A Signium, empresa com presença a nível global de executive search e leadership advisory, nomeou a gestora portuguesa Felipa Xara-Brasil, até agora managing partner em Lisboa, para o cargo de vice-presidente do seu Board global para o ciclo de 2025. É a primeira mulher a exercer este cargo numa multinacional do setor. Esta eleição é vista como um reforço da presença portuguesa na liderança internacional da Signium além de reconhecer o impacto profissional da gestora, tornando-a a única personalidade feminina portuguesa a ocupar este cargo numa organização internacional do setor.
Formada em gestão e negócios pela Universidade Católica Portuguesa e diplomada em gestão pela Kellogg School of Management e Católica Lisbon School of Business and Economics, Felipa Xara-Brasil tornou-se, desde junho de 2017, sócia sénior da Signium. Em dezembro de 2019, assumiu a liderança dos serviços financeiros da Signium WW e acumula, ainda, os cargos de assessora do conselho de administração do BCSD e conselheira do conselho de administração da Ínterim Experience Management. Com mais de 30 anos de carreira, a executiva tem sido uma referência internacional em liderança, gestão e executive search. Antes de integrar a Signium, foi fundadora da Heidrick & Struggles em Portugal.
Em entrevista exclusiva à Forbes Portugal, Felipa Xara-Brasil admite que a eleição como vice-chair global do Board da Signium representa uma responsabilidade num momento exigente para quem lidera organizações. Sobre o facto de ser a única mulher portuguesa a exercer o cargo salienta que o interpreta com naturalidade, mas também com consciência da responsabilidade.
Face ao cenário de volatilidade que as empresas enfrentam em 2026, realça que a qualidade da liderança se tornou um fator crítico de estabilidade institucional. E garante que hoje a verdadeira oportunidade no mundo do executive search está em ajudar as organizações a alinhar liderança com transformação estratégica. Em 2026, a capacidade de executar mudanças profundas depende diretamente da qualidade da equipa executiva.
Sobre o que ainda falta para se atingir a igualdade de género nos cargos de topo defende que é necessário trabalhar o pipeline de talento, garantir transparência nos critérios de seleção e combater vieses invisíveis.
Foi eleita vice-chair global do Board da Signium. O que representa esta nomeação a nível pessoal e institucional?
Representa, acima de tudo, responsabilidade num momento particularmente exigente para quem lidera organizações. Em 2026, as empresas enfrentam um contexto de volatilidade prolongada: geopolítica incerta, transformação tecnológica acelerada e pressão crescente sobre execução e resultados. Nesse ambiente, a qualidade da liderança tornou-se um fator crítico de estabilidade institucional. Ao longo de mais de três décadas, tenho tido o privilégio de trabalhar com CEO’s e conselhos de administração precisamente nesses momentos em que as decisões sobre liderança têm impacto estrutural: sucessão de CEO, avaliação da eficácia executiva, transformação cultural ou redefinição de estratégia organizacional. O executive search pode muitas vezes ser o ponto de entrada numa relação profissional. Mas a verdadeira confiança constrói-se ao longo do tempo, através de aconselhamento consistente e independente. É nesse espaço que se desenvolve uma relação de confiança entre conselheiro estratégico e conselho. Há uma realidade que se tornou evidente ao longo dos anos: a maioria das crises organizacionais começa na liderança, não na estratégia.
Esta eleição reforça o peso de Portugal na estrutura global da organização. Que sinal envia ao mercado internacional?
Envia um sinal de maturidade institucional e de capacidade de influência estratégica. Durante muito tempo, países de menor dimensão eram vistos apenas como mercados de execução dentro de redes internacionais. Hoje isso mudou. Portugal tem demonstrado capacidade para participar na definição da agenda global, seja em temas de governance, seja na evolução dos modelos de liderança ou na internacionalização das empresas. Num mundo em que as organizações são cada vez mais interdependentes, a liderança mede-se pela qualidade das decisões que se tomam, não pela dimensão do mercado em que se opera.
É a única mulher portuguesa a ocupar este cargo numa organização internacional do setor. Como interpreta este marco?
Interpreto-o com naturalidade, mas também com consciência da responsabilidade. A diversidade nas equipas de liderança não deve ser vista como um tema reputacional ou simbólico. É, acima de tudo, um fator de qualidade de decisão. Organizações complexas, que operam em múltiplos mercados e enfrentam desafios estruturais, beneficiam de perspetivas diversas ao nível do topo. A evolução que temos observado nos últimos anos é positiva, mas ainda há caminho a percorrer, sobretudo no acesso das mulheres às posições executivas de maior poder decisório.
