Samantha Shannon: “É importante fazermos este trabalho de contar as histórias das mulheres a partir da nossa própria perspetiva”

Samantha Shannon é a autora das séries “The Roots of Chaos” e “The Bone Season”, a primeira com dois livros que já foram traduzidos para português: “O Priorado da Laranjeira” e “O Dia em que a Noite Caiu”. Nasceu em Londres e lembra-se de escrever a sua primeira história com apenas nove anos. Nessa altura…
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A autora britânica Samantha Shannon foi uma das convidadas da edição de 2026 da Feira do Livro de Lisboa. Durante a sua passagem por Portugal, a Forbes falou com ela sobre os seus livros, feminismo no universo literário e a inteligência artificial.
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Samantha Shannon é a autora das séries “The Roots of Chaos” e “The Bone Season”, a primeira com dois livros que já foram traduzidos para português: “O Priorado da Laranjeira” e “O Dia em que a Noite Caiu”.

Nasceu em Londres e lembra-se de escrever a sua primeira história com apenas nove anos. Nessa altura já tinha uma boa dose de ambição e tentou publicá-la: “Tentei publicá-la, mas enviei-a para a Puffin sem qualquer endereço, por isso ainda hoje não sei onde é que essa história foi parar, era a única cópia que tinha”, conta à Forbes Portugal.

Aos 12 anos o hobby passou a ser uma coisa mais séria e três anos depois escreveu o seu primeiro livro completo, que não conseguiu publicar. O “The Bone Season”, primeiro livro da série, nasceu durante os seus anos de universidade. “Foi vendido à Bloomsbury Publishing quando eu tinha 20 anos e isso despertou um interesse internacional por mim. Ninguém tinha lido o livro nessa altura, mas eu era tão jovem, tinha escrito o livro aos 19, por isso acho que as pessoas estão sempre muito interessadas em jovens que alcançam coisas tão cedo. Estava a estudar Língua e Literatura Inglesa em Oxford e foi o início da minha carreira”, acrescenta.

Para quem ainda não leu os seus livros, o que é que as pessoas podem esperar deles?
Tenho duas séries: uma delas é a “The Bone Season”, que foi o meu livro de estreia, com o mesmo nome. “The Bone Season” é uma fantasia distópica e é sobre uma clarividente irlandesa que enfrenta uma segunda versão do Império Britânico fundada pelos deuses e que se apaixona por um deles, por isso é uma espécie de mistura de ação, suspense e história de amor, mas sim, é principalmente fantasia distópica. Depois, “The Roots of Chaos” é algo que eu descreveria mais como fantasia épica clássica, ou seja, cavaleiros e dragões, rainhas e cortes. É um recontar feminista da lenda de São Jorge e do Dragão. Cresci com essa lenda porque fui criada na Igreja da Inglaterra e São Jorge é o santo padroeiro de Inglaterra. Sempre fiquei fascinada pela história de Jorge a salvar uma princesa do dragão, sempre tive curiosidade em saber quem ela realmente era, porque nunca soube o nome dela quando era criança. Pesquisei bastante sobre as diferentes versões dessa lenda e a sua origem e descobri que algumas versões da lenda são, na verdade, muito problemáticas, muito misóginas, xenófobas e racistas, e eu queria fazer algo para enfrentar isso e desafiá-la, por isso escrevi uma história sobre pessoas de muitas origens, particularmente mulheres, todas elas a unirem forças para vencer este inimigo comum.

