Num momento em que o Fado procura novas linguagens sem perder a sua verdade, como define o seu lugar nessa transformação?
Vejo o meu lugar como uma ponte e tenho orgulho em ser uma das artistas nesta vanguarda. Tenho um respeito profundo pela raiz do Fado, por esta linguagem tão única e sensível, capaz de emocionar até quem não conhece o nosso idioma. O meu trabalho é fundir fragmentos dessa linguagem com outras mais “palatáveis”, aproximando o Fado de públicos mais jovens.
Mas é importante deixar claro: não estou a tentar salvar o Fado, ele não precisa de ser salvo.
O Fado deu-me profundidade; a minha geração pede novas formas de o sentir. E a minha ambição artística é precisamente essa: ser uma ponte entre linguagens e gerações.
“Sentir Saudade” chamou a atenção para o seu nome em 2023. O que lhe ensinou esse tema sobre o potencial comercial e internacional de uma identidade musical portuguesa?
“Sentir Saudade” é hoje single de platina. Foi tocado em grandes festivais de música eletrónica por todo o mundo, incluindo o Tomorrowland, e desde o início a intenção era exatamente essa: levar o Fado a lugares onde ainda não tinha chegado, onde nem as grandes divas da nossa história o tinham colocado.
Quando criei esta música, sabia que precisava de duas coisas: identidade e propagação. A identidade estava na minha melodia fadista, na emoção e nesta visão de colocar o Fado dentro de um universo eletrónico sem perder a verdade. A propagação exigia alguém com alcance real neste circuito. Mais do que um feat, foi uma decisão estratégica, apesar de muitos ainda pensarem que a ideia partiu do DJ.
Pensei: “é ali que estão os jovens”. Se conseguisse colocar o Fado de forma cool nesse contexto, eles iriam percebê-lo dessa forma e foi exatamente isso que aconteceu.
Toda a gente já reconhece o Fado como uma linguagem profunda e intemporal. O que continuo a provar é que ele também pode ser sexy, jovem, comercial e internacional. Não precisa de estar numa redoma – pode ocupar o mundo.

Sendo Ana Moura a sua madrinha de Fado, que tipo de influência pesa mais no seu percurso: inspiração, exigência ou liberdade?
As três, mas talvez a liberdade pese mais. A Ana representa muito bem essa possibilidade de respeitar a tradição sem ficar presa a ela.
Há inspiração, claro, é impossível ignorar um percurso tão forte. E há exigência, porque quem leva a obra a sério sabe que não há espaço para superficialidade. Mas a maior influência é perceber que é possível encontrar o limite e empurrá-lo mais além.
O seu percurso tem mostrado abertura a cruzamentos entre tradição, pop e eletrónica. Até onde pode ir essa fusão sem descaracterizar a matriz fadista?
Na minha visão, pode ir muito longe, desde que a intenção se mantenha coerente. O Fado é uma linguagem que pode manifestar-se de várias formas: na instrumentação, na melodia, na forma de cantar, no peso da palavra, no silêncio, na entrega.
Raciocina comigo: se eu colocar uma guitarra portuguesa a tocar samba, continua a ser samba, certo? Isso prova que não é o instrumento que define o Fado, mas sim a linguagem.
Da mesma forma, quando canto rap – e há um no meu álbum – não estou a representar o Fado só por ser fadista. Não há essa linguagem na melodia, na palavra ou na intenção. É apenas rap. Ser fadista não transforma tudo automaticamente em Fado.
Mas quando escolho usar essa linguagem chamada Fado, é indiferente se são sintetizadores ou um trio tradicional a acompanhar-me. É Fado na mesma, porque estou a usar essa linguagem através da minha voz.

