Faltam dois dias para o Grande Prémio do Mónaco, no início de junho, e Abbas Sajwani emerge de um elevador dourado para o convés principal do seu superiate de 106 metros, o Amadea, vestido com uma camisa de linho branca e calças cinzentas. A embarcação está ancorada ao largo do pequeno principado mediterrânico, como acontece com muitos bilionários durante o verão.
Sajwani comprou o iate ao Governo dos Estados Unidos num leilão confidencial realizado em setembro passado, depois de a embarcação ter sido apreendida três anos antes ao alegado oligarca russo Suleiman Kerimov.
Ao passar por paredes revestidas com intrincados painéis de teca, um bar esculpido em mármore da ilha grega de Thassos e um piano de cauda pintado à mão, fabricado especialmente para o iate pela histórica casa parisiense Pleyel, Sajwani senta-se num sofá de tom creme, com vista para o Mediterrâneo e para a linha do horizonte de Monte Carlo.
Mas o jovem magnata imobiliário do Dubai está mais interessado em falar da mais recente aquisição da sua empresa: “Comprámos o Shangri-La [Dubai] no final de maio por 300 milhões de dólares (260 milhões de euros)”, afirma, enquanto ajusta os seus óculos sem aro. “Isso demonstra a minha convicção pessoal e a minha confiança no mercado do Dubai.”

O filho do “Donald do Dubai”
Filho do bilionário Hussain Sajwani, fundador da DAMAC e frequentemente apelidado de “Donald do Dubai” devido à sua longa amizade com Donald Trump, Abbas construiu o seu próprio percurso num dos mercados imobiliários mais voláteis e lucrativos do mundo.
Enquanto a DAMAC desenvolveu mais de 50 mil unidades residenciais de luxo e tem outras 50 mil em construção, Abbas decidiu concentrar-se no segmento ultra-premium através da AHS Properties, fundada em 2021.
Depois de comprar e renovar moradias em zonas exclusivas como Emirates Hills e Palm Jumeirah, começou a adquirir terrenos junto ao Dubai Water Canal para construir torres residenciais de luxo, que atualmente representam a maior parte do portefólio da empresa. Entre estes projetos, os seus iates e uma coleção de mansões, encontra-se a base da sua fortuna estimada em 1,9 mil milhões de dólares (1,6 mil milhões de euros).
Um troféu flutuante de 250 milhões
Tal como muitos promotores imobiliários, Sajwani analisa as suas aquisições em função de dois fatores: localização e escassez. “O Amadea é um exemplo perfeito”, explica. “Quando procurava um barco, não havia apenas um requisito. Havia dez. E, para mim, o Amadea cumpria a maioria deles.”

Construído em 2017 pelo prestigiado estaleiro alemão Lürssen, o superiate dispõe de seis conveses, incluindo um jardim de inverno envidraçado inspirado nas tradicionais estufas europeias.
A bordo existem ainda uma sala de cinema com lareira exterior, uma piscina infinita de 10 metros com bar integrado, spa, salão de beleza, ginásio e heliporto.
Durante a visita da Forbes, o heliporto tinha sido temporariamente transformado num campo de pickleball.
Mesmo entre as dezenas de superiates que percorrem o Mediterrâneo durante o verão, o Amadea destaca-se pela figura de um albatroz em estilo art déco instalada na proa.
Segundo as autoridades norte-americanas, o iate foi originalmente construído para Kerimov, magnata russo do ouro e membro da câmara alta do parlamento russo, sancionado pelos Estados Unidos em 2018.
Uma paixão à segunda oportunidade
Sajwani visitou o Amadea pela primeira vez há alguns anos, quando o iate esteve brevemente à venda: “Adoro o interior, adoro o estilo”, recorda. “Acho-o lindíssimo.”

Na altura acabou por adquirir outra embarcação, o AHS, um iate de 66 metros originalmente construído em 2005 e posteriormente renomeado com as suas iniciais. Mas nunca esqueceu o Amadea.
A oportunidade surgiu em maio de 2022, quando, cerca de dez semanas após a invasão da Ucrânia pela Rússia, o FBI e as autoridades das Fiji apreenderam a embarcação no porto de Lautoka. O iate foi posteriormente transferido para San Diego, onde permaneceu enquanto decorria o processo judicial de confisco.