Acha que os livros foram bem recebidos na comunidade ligada à religião?
Não ouvi falar muito sobre isso especificamente, muitas pessoas não interagem online sobre os livros que leem e muitas não deixam críticas, por isso só se recebe feedback de uma pequena percentagem das pessoas. Acho que ressoou junto de algumas pessoas que estavam na igreja e depois saíram, ouvi falar de pessoas que anteriormente tinham sido cristãs e que tinham passado pela mesma jornada que eu, acabando por decidir que não era a escolha certa para elas. Não se destina, de forma alguma, a insultar pessoas religiosas, é muito pessoal para mim, pretende ser, acima de tudo, sobre tolerância. A maioria das personagens principais são religiosas, e pretende ser uma reflexão sobre como, a nível individual, a religião pode ser maravilhosa e motivadora. Muitas das personagens principais interpretam a religião de uma forma positiva para si. Existe uma religião chamada six virtues of knighthood, que fala de generosidade, coragem e coisas boas a praticar, e acho que muitos dos personagens são pessoas melhores por serem religiosos, mas trata-se também de como, nas mãos erradas, a religião — particularmente a religião organizada — pode ser distorcida de uma forma que controla e oprime as pessoas, por isso pretende mostrar os dois lados da moeda.

“O Priorado da Laranjeira” é o primeiro livro da série “The Roots of Chaos”.

Em ambas as séries, a Samantha cria mundos vastos e ricos. Por onde costuma começar: personagens, cenário, história?
Depende do projeto. A “The Bone Season” começou por duas ideias distintas: uma delas era sobre Oxford ser uma espécie de prisão. Eu não estava a passar pelo melhor momento na universidade, sentia-me completamente deslocada em Oxford. É um lugar bastante isolado, porque estás lá por períodos académicos muito curtos e estás extremamente concentrada no teu trabalho, há uma expressão que costumávamos usar, a “bolha de Oxford”, porque parecia que o resto do mundo estava a desaparecer, estás apenas aqui neste lugar estranho. Então, havia essa ideia e, separadamente, tinha a ideia sobre uma espécie de inquisição ou caça às bruxas contra a clarividência, e isso passava-se em Londres. Provavelmente poderiam ter sido duas ideias separadas, mas sou bastante ambiciosa, por isso decidi juntá-las e, pouco depois de ter tido essas duas ideias, a minha personagem principal surgiu na minha cabeça e ouvi a voz dela muito claramente. Foi principalmente o conceito que surgiu primeiro, mas seguido de perto pela personagem. E depois, “The Roots of Chaos” surgiu precisamente desse desejo de confrontar a lenda de São Jorge e do Dragão.

Tem alguma personagem favorita?
É difícil escolher, mas para mim é uma personagem chamada Arcturus, que é o interesse amoroso na série “The Bone Season” e a razão pela qual estou tão ligada a ele é porque ele está na minha cabeça há mais tempo. Criei a versão mais antiga dele para o livro que escrevi quando era adolescente, ele está na minha cabeça há mais de 20 anos, vivi mais tempo com ele na minha cabeça do que sem ele. Além disso, sinto-me muito próxima de certas personagens da série “The Roots of Chaos”, que são muito semelhantes a mim em alguns aspetos. A Glorian é uma personagem de “A Day of Fallen Night”, ela é muito inspirada na minha versão adolescente, a Dumai é uma personagem que tem mais ou menos a mesma idade que eu tinha quando escrevi o livro e ela tem uma trajetória semelhante, ao demorar a perceber a sua sexualidade. E a Paige, a narradora de “The Bone Season”, porque é uma série de sete livros e tudo é contado da perspetiva dela, sinto-me muito próxima dela também.

O que acha que a fantasia consegue fazer que outros géneros literários não conseguem?
Acho que é o género das possibilidades, em que o único limite é a imaginação do autor. É um género muito versátil, pode-se fazer qualquer coisa sem, teoricamente, infringir quaisquer regras. Pode-se combiná-lo com praticamente qualquer outro género e continua a ser fantasia. Como disse, combinei-o com a distopia na série “The Bone Season”, mas continua a ser fantasia. Em cada livro, tentei combinar a fantasia com outro género. Por outro lado, num outro género como uma ficção contemporânea, por exemplo, se lhe colocarmos um unicórnio quebra imediatamente as regras da ficção contemporânea. Adoro o facto de ser um género tão vasto, há tantas coisas diferentes que se podem fazer e acho maravilhoso que agora estejamos a começar a ver fantasia que se inspira em mitologias fora do Ocidente, por exemplo. É tão diverso, interessante e versátil, e acho que vou escrever sempre neste género.

