social.
Os resultados agora apresentados reforçam uma tendência que tem vindo a despertar crescente interesse na comunidade científica: o potencial dos medicamentos originalmente desenvolvidos para a diabetes e a perda de peso no tratamento de outras dependências e comportamentos compulsivos. Embora ainda seja cedo para falar numa nova indicação terapêutica aprovada, a semaglutida poderá vir a abrir uma nova frente no combate a uma doença para a qual as opções farmacológicas permanecem limitadas.
Texto original aqui. Artigo traduzido e editado por Paulo Marmé.