Que prioridades definiu para este mandato?
O mandato do Board da Signium assenta em três eixos estratégicos fundamentais. O primeiro é reforçar a colaboração global e o crescimento disciplinado da rede. A Signium é hoje uma organização verdadeiramente internacional e o nosso objetivo é aprofundar as sinergias entre escritórios, aumentar o volume de projetos cross-border e reforçar a partilha de conhecimento. Crescimento sustentável exige consistência, não apenas escala. O segundo eixo é aprofundar os padrões de governance, compliance e ética profissional. Num contexto em que os conselhos são cada vez mais escrutinados por investidores, reguladores e opinião pública, a disciplina institucional deixou de ser apenas uma exigência interna. Tornou-se um fator de confiança e credibilidade no mercado. O terceiro eixo prende-se com a aceleração da transformação digital e o reforço da visibilidade global da marca. A inteligência artificial, os dados e novas ferramentas tecnológicas estão a transformar profundamente a forma como analisamos liderança e avaliamos organizações. A tecnologia não substitui o julgamento estratégico, mas eleva significativamente a qualidade da decisão.
Como equilibra a substituição da Chair, o desenvolvimento internacional e a supervisão de compliance?
O equilíbrio começa com uma premissa muito simples: crescimento nunca pode comprometer reputação. A expansão internacional é essencial para qualquer rede global. Mas essa expansão tem de ser acompanhada por padrões consistentes de governance, processos claros e uma cultura organizacional forte. O desenvolvimento internacional não deve ser visto apenas como expansão geográfica. Trata-se de criar uma rede que funcione verdadeiramente como um sistema integrado, onde os escritórios colaboram, partilham conhecimento e executam projetos em conjunto. Sem governance forte, o crescimento torna-se frágil. E sem confiança institucional, nenhuma organização consegue sustentar liderança de longo prazo.
O reforço da governação e da ética tornou-se crítico no executive search e no leadership advisory. Como se traduz isso na prática?
Traduz-se em responsabilidade fiduciária. Quando um conselho decide nomear um CEO, avaliar a eficácia da sua liderança ou estruturar um plano de sucessão, está a assumir um risco estratégico. Essas decisões têm impacto direto no valor da empresa, na confiança dos investidores e na estabilidade organizacional. No executive search, isso significa processos estruturados, metodologias claras, independência na recomendação e rastreabilidade das decisões. No leadership advisory, significa algo igualmente exigente: diagnósticos rigorosos, avaliação baseada em evidência, identificação de lacunas de liderança e coragem para confrontar realidades que nem sempre são confortáveis para as organizações. Num mundo de escrutínio permanente, o processo deixou de ser uma formalidade. É aquilo que sustenta – ou fragiliza – a legitimidade do poder.
Hoje que desafios enfrenta uma organização global como a Signium?
Vivemos um momento de volatilidade estrutural. As empresas enfrentam simultaneamente instabilidade geopolítica, transformação tecnológica, pressão regulatória e escrutínio reputacional crescente. Neste contexto, a liderança executiva tornou-se mais exigente do que nunca. O CEO moderno tem de ser estratega, gestor de risco e guardião da confiança institucional. A pergunta que hoje se coloca aos conselhos já não é apenas “quem é o melhor executivo?”, mas sim quem tem maturidade para decidir quando a margem de erro é mínima. É neste espaço que o aconselhamento estratégico de liderança ganha verdadeira relevância.
Onde identifica as principais oportunidades de crescimento?
As oportunidades surgem sobretudo nos setores que atravessam transformação estrutural: energia e transição climática, serviços financeiros, indústria e cadeias de valor globais, tecnologia e inteligência artificial, saúde e setores altamente regulados. Mas, mais do que setores específicos, a verdadeira oportunidade está em ajudar as organizações a alinhar liderança com transformação estratégica. Em 2026, a capacidade de executar mudanças profundas depende diretamente da qualidade da equipa executiva.
O executive search está a evoluir para uma abordagem mais estratégica de leadership advisory?
Sem dúvida. Trata-se de uma evolução natural. Os conselhos procuram hoje parceiros que acompanhem todo o ciclo de liderança, desde a avaliação de CEO’s em funções, à estruturação de sucessão, à análise da eficácia das equipas executivas e ao alinhamento cultural. O recrutamento é um momento dentro desse ciclo. O advisory é uma relação de longo prazo. Identificar líderes é uma decisão. Construir liderança sustentável é uma responsabilidade estratégica.