Gostaria de experimentar a ficção histórica em algum momento, mas acho que vou sempre voltar à fantasia, sinto-me em casa.

O que acha que tem impulsionado esta recente onda de novas versões feministas, especialmente no género da fantasia?
É muito bom, na fantasia e também na mitologia. Acho que se deve ao facto de, muitas vezes, as mulheres serem relegadas para as margens da história e da mitologia. Por exemplo na Lenda de Jorge e do Dragão, a mulher é, na maior parte das vezes, apenas um prémio para o homem, como se ela não tivesse realmente uma história própria. Acho que é verdadeiramente empoderador colocar estas personagens femininas no centro e imaginar como teria sido a história na perspetiva delas. Há uma autora chamada Sara El Arifi, que vive no Reino Unido, e que escreveu recentemente uma reinterpretação de Cleópatra. E isso deve-se especificamente ao facto de sabermos muito pouco sobre a verdadeira Cleópatra, mas a sua lenda foi tão idealizada e ela foi tão demonizada ao longo do tempo. São situações como essa em que se consegue ultrapassar todas as formas como os homens têm contado histórias sobre as mulheres e colocar as mulheres no centro, a partir da sua própria perspetiva, Acho que isso é muito empoderador. Li uma estatística que diz que cerca de 0,5% de toda a história registada é sobre mulheres, o que é uma percentagem tão minúscula dos registos globais, por isso acho que é realmente importante que estejamos a fazer este trabalho de contar as histórias das mulheres a partir da nossa própria perspetiva.

É importante que sejam as mulheres a contar essas histórias e não os homens a imaginar o que isso poderia ter significado na realidade.
Exatamente, acho que não há problema em os homens escreverem sobre mulheres, mas acho que o problema com que nos temos deparado ao longo do tempo é que, na verdade, têm sido principalmente os homens a escrever sobre mulheres. Somos metade da população total e apenas 0,5% da história registada sobre nós. Isso não está certo, devia ser, pelo menos, 50/50. Acho que estamos todos a trabalhar em conjunto para tentar resolver essa questão.

Que responsabilidade, se é que existe alguma, têm os autores de fantasia na formação de ideias sobre género e liderança?
Acho que a fantasia é um bom género para refletir sobre ideias do mundo real. Por vezes, na ficção contemporânea, pode parecer um pouco que se está a dar sermões ao leitor se for demasiado próximo da realidade, e os leitores são inteligentes, sabem quando lhes estão a dar sermões. Por outro lado, na fantasia, por ser uma espécie de espelho distorcido do nosso mundo, é possível mostrar coisas ao leitor e convidá-lo a refletir sobre elas sem necessariamente dizer o que se pensa sobre o assunto.

Lembro-me de que, no início da minha carreira, havia essa ideia de criar role models femininos e acho que isso pode ser bastante restritivo, porque sugere que, quando se cria uma personagem feminina, ela tem de ser perfeita, e não acho que deva ser assim. Acho que isso é muito restritivo para as criadoras, mas também não é muito útil para as mulheres na vida real, porque, se criarmos um modelo a seguir, isso sugere que existe uma espécie de paradigma e que o seu comportamento tem de ser perfeito, sem deixar margem para crescimento. Acho que é muito mais interessante mostrar uma personagem humana imperfeita e complexa e fazê-la passar por uma jornada em que ela se torne uma pessoa melhor. Por isso, quando crio personagens femininas, tento apenas imaginá-las como pessoas reais. Penso: como é que as coisas que aconteceram a estas personagens afetariam as suas personalidades e as suas ações agora? Que margem de manobra tenho na construção das suas personalidades? Para onde podem ir a partir daqui? E como é que as pessoas à sua volta irão influenciar essa jornada? E é nisso que prefiro pensar.

