“Personae”: a exposição do Novobanco onde a fotografia deixa de retratar pessoas para encenar identidades

A exposição “Personae”, inaugurada esta semana no espaço da Coleção de Fotografia do Novobanco, em Lisboa, reúne nomes consagrados da fotografia como Cindy Sherman, Marina Abramović, ORLAN ou Helena Almeida para explorar o tema da identidade como construção visual, social e política. Antes da abertura da mostra, a curadora Alexandra Conde guiou a Forbes Portugal…
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“Personae” é a mais recente exposição da Coleção de Fotografia do Novobanco. Abriu esta semana, reunindo artistas como Cindy Sherman, Marina Abramović e ORLAN para explorar a identidade como encenação e construção visual, numa mostra onde as imagens funcionam mais como personagens do que como retratos.
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A exposição “Personae”, inaugurada esta semana no espaço da Coleção de Fotografia do Novobanco, em Lisboa, reúne nomes consagrados da fotografia como Cindy Sherman, Marina Abramović, ORLAN ou Helena Almeida para explorar o tema da identidade como construção visual, social e política. Antes da abertura da mostra, a curadora Alexandra Conde guiou a Forbes Portugal pela exposição.

A Coleção de Fotografia do Novobanco pode ser visitada no espaço que a instituição bancária tem numa cave na zona do Marquês de Pombal, em Lisboa

Alexandra Conde explica que “em arte plástica, Personae se refere ao processo em que o artista assume deliberadamente o papel de outra identidade, real, ficcional ou construída, transformando essa apropriação num personagem artístico”. E é isto que temos nesta exposição.

Para a curadora e conservadora da Coleção de Fotografia do Novobanco, esta amostra de 16 fotos trata-se de “uma encarnação temporária que permite explorar temas como identidade, género, alteridade, poder e memória”. Para essa “encarnação”, os próprios fotógrafos tornaram-se protagonistas da foto, assumindo a vivência das figuras que representam, nalguns casos não apenas como uma mera encenação circunstancial (uma pose especial apenas para a foto), mas com as imagens captadas a espelharem a vivência em comunidade que os fotógrafos decidiram experienciar durante vários dias, semanas ou meses.

A ideia de transformação percorre toda a exposição, onde os artistas não documentam personagens: tornam-se essas personagens.

A entrada na mostra é feita com “Cindy Comboy”, de Cindy Sherman, com a fotógrafa a utilizar a estética como mecanismo de crítica social. A moldura dourada e o brilho ostensivo do ouro surgem, segundo Alexandra Conde, como “instrumentos de poder e uma ferramenta estratégica de ostentação”. O resultado é “uma crítica mordaz à elite contemporânea e à máscara da aparência”.

Cindy Sherman tem também outras fotos nesta exposição. Uma é “Film Still”, em que a artista reproduz a iluminação e os ângulos dramáticos do cinema clássico para criar aquilo que Alexandra Conde descreve como “um fotograma de um filme inexistente”. A imagem parece familiar, como se pertencesse à memória coletiva do cinema americano, mas não remete para nenhuma narrativa real.

Noutra obra de Sherman presente na exposição, associada à figura do palhaço, a tensão desloca-se para um território mais físico e perturbador. “Cindy Sherman tenta anular a fronteira entre o riso e o medo”, observa a curadora, apontando para detalhes como “o peluche e o peito desigual” enquanto “pontos de rutura” entre a inocência infantil e a deformação corporal. A fotografia funciona quase como um retrato grotesco da própria artificialidade da identidade.

Ao fundo, à esquerda, foto de Cindy Sherman; ao fundo à direita, foto de ORLAN

Se Sherman trabalha a identidade através da teatralidade visual, ORLAN transforma o próprio corpo em território de confronto cultural. Na obra apresentada em “Personae”, a artista funde o seu rosto com os anéis tradicionalmente usados pelas mulheres Padaung, da Birmânia, questionando padrões de beleza impostos por diferentes sociedades. “O corpo é o nosso último espaço de liberdade e de resistência”, resume Alexandra Conde.

As imagens reunidas por Alexandra Conde, a partir do vasto espólio fotográfico do Novobanco, operam num território onde o retrato assume uma vertente de ficção, de performance e de encenação.

