Do Japão para o mundo: as lições de liderança, criatividade e humanidade dos filmes dos Estúdios Ghibli

Os Estúdios Ghibli foram distinguidos com o Prémio Princesa das Astúrias de Comunicação e Humanidades 2026, uma decisão que reconhece décadas de impacto cultural de uma produtora que transformou a animação japonesa (anime) num veículo de ideias, valores e reflexão. Fundado em 1985 por Hayao Miyazaki (agora com 85 anos), Isao Takahata (que morreu em…
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O Prémio Princesa as Astúrias de Comunicação e Humanidades 2026, de Espanha, foi atribuído aos estúdios de animação japonesa Ghibli “por terem transformado, de forma extraordinária, a criatividade em conhecimento e comunicação”. Que força de vida têm, afinal, estas películas singulares?
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Os Estúdios Ghibli foram distinguidos com o Prémio Princesa das Astúrias de Comunicação e Humanidades 2026, uma decisão que reconhece décadas de impacto cultural de uma produtora que transformou a animação japonesa (anime) num veículo de ideias, valores e reflexão.

Fundado em 1985 por Hayao Miyazaki (agora com 85 anos), Isao Takahata (que morreu em 2018) e o produtor Toshio Suzuki, o estúdio japonês construiu uma filmografia que atravessa gerações e geografias, afirmando-se como uma referência na forma como comunica temas complexos através de narrativas acessíveis.

O Castelo Andante

A distinção do júri sublinha precisamente essa capacidade: “Transformar, de forma extraordinária, a criatividade em conhecimento e comunicação”. Mais do que filmes de animação, as obras dos Estúdios Ghibli são de um enorme humanismo e sensibilidade, funcionando como estudos sobre sociedade, liderança, sustentabilidade e comportamento humano, mantendo uma relevância que ultrapassa o cinema.

As razões do prémio

“Com recurso a um processo artesanal altamente criativo, criaram histórias universais repletas de sensibilidade e de valores humanos: amizade, empatia, tolerância, respeito pelas pessoas e pela natureza”, justificou o júri do prémio, atribuído pela Fundação Princesa das Astúrias.

Kiki – A Aprendiz de Feiticeira

O Prémio Princesa as Astúrias de Comunicação e Humanidades 2026, de Espanha, foi atribuído aos estúdios de animação japonesa Ghibli “por terem transformado, de forma extraordinária, a criatividade em conhecimento e comunicação”.

“Os filmes deste estúdio ultrapassam fronteiras e gerações e são uma referência para encarar os desafios de uma sociedade globalizada e em defesa do ambiente. Os estúdios Ghibli celebram a beleza do quotidiano e fazem do silêncio e da contemplação uma parte fundamental das suas narrativas”, elogiou o júri.

Centralidade da empatia

Uma das lições que emerge do universo Ghibli é a centralidade da empatia. Em títulos como A Viagem de Chihiro (2001) ou O Meu Vizinho Totoro (1988), os protagonistas enfrentam ambientes desconhecidos, muitas vezes hostis, onde a sobrevivência não depende da força, mas da capacidade de compreender o outro. Num contexto empresarial ou social, esta abordagem aproxima-se de modelos de liderança contemporâneos, onde a inteligência emocional é cada vez mais valorizada.

Princesa Mononoke

Outra dimensão recorrente é a relação com o ambiente. Filmes como Princesa Mononoke (1997) ou Nausicaä do Vale do Vento (1984), que esteve na origem do estúdio, exploram o conflito entre desenvolvimento humano e preservação da natureza e os equilíbrios frágeis que existem, uma abordagem alinhada com os desafios da transição energética e da sustentabilidade.

Com um meticuloso trabalho de desenho manual e artesanal de animação, com recurso a aguarela e acrílico, os estúdios Ghibli foram desenvolvidos depois de uma primeira experiência na animação em “Nausicaa do Vale do Vento” (1984), a partir de uma banda desenhada de Miyazaki.