Não acho que haja necessariamente a responsabilidade de mostrar uma pessoa boa, mas gosto de mostrar pessoas reais a passar por problemas reais com os quais o leitor também possa ter-se deparado.

Olhando para o futuro, que tipo de vozes, perspetivas ou mesmo histórias acha que ainda faltam no mundo da fantasia?
Gostaria muito de ler mais obras traduzidas. Estive recentemente na Eslovénia e participei num evento com uma autora eslovena de fantasia, tinha muita vontade de ler o trabalho dela, mas como ainda não foi traduzido não consegui ler. Há tantos autores de fantasia por todo o mundo cujas obras ainda não foram traduzidas, seria ótimo se tivéssemos, de um modo geral, muito mais traduções entre várias línguas diferentes, porque sinto que há toda uma área da fantasia à qual não consigo aceder porque só falo inglês fluentemente. Também é preciso abrir muito mais espaço para autores de cor. Estamos a melhorar na forma de abordar esse equilíbrio e agora vejo muito mais fantasia que se inspira em culturas às quais tradicionalmente não era dado esse espaço, mas continuo a achar que há trabalho a fazer para corrigir esse desequilíbrio.

Acha que os próprios leitores devem ser intencionais nesse aspeto? Ou seja, eles próprios escolherem ler mais autoras mulheres, de nacionalidades e origens diferentes.
Sim, concordo mesmo com isso. Li recentemente uma estatística que dizia que as mulheres costumam ler tanto autores masculinos como femininos. Os homens não leem muitos autores femininos e acho isso triste, porque uma das coisas fantásticas da leitura é que é o mais próximo que alguma vez chegaremos de nos colocar no lugar de outra pessoa. Neste momento existe esta tensão entre homens e mulheres, parece que os homens estão — mais uma vez, não todos os homens, mas muitos — a ser encorajados a ver as mulheres como objetos a serem conquistados. Acho que se os homens lessem mais obras escritas por mulheres compreenderiam que não somos criaturas alienígenas, somos seres humanos, e acho que o facto de eles não lerem obras escritas por mulheres não ajuda, pelo contrário, aumenta essa divisão entre nós. Dito isto, leio principalmente obras escritas por mulheres e acho que isso se deve ao facto de, quando li homens a escrever sobre mulheres no passado, ter sentido que não me identificava realmente com a forma como retratavam as mulheres, mas já li alguns livros escritos por homens que adorei e que achei que respeitavam as mulheres. Estou a tentar ser mais seletiva nas minhas leituras também.

“The Bone Season” é a primeira série publicada por Samantha Shannon.

Como é a sua rotina de escrita num dia normal?
Não é assim tão interessante. Já li sobre alguns autores, acho que o Dan Brown tem de ficar pendurado de cabeça para baixo ou algo do género. Eu acordo às 5h da manhã todos os dias contra a minha vontade, o meu cérebro acorda-me por alguma razão, dou um passeio, bebo uma chávena de café e começo a trabalhar. Tenho uma doença crónica, um distúrbio cerebral chamado visual snow syndrome, que é uma doença rara que provoca enxaquecas e me faz ver as coisas de uma forma bastante invulgar. Por isso, não consigo escrever todos os dias e quero salientar isso, por vezes vejo conselhos de autores a dizer que é preciso escrever todos os dias para ser escritor, eu não escrevo todos os dias, não consigo fazer isso, às vezes sinto dores demasiado fortes para escrever ou estou demasiado exausta para o fazer. Escrevo sempre que posso e, quando tenho um dia bom, consigo trabalhar muitas horas, mas não tenho nenhuma rotina interessante nem nada do género.