A ideia do corpo enquanto campo político atravessa igualmente o trabalho de Marina Abramović. Na exposição, a artista recupera a iconografia de Santa Teresa de Ávila para transformar uma cozinha doméstica num espaço ritualizado e espiritual. O quotidiano ganha uma dimensão quase litúrgica, como se o cenário banal pudesse tornar-se palco de transcendência física e emocional.

Na obra de Jane & Louise Wilson patente, a memória surge fragmentada, quase arqueológica, numa biblioteca cheia de livros por recuperar. A curadora descreve-a como “bibliotecárias de memórias perdidas”, interessadas em resgatar vestígios esquecidos e transformá-los em narrativas visuais.

Fotos de Marina Abramović (à esquerda) e Jane & Louise Wilson

Em Helena Almeida, a relação entre corpo e imagem assume outra natureza. “Sentindo que a pintura já não bastava, Helena Almeida habita o próprio quadro”, refere Alexandra Conde que destaca o facto de o rosto da artista surgir pintado de azul, apresentando-se, assim, como um elemento de pintura em cima da fotografia. Essa ocupação física da obra assinala, segundo a curadora, “a rutura definitiva com a pintura e a transição para a fotografia”. O corpo deixa de ser objeto representado para passar a integrar materialmente a própria construção visual, numa sequência de doze fotogramas que retratam uma cena, quase como se fosse estilo filme.

Fotos de Helena Almeida (ao centro) e Cindy Sherman (à direita)

A exposição inclui ainda obras de Erwin Olaf, cuja estética meticulosamente construída cria imagens de aparente perfeição formal. As duas fotos horizontais de Erwin Olaf são descritas por Alexandra Conde como universos de “branco sobre branco”, marcados por “uma atmosfera de frio e silêncio, onde a perfeição encobre uma tensão oculta”. A referência à pintura clássica é evidente nas poses e na composição, mas o resultado final permanece profundamente contemporâneo, quase clínico. São duas fotos de grande força que podem viver separadamente, mas o facto de estarem juntas torna-as quase magnéticas nesta exposição.

Obras de Erwin Olaf

Essa dimensão cinematográfica reaparece na imagem de Hannah Starkey que recria um estúdio de televisão. Sob “holofotes impiedosos” e uma tonalidade azul, como lhes chama a curadora, a personagem feminina da artista parece existir num instante suspenso entre vulnerabilidade e encenação. A fotografia interroga a própria ideia de autenticidade visual numa cultura moldada pela performance pública, pela aparência mediática e pela produção constante de imagens para consumo.

Foto de Hannah Starkey

Nesta exposição, as fotografias surgem menos como imagens documentais e mais como imagens de personagens encarnadas.

Já Nikki S. Lee leva a lógica da apropriação da Personae” ao extremo ao infiltrar-se em diferentes grupos sociais e etários, transformando aparência, comportamento e estilo de vida para desaparecer dentro dessas comunidades. Alexandra Conde sublinha que a artista “assume a identidade como ferramenta artística”, revelando como “a nossa personalidade pode ser uma encenação camaleónica”.

Fotos de Nikki S. Lee em que a própria fotógrafa faz parte do quadro, fruto da vivência nas comunidades em que esteve inserida voluntariamente

Ao longo da visita, torna-se evidente que “Personae” não pretende apenas refletir sobre identidade. A exposição questiona também quem constrói o discurso artístico e através de que ferramentas. Parte do texto que acompanha a própria mostra foi integralmente gerado por inteligência artificial e posteriormente validado por Alexandra Conde, uma decisão assumida e com pleno significado nesta exposição subordinada ao tema “Personae”: “Tal como os artistas assumem outras personas para questionar o real, também a curadoria pode recorrer a novas ferramentas para expandir o seu campo de criação”, afirma Alexandra Conde. “A utilização de inteligência artificial neste contexto não substitui a autoria, mas torna visível esse processo.”

A opção funciona menos como provocação tecnológica e mais como extensão conceptual da própria exposição. Da mesma forma que os artistas se apropriam de identidades para criar novas narrativas, a curadoria também se apropriou de ferramentas de IA para refletir sobre autoria, mediação e construção contemporânea do discurso.

“Personae” pode ser visitada até ao final do ano no espaço da Coleção que o Novobanco tem na Praça Marquês de Pombal nº 3A, em Lisboa.

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