Avaliado em 300 milhões de dólares (260 milhões de euros) na altura da apreensão, o Amadea custou aos contribuintes norte-americanos aproximadamente 36 milhões de dólares (31 milhões de euros) em despesas de manutenção durante o período em que permaneceu sob custódia do Estado.
No leilão realizado em setembro de 2025, Sajwani acabou por vencer com uma proposta apenas 1 milhão de dólares (860 mil euros) superior à segunda melhor oferta. Hoje, estima-se que o Amadea tenha um valor de mercado de 250 milhões de dólares (215 milhões de euros).
Um escritório sobre o mar
Apesar do desconto conseguido na compra, Sajwani garante que não pretende alterar significativamente a embarcação. “Estava satisfeito com mais de 90% do interior quando a comprei”, afirma. “Não vamos fazer uma remodelação profunda.”
Enquanto percorre o convés principal, aponta para alguns dos seus elementos favoritos, incluindo estantes falsas embutidas nas paredes revestidas a teca. “O que é extraordinário aqui é o nível de detalhe”, explica. “Desde os livros nas paredes, que fazem parecer uma biblioteca, até ao trabalho da madeira.” É também neste espaço que realiza reuniões de negócios e recebe convidados importantes.
Dos mercados financeiros ao imobiliário
Nascido em 1999, Abbas Sajwani começou a investir ainda adolescente. O pai ofereceu-lhe 100 mil dólares (86 mil euros), capital que utilizou para investir na bolsa do Dubai. Mais tarde, criou pequenos negócios, incluindo um cibercafé e uma estação de lavagem automóvel, que acabaram por desaparecer durante a pandemia.
Foi então que decidiu investir em ações norte-americanas, apostando sobretudo na Simon Property Group e na Capri Holdings, proprietária de marcas como Michael Kors e Jimmy Choo. Além dos 5 milhões de dólares (4,3 milhões de euros) que afirma ter investido, utilizou financiamento adicional para ampliar as posições.
Entre maio de 2020 e maio de 2021, ambas as ações valorizaram mais de 100%. Quando vendeu as participações, afirma ter obtido um lucro de 25 milhões de dólares (22 milhões de euros). No mesmo período realizou também o seu primeiro investimento imobiliário, adquirindo uma moradia em Emirates Hills por 11 milhões de dólares (9,5 milhões de euros) através de leilão. Após a renovação e venda de vários imóveis, utilizou os lucros para comprar um terreno junto ao Dubai Water Canal, onde desenvolveu o projeto residencial One Canal.
Apostar no Dubai apesar da incerteza

Em 2025, a AHS Properties expandiu-se para além do segmento residencial ao adquirir por 120 milhões de dólares (103 milhões de euros) a chamada Big Ben Tower, um arranha-céus de escritórios com 328 metros de altura inspirado no famoso monumento londrino. O plano passa por remover a réplica do relógio e transformar o edifício num complexo de escritórios de luxo. A estratégia parecia óbvia enquanto o mercado imobiliário do Dubai registava uma forte expansão. Entre 2021 e 2025, o emirado ultrapassou Nova Iorque, Los Angeles, Hong Kong, Londres e Miami, tornando-se o mercado residencial de luxo mais valioso do mundo, com mais vendas de imóveis acima de 10 milhões de dólares (8,6 milhões de euros) do que qualquer outra cidade.
Contudo, a recente guerra envolvendo o Irão provocou alguma desaceleração. Segundo a Savills, o volume de transações caiu quase 30% no segundo trimestre face ao mesmo período do ano passado. Sajwani mantém-se tranquilo. “O mercado do Dubai continua muito saudável e existe muita procura”, afirma. “As pessoas continuam a viver e a mudar-se para cá. Os restaurantes estão cheios e os residentes continuam nas ruas.”
A próxima aposta: AHS City
A confiança do empresário ficou evidente com a aquisição do Shangri-La Dubai, um hotel de cinco estrelas distinguido pela Forbes Travel Guide. O complexo inclui 302 quartos, 126 apartamentos e espaços de escritórios numa das principais artérias da cidade, a Sheikh Zayed Road.
“Quando olhamos para essa zona do Dubai, praticamente já não existe terreno disponível”, afirma. “Os preços só podem seguir uma direção porque está tudo construído e há muitos investidores que querem estar ali.” Sajwani planeia agora desenvolver um gigantesco projeto de utilização mista denominado AHS City, nas proximidades do Shangri-La.
O empreendimento deverá incluir o maior complexo de escritórios do Dubai, apartamentos de luxo, um hotel boutique, um spa com mais de 18.500 metros quadrados e uma área de restauração com dimensão semelhante. A inauguração está prevista para 2030.
Mais casa do que férias
Quando não está no Dubai, Sajwani gere a empresa a partir do Amadea. Passa os verões no sul de França e os invernos em Saint-Barthélemy, nas Caraíbas. “Muitas pessoas vão para um barco de férias. Para mim não é assim”, afirma. “É mais um local para viver.”

“A minha rotina a bordo é exatamente igual à que tenho no Dubai. Durante a semana acordo, tenho reuniões, faço chamadas por Zoom. Só ao fim de semana aproveito mais o barco. É uma mudança de cenário, mas é mais uma casa do que uma casa de férias.”
Apesar de todas as comodidades do Amadea, esta já não é a aquisição mais recente do empresário. Esse título pertence agora ao The Holme, uma propriedade neoclássica com 40 quartos situada junto ao Regent’s Park, em Londres, que, segundo vários meios internacionais, terá sido adquirida por 260 milhões de dólares (225 milhões de euros). Se lhe faltar espaço para receber convidados no mar, dificilmente lhe faltará em terra.
Texto original aqui. Artigo traduzido e editado por Paulo Marmé.