Que tipo de conversas espera que os seus leitores tenham depois de lerem os seus livros?
Depende do livro. Há temas sobre os quais reflito em todos os livros e há outros que são muito específicos de cada um. Por exemplo, “A Day of Fallen Night” trata sobretudo a autonomia corporal e o direito de escolher se se quer ou não ser pai ou mãe. Eu própria nunca quis ser mãe e acho que esta é uma perspetiva que muitas pessoas não compreendem, por isso quis falar sobre isso e tentar explicá-lo um pouco a partir da perspetiva de algumas das personagens. Mas também, separadamente, para celebrar a maternidade, porque acho que a minha própria mãe é maravilhosa, conheço tantas mães maravilhosas que quis que fosse uma reflexão abrangente sobre a maternidade e a celebração do nosso direito de escolha. Na “The Bone Season”, como se trata de uma distopia sobre um determinado grupo de pessoas oprimidas, surgem temas relacionados com a justiça. Falo com bastante franqueza sobre tortura, opressão, sobre muitos assuntos sérios. Não quero dizer exatamente o que quero que o leitor pense, porque, mais uma vez, não estou a tentar dar lições ao leitor, apresento estes temas para que cada um reflita sobre eles.

E cada leitor aborda um livro com um conjunto totalmente diferente de experiências de vida, não sei a quem me dirijo quando escrevo, mas acho maravilhoso que a própria vida de cada um venha a influenciar a forma como se reage a um livro.

O quanto é que a indústria editorial mudou desde que a Samantha começou até agora?
Mudou de muitas formas, as conversas que temos vindo a ter mudaram. Por exemplo, no início da minha carreira, havia uma fixação nas personagens femininas fortes, que tendiam a ser personagens que personificavam ideais tradicionalmente masculinas. Essa foi uma discussão que se prolongou por vários anos. Agora centram-se muito mais em personagens femininas complexas e com nuances. Essa é uma mudança. Há muitas novidades no lado comercial. Por exemplo, agora existem estas caixas por assinatura, como a Illumicrate, a Fairyloot e a Owlcrate. Elas mudaram completamente o panorama do que significa ser um best-seller e abriram mais oportunidades para os autores se tornarem best-sellers. Neste momento, há o boom da “romantasy” [romance e fantasia]. Os géneros e as tendências mudaram, no início da minha carreira ainda estávamos na fase final da onda distópica, depois houve uma transição para a fantasia, com um pouco de fantasia paranormal e fantasia urbana, depois tornou-se mais épico e agora a “romantasy”.

Tem sido interessante observar essas mudanças ao longo dos anos.

As comunidades que surgiram dedicadas aos livros online, BookTok e BookTube, como é que mudaram a forma como a fantasia é descoberta e discutida entre os leitores?
Na verdade, não uso muito o TikTok, mas devo a minha carreira atual a essa plataforma, porque o “The Priory of the Orange Tree” tornou-se viral no TikTok e, no início, eu nem sabia o que se estava a passar, só percebi que as minhas vendas tinham disparado do nada. Não achava que o “The Priory of the Orange Tree” fosse o tipo de livro que se torna viral, é muito extenso, o que significa que pode ser bastante intimidante para alguns leitores, e é muito gay. Na altura, havia a ideia generalizada de que a ficção lésbica não vendia bem porque, estatisticamente, a maioria dos leitores é do sexo feminino e presume-se que a maioria delas seja heterossexual e não se consiga identificar com a ficção lésbica. Pensei que estava disposta a correr o risco, mas não esperava que tivesse grande impacto, devido ao que me tinham dito, e acabou por vender mais de um milhão de exemplares. Isso deveu-se fundamentalmente ao TikTok e acho que também teve a ver com a pandemia, as pessoas tinham mais tempo para ler um livro volumoso. Estou muito grata à comunidade do TikTok, porque a minha carreira antes disso estava um pouco instável e isso mudou completamente a minha vida depois de tudo o que aconteceu.