A Adidas Originals escolheu-a para representar em Portugal uma campanha global da Superstar. O que diz essa associação sobre a forma como as marcas internacionais olham hoje para os novos criadores portugueses?
Acho que este movimento da Adidas aponta para um novo direcionamento comercial. As marcas já não procuram apenas números, procuram identidade.
O mundo está cada vez mais “plastificado”, e a inteligência artificial vai acentuar esse processo. Eu sou uma artista independente, ainda emergente, e o facto de a Adidas me ter escolhido para uma campanha global leva-me a concluir que não estavam apenas à procura de uma cantora, mas de uma narrativa, de uma visão que dialoga com os pilares estratégicos da marca: ocupar espaço com audácia e coragem.
Somos um país pequeno, mas cheio de personalidade. A nossa língua é única, os nossos sabores são únicos, o Fado é único. Sinto que estamos a ser redescobertos e a arte tem um papel fundamental nesse processo. A cultura e os seus agentes são a forma mais nobre de projetar a imagem de um país.
Ao ver o seu nome associado a figuras como Samuel L. Jackson, Kendall Jenner ou Lamine Yamal, o que sente?
Demorei bastante tempo a associar-me a uma marca. Para mim, não bastava ser relevante, tinha de estar alinhada com a minha estratégia e comunicar essa fusão entre tradição e modernidade. Nesse sentido, a Adidas foi um verdadeiro “match”.
Quando surgiu o convite, senti orgulho e responsabilidade, mas sobretudo responsabilidade. É um reconhecimento raro em Portugal, mas também um compromisso. Quando uma marca global aposta em ti, está a dizer que acredita na tua capacidade de representação.
Estar nesta campanha ao lado de nomes desta dimensão é, para mim, uma confirmação de caminho.
Sente que está a entrar numa nova fase da sua carreira, deixando de ser apenas intérprete para se afirmar como marca cultural?
Claramente. Se olharem para a capa do meu álbum, verão que fiz de mim própria um produto, esse sempre foi o objetivo. Inclusive, criei um documentário a revelar toda a estratégia por trás do lançamento da minha carreira e da construção desta marca cultural.
Nunca fui apenas intérprete: componho, toco, canto, produzo, crio o universo visual, desenvolvo conteúdos e faço a gestão das minhas redes. Tudo é pensado estrategicamente. Nada aconteceu por acaso.
Na “embalagem” desse produto escrevi: made in future Portugal / fabricada para desafiar o presente.
E na composição: 30% liberdade; 25% fúria criativa; 20% intuição sofisticada; 15% persistência; 10% teimosia.

A campanha Superstar trabalha a ideia de ícone intemporal e autenticidade. Que paralelos encontra com a forma como quer construir uma carreira duradoura?
Todo o movimento consistente exige tempo. Não me interessa ser um momento viral.
Por isso, estruturei o lançamento de “Espiral” de forma gradual, ao longo de três anos, com cinco singles estratégicos e cada um com um objetivo claro. Entre eles, tive um single de platina, um de ouro, um tema no cinema e outro numa novela.
Os dois pilares da minha carreira são tradição e modernidade. A partir deles, quero criar um território novo. Não é o caminho mais rápido, mas não tenho pressa. Acredito que é aí que encontro o paralelo com a campanha: intemporalidade e autenticidade.
Como gere o equilíbrio entre exposição, consistência artística e pressão externa?
O autoconhecimento é a ferramenta mais poderosa que um ser humano pode ter. Essa procura diária de consciência é o meu mecanismo de equilíbrio.
Ser artista – sobretudo independente – implica também ser empresária da própria carreira. O peso é grande. Para lidar com isso, procuro evoluir enquanto pessoa todos os dias.
Quando a pressão aumenta demasiado, volto ao meu refúgio: faço algo manual, físico e criativo, como pintar uma parede, renovar um espaço. É uma fuga temporária que me reconecta rapidamente com a minha essência.

Que estratégia tem para transformar notoriedade em posicionamento sólido, dentro e fora de Portugal?
A estratégia é continuidade. Notoriedade sem direção desaparece rapidamente.
“Espiral” não é apenas um álbum, é o resultado de três anos de construção, onde cada single teve uma função clara: afirmar voz, consolidar imagem, criar valor artístico, proximidade e popularidade.
Agora, o objetivo é transformar atenção em legado. Quero que, dentro e fora de Portugal, se reconheça uma artista com visão internacional, mas profundamente portuguesa. Não quero apenas presença, quero permanência.
No futuro, como gostaria de ser lembrada?
Quero ser lembrada como alguém que marcou globalmente. Se isso acontecer como voz do Fado, artista sem rótulos ou ponte entre tradição e futuro, pouco importa. O essencial é o impacto.
Quero que o meu percurso revele intenção, risco e construção que não foi sorte, mas visão. E que, de alguma forma, ajudei a levar Portugal e a nossa cultura para um lugar novo.
Não estou a tentar salvar o Fado. Estou a expandi-lo.
Não estou a pedir espaço. Estou a criar território.