Os Estúdios Ghibli distinguem-se também pela forma como tratam o tempo e a narrativa. Nestes filmes, há espaço para silêncio, contemplação e detalhe. O júri do prémio destaca precisamente esta característica, ao referir que os filmes “fazem do silêncio e da contemplação uma parte fundamental das suas narrativas”. Esta opção estética traduz uma filosofia muito japonesa, onde a beleza se encontra nos gestos simples e nos momentos aparentemente insignificantes e em que o ritmo narrativo privilegia a experiência e a reflexão.

Viagem de Chihiro

A força das personagens femininas é outro elemento estruturante. Em vez de arquétipos simplificados, os filmes apresentam protagonistas complexas, resilientes e em transformação. De Chihiro a San, em Princesa Mononoke, ou Sophie, em O Castelo Andante (2004), estas personagens refletem trajetórias de crescimento e adaptação, reforçando a ideia de que liderança e influência não estão associadas a modelos rígidos ou masculinos.

Fundados em 1985 pelos realizadores Hayao Miyazaki, Isao Takahata e pelo produtor Toshio Suzuki, os estúdios Ghibli são uma das “mais icónicas” produtoras de cinema e audiovisual de animação do mundo.

Do ponto de vista técnico, o estúdio mantém uma abordagem artesanal rara na indústria. A utilização de desenho manual, aguarelas e acrílicos contribui para uma identidade visual distintiva, mas também para uma lógica de produção que privilegia o detalhe e a autoria. Esta consistência estética tornou-se uma marca diferenciadora num setor cada vez mais dominado por processos digitais e automatizados.

O Castelo no Céu

O impacto global dos Estúdios Ghibli é também mensurável em reconhecimento internacional. A Viagem de Chihiro (2001) tornou-se o filme de animação japonês mais premiado de sempre, incluindo um Óscar.

Mais recentemente, O Rapaz e a Garça (2023) marcou o regresso de Hayao Miyazaki à realização e voltou a colocar o estúdio no centro da crítica internacional. Nesse ano, os estúdios Ghibli passaram a ser uma subsidiária da estação de televisão nipónica NTV.

As Memórias de Marnie

Em 2024, num gesto inédito, o Festival de Cinema de Cannes (França) atribuiu a Palma de Ouro de Honra não a uma personalidade, mas a um projeto cinematográfico, aos estúdios Ghibli, responsáveis “por uma das grandes aventuras da cinefilia, entre a tradição e a modernidade”.

Ao longo de quatro décadas, os Estúdios Ghibli construíram um modelo que combina uma enorme criatividade, identidade cultural e alcance global. É um exemplo de que diferenciação, quando sustentada por valores claros, pode tornar-se uma vantagem competitiva duradoura, também no mundo da animação.

O Rapaz e a Garça

Filmes de referência dos Estúdios Ghibli:

  • Nausicaä do Vale do Vento (1984)
  • O Castelo no Céu (1986)
  • O Meu Vizinho Totoro (1988)
  • O Túmulo dos Pirilampos (1988)
  • Kiki – A Aprendiz de Feiticeira (1989)
  • Memórias de Ontem (1991)
  • Porco Rosso (1992)
  • Pom Poko – A Grande Batalha dos Guaxinins (1994)
  • Sussurros do Coração (1995)
  • Princesa Mononoke (1997)
  • Os Meus Vizinhos Yamadas (1999)
  • A Viagem de Chihiro (2001)
  • O Reino dos Gatos (2002)
  • O Castelo Andante (2004)
  • Contos de Terramar (2006)
  • Ponyo à Beira-Mar (2008)
  • Arrietty – O Mundo dos Pequeninos (2010)
  • Da Colina de Kokuriko (2011)
  • As Asas do Vento (2013)
  • O Conto da Princesa Kaguya (2013)
  • As Memórias de Marnie (2014)
  • Earwig e a Bruxa (2020)
  • O Rapaz e a Garça (2023)

com Lusa

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