Mas não estando no TikTok, não tenho conseguido acompanhar de perto as conversas. Na minha opinião, o marketing no TikTok baseia-se muito mais em tropes e em ideias curtas e fáceis de assimilar, o que não considero necessariamente uma coisa má, mas acho que corre o risco de se perder a complexidade. Tenho tentado não me deixar levar demasiado por isso. O meu livro tem um slogan, “enemies to lovers romance”, mas não sinto motivação pessoal para comprar um livro se vejo a lista de tropes. Tem sido interessante porque a fantasia se cruzou, através do TikTok, com a comunidade do romance, que tem uma base de vendas enorme e tem formas ligeiramente diferentes de fazer marketing e interagir com as pessoas. Tem sido um cruzamento interessante e bom. Acho que, como o romance tem tantos leitores, isso incentivou muito mais pessoas a entrar na fantasia, mas sim, não tenho a certeza do que pensar sobre o marketing baseado em tropes. Simplesmente não é algo que eu tenha decidido fazer.

De que forma é que o feedback dos leitores influencia ou não a sua escrita?
Eu vou ao Goodreads, mas ativo o filtro de cinco estrelas para ver só as coisas positivas. Não é que eu não consiga aceitar críticas, estou constantemente a esforçar-me por ser uma artista melhor, por isso escrevi as versões recomendadas pela autora da série “The Bone Season”, que foi basicamente uma revisão completa e minuciosa que fiz após a publicação. Acho que já me critico o suficiente sem precisar de feedback adicional. Se houver demasiadas opiniões e estiveres a tentar agradar a toda a gente, acho que não vais satisfazer ninguém. Uma vez li duas críticas ao “O Priorado da Laranjeira”, uma dizia que o livro era demasiado rápido e a outra que era demasiado lento. Como é que eu, enquanto autora, devo responder a isso? Não consigo agradar a esses dois leitores, tenho de escolher um ou outro. Por isso, geralmente não procuro feedback, já trabalho frequentemente com vários editores nos meus livros, que tentam melhorar a obra comigo. Não é possível agradar a toda a gente e isso é algo que tens de aceitar como artista: assim que lanças a tua obra para o mundo, nem toda a gente vai gostar dela e tens de estar à vontade com isso.

“O Dia em que a Noite Caiu” é uma pequela da série “The Roots of Chaos”.

Reparou em algum efeito positivo ou negativo desta influência das redes sociais na popularidade dos livros, especificamente na fantasia?
Tive de gerir a minha relação com as redes sociais com bastante cuidado. Estive no Twitter durante 10 anos e, a certa altura, especialmente durante a pandemia, senti que muitas conversas sobre livros estavam a tornar-se tóxicas. Por outro lado, o Twitter tinha muitas discussões valiosas antes da pandemia, mas tive de sair porque estava a afetar gravemente a minha saúde mental. Passei grande parte da pandemia sozinha, porque vivia sozinha e o governo britânico esqueceu-se das pessoas que viviam sozinhas durante algum tempo, por isso não pude ver ninguém durante meses e dependia excessivamente do Twitter. Acho que, por estar tão exposta a isso, começou a distorcer realmente a minha forma de pensar. Pessoalmente, acho o Instagram um lugar muito mais agradável, lá também há discussões, mas o algoritmo não recompensa a raiva da mesma forma, por isso tem sido um lugar confortável para mim e é a única rede social em que estou regularmente. Tenho uma conta no TikTok, mas não a uso muito, e a minha editora gere agora a minha conta no Twitter. Acho que se tiveram conversas muito valiosas nas redes sociais.

Já sentiu, ou conhece autores que tenham sentido, pressão para criar livros que sejam adequados para o TikTok ou para as comunidades online?
Eu pessoalmente não o faço, mas tenho a sorte de já estar relativamente estabelecida, não sinto que precise de escrever seguindo as tendências, mas já tenho dois milhões de vendas no meu currículo, o que me coloca numa posição muito diferente da de alguém que é novato na indústria. Consigo compreender a tentação de escrever sobre as tendências do TikTok, mas se escreveres sobre uma tendência, tens de o fazer muito rapidamente, porque elas surgem e desaparecem muito depressa. Na indústria aconselha-se a não escrever sobre tendências, porque se começares a escrever um romance distópico no meio dessa tendência, quando terminares e ele for publicado, a tendência já terá passado. Não me sinto qualificada para comentar isto, porque não estou muito presente no TikTok, mas sim, preocupo-me com o facto de se escreverem livros medíocres com o marketing em mente, mas também consigo compreender isso, porque o panorama atual é realmente difícil.