Que setores ou geografias estão a ganhar maior relevância na rede global?
Temos assistido ao reforço de corredores estratégicos entre Europa, América do Norte, América Latina, Médio Oriente e África. Em termos setoriais, áreas como energia, tecnologia, life sciences e indústria avançada continuam a ganhar relevância, precisamente, porque enfrentam maior pressão transformacional.
Como se diferencia a Signium num mercado competitivo?
A nossa diferenciação reside em três fatores: proximidade sénior, visão estratégica e colaboração global. Trabalhamos diretamente ao nível do Board e acompanhamos decisões que influenciam o futuro das organizações. Não trabalhamos apenas processos de recrutamento. Trabalhamos arquitetura de liderança: sucessão, eficácia executiva, cultura organizacional e transformação.
Que papel pode Portugal desempenhar dentro da rede global da Signium?
Portugal tem uma posição interessante como ponte entre geografias. Empresas familiares em transição geracional, multinacionais em consolidação e a ligação privilegiada ao espaço lusófono posicionam o país como um território relevante de transformação executiva. A capacidade de navegar culturas e mercados diferentes tornou-se uma vantagem estratégica.
Quais os objetivos para o mercado nacional?
Queremos consolidar a nossa posição como parceiros estratégicos de CEOs e conselhos de administração portugueses. Isso significa acompanhar as organizações não apenas na sucessão de liderança, mas também na avaliação da eficácia executiva, na transformação organizacional e na preparação das equipas para desafios futuros. A confiança não se constrói numa colocação. Constrói-se numa relação consistente de aconselhamento.
Quais são hoje os setores mais dinâmicos em Portugal ao nível do recrutamento executivo?
Energia, tecnologia, indústria exportadora, serviços financeiros e saúde continuam particularmente dinâmicos. Mas o verdadeiro dinamismo está na exigência crescente de maturidade executiva. As organizações procuram líderes capazes de gerir complexidade, assumir responsabilidade e executar estratégia num contexto de incerteza.
Pode partilhar indicadores de crescimento recentes da Signium?
Mais relevante do que o volume de projetos é a natureza desses projetos. Temos assistido a um aumento significativo de iniciativas internacionais e a um crescimento consistente do advisory estratégico ao nível de CEO e Board. Isso reflete a confiança das organizações em decisões particularmente sensíveis.
Como evoluiu a procura por serviços de executive search e leadership advisory?
A procura tornou-se mais estratégica e mais exigente. As empresas procuram não apenas talento, mas também estabilidade, sucessão estruturada e mitigação de risco de liderança. O talento é essencial, mas sem estrutura, o talento desorganiza.
O mercado está mais focado em substituição ou transformação de lideranças?
Cada vez mais em transformação. Os conselhos de administração procuram antecipar desafios e preparar equipas executivas capazes de executar estratégia num contexto volátil. Substituição acontece quando já existe fratura. Transformação acontece quando há visão.
Que tendências estão a moldar o futuro da liderança empresarial?
Destacaria cinco tendências principais: decisão sob incerteza prolongada, integração estratégica da inteligência artificial, maior accountability dos Boards, crescente pressão reputacional e cultura organizacional como motor de execução. A liderança deixou de ser apenas competência técnica. É assumir responsabilidade quando a decisão é difícil, mas necessária.
Que mudanças observou na presença feminina em cargos de topo?
Observámos progresso real, sobretudo nos conselhos de administração. A próxima etapa passa por reforçar a presença feminina nas posições executivas de maior poder estratégico.
O que ainda falta fazer para acelerar a igualdade de género?
É necessário trabalhar o pipeline de talento, garantir transparência nos critérios de seleção e combater vieses invisíveis. A meritocracia exige estrutura.
Que conselho daria às mulheres que aspiram a cargos internacionais?
Competência comprovável, rede internacional sólida e sponsors que estejam dispostos a defender o seu nome em contextos decisivos.
Como imagina a Signium nos próximos cinco anos?
Imagino uma organização cada vez mais presente nas decisões de liderança que moldam o futuro das economias onde opera. Uma rede com escala global, influência estratégica e capacidade de combinar tecnologia, método e discernimento humano.
Que legado gostaria de deixar enquanto Vice-Chair Global?
Gostaria de deixar três marcas. Uma governance mais forte e aplicável. Crescimento disciplinado com reputação sólida. E uma cultura de colaboração real entre escritórios. Que a Signium seja a rede global a quem os conselhos de administração e os CEO’s recorrem quando a decisão não pode falhar.