Agora também estamos a competir com a inteligência artificial (IA), muitas pessoas parecem estar a lançar estes livros de romance produzidos em massa pela IA. Houve recentemente um artigo no New York Times sobre uma pessoa chamada Coral Hart, que, se não me engano, afirmou ter produzido algo como 200 livros de romance num ano e alegou que estava a ganhar um salário de seis dígitos com isso. É realmente difícil e tenho pena dos novos autores, porque vai ser muito mais difícil estabelecer a confiança dos leitores de que se trata realmente do seu trabalho. E também se está a competir, especialmente no panorama da auto publicação e em plataformas como o Kindle Unlimited, não só contra muitos outros autores, mas também contra a IA. Por isso, compreendo perfeitamente porque é que as pessoas sentem que precisam de recorrer a aos temas fáceis de comercializar.

Acha que há lugar para a inteligência artificial na indústria editorial?
Não, sou totalmente contra. Sei que algumas editoras estão a adotar esta tecnologia, provavelmente por motivos administrativos. Não tenho problemas com a IA como ferramenta de apoio, mas não concordo com a IA generativa. Sou totalmente contra a sua utilização em livros, na narração de audiolivros e na tradução. Acho que foi a Harlequin que despediu recentemente todos os seus tradutores franceses e substituíram-nos por IA. Tenho um enorme respeito pela tradução como forma de arte, não se trata apenas de substituir uma palavra de uma língua por outra, o tradutor é também ele próprio um artista, tem de fazer tanta interpretação pessoal e preencher esse espaço com o seu próprio coração. Quanto à minha narradora de audiolivros, trabalho com a Alana Kerr Collins na “The Bone Season” há anos, ela é tão boa. Fico enjoada só de pensar na IA a narrar a voz das minhas personagens.

Incomoda-me particularmente quando as pessoas afirmam que criticar a IA é uma atitude discriminatória e que esta ajuda as pessoas com deficiência a aproximarem-se da arte. Eu sou portadora de uma deficiência, tenho esta condição cerebral que dificulta a escrita, mas sinto que isso insulta os artistas com deficiência e com doenças crónicas que trabalham apesar da dor e de tantas dificuldades e, mesmo assim, criam arte por si próprios. Nós temos, de facto, a capacidade de o fazer. Fico realmente frustrada quando vejo pessoas a usarem-nos como desculpa para recorrer à IA generativa, é basicamente um atalho que permite às pessoas sentirem que fizeram algo sem qualquer prática, sem qualquer respeito pela arte. E eu penso: por que queres ser escritor se não queres escrever? Para mim, isso não faz sentido.

O novo livro de Samantha Shannon é publicado em fevereiro de 2027.

O que podemos esperar da Samantha num futuro próximo?
O meu próximo livro chama-se “The Moth Reborn” e é o sexto volume da série “The Bone Season”, vai ser lançado em fevereiro. Estou entusiasmada porque é o penúltimo livro da série, o que significa que está quase terminada, mas vai ser assustador porque tenho vindo a trabalhar nesta série desde os meus 19 anos e acho que quando o último for publicado terei quase 40, é uma parte bastante significativa da minha vida. Depois disso, vou escrever mais um livro da série “Roots of Chaos”. Também vou fazer uma reinterpretação da deusa grega Íris. A Íris é uma deusa bastante secundária, é a deusa do arco-íris e a mensageira dos deuses. E depois disso tenho uma ideia para outra série, que vai ser inspirada nas minhas várias viagens pela Europa ao longo dos anos, mas ainda não posso dizer nada sobre isso, e ainda não a vendi.

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