Como começou o seu percurso na música e no jazz?
Não consigo identificar uma data concreta. Foi um processo gradual, quase orgânico. A música foi-se aproximando de mim e eu dela, num movimento natural. Há, no entanto, um momento simbólico: um disco do Maestro/baterista Buddy Rich que o meu pai me incentivou a ouvir. Não foi uma revelação imediata, mas foi um ponto de partida. O interesse foi crescendo de forma consistente até se tornar numa escolha consciente e total.
O que o levou a escolher a bateria?
Também aqui não houve um momento único ou decisivo. Talvez já existisse uma predisposição interior para o instrumento. Recordo-me da primeira vez que me sentei numa bateria, em casa de uns amigos do meu pai. Ninguém me deu instruções. Sentei-me e passei horas completamente absorvido. Foi um encontro muito intuitivo. A partir daí, tornou-se um percurso contínuo até hoje.
Lançou agora um disco chamado “Sonologues”. Quer apresentar-nos? Como o descreveria?
Sonologues é um disco profundamente pessoal. É o resultado de uma vontade antiga de explorar a improvisação como linguagem central, num espaço de liberdade total. Trata-se de um trabalho construído exclusivamente a partir da escuta e da reação em tempo real, onde dois instrumentos dialogam sem estrutura previamente ensaiada.
O desafio foi precisamente esse: criar narrativas musicais espontâneas, como numa conversa entre duas pessoas que não sabem antecipadamente o rumo da troca. A tensão criativa nasce dessa vulnerabilidade e dessa confiança mútua. É um exercício de escuta, risco e construção partilhada.
A bateria é muitas vezes vista como instrumento de acompanhamento. Este disco procura reposicioná-la?
Não se trata tanto de reposicionar, mas de evidenciar o seu potencial pleno. A bateria é frequentemente associada a uma função de suporte, mas é um instrumento de enorme riqueza tímbrica e expressiva. A sua multi timbricidade permite construir narrativas rítmicas e sonoras extremamente complexas. Com este trabalho, procuro mostrar que a bateria pode ocupar um lugar central no discurso musical, não apenas como sustentação, mas como voz ativa, protagonista e criadora de espaço.

Sendo um álbum baseado no improviso, onde termina o planeamento e começa a improvisação?
Existe sempre uma intenção prévia: a escolha do parceiro musical, o contexto, a disposição dos instrumentos. Mas, a partir do momento em que começamos a tocar, tudo é construído no instante. O planeamento reside na preparação artística e técnica acumulada ao longo dos anos. A improvisação acontece quando confiamos plenamente nesse percurso e permitimos que a música surja sem filtro racional excessivo.
“Com este trabalho, procuro mostrar que a bateria pode ocupar um lugar central no discurso musical, não apenas como sustentação”
Ainda há preconceito em relação ao papel do baterista?
Se existe, é fruto de desconhecimento. A bateria teve um papel determinante na construção da música moderna. O ritmo é a base do movimento, da energia e da pulsação que sentimos na música.
Historicamente, muitos projetos são identificados por figuras e artistas com predominância nas questões melódicas ou harmónicas, o que pode gerar uma perceção mediática desequilibrada. Mas qualquer músico sabe que uma banda com um baterista inconsistente compromete todo o conjunto, enquanto uma banda menos experiente pode manter coesão se tiver uma base rítmica sólida. Ainda assim, mesmo acreditando que a bateria é mesmo um dos instrumentos mais importantes e relevantes desde a sua criação, não gosto de hierarquizar instrumentos. Todos são fundamentais; o destaque mediático é outra questão.
Como descreve o momento atual do jazz em Portugal?
Estamos num momento muito positivo. Existem mais escolas, mais formação especializada e uma crescente procura académica do jazz. A qualidade dos músicos portugueses tem aumentado significativamente. Para além disso, o público está mais informado e mais disponível para escutar. Essa educação contínua do público é essencial para o crescimento sustentado de qualquer área cultural.
“A educação contínua do público é essencial para o crescimento sustentado de qualquer área cultural”
Sente que há hoje uma identidade própria do jazz português?
Não existe isso do “Jazz Português”. Não vejo o jazz como algo que deva ser apropriado enquanto identidade nacional. O jazz tem uma história e um contexto muito específicos. O que existe são músicos portugueses altamente qualificados a interpretar e a desenvolver esta linguagem com excelência. A identidade artística surge naturalmente nas individualidades, não necessariamente numa tentativa ou apropriação de uma tal etiqueta geográfica.

O jazz em Portugal é mais influenciado pela tradição americana ou já vive de uma linguagem própria?
A influência americana continua a ser estrutural, o que é natural. Contudo, sentimos cada vez mais projetos com uma estética europeia, particularmente influenciada pela escola nórdica — uma abordagem mais atmosférica, exploratória, menos centrada no swing tradicional e mais na textura e na liberdade formal. Essa diversidade estética é saudável e demonstra maturidade artística.
Sendo natural do Porto, como caracteriza a cena do jazz portuense?
Também não acho que exista uma “cena do Jazz portuense”. Não creio que possamos falar de uma “cena” estruturada. Existem músicos extraordinários e projetos de grande qualidade, sustentados muitas vezes por enorme perseverança. Mas uma cena implica continuidade, circuitos consistentes e estrutura consolidada — acho que ainda estamos a construir esse caminho.
Existem hoje mais oportunidades para músicos de jazz do que há 10 ou 20 anos?
Sem dúvida. A formação é mais acessível e especializada, as academias integram o jazz como disciplina central e existe uma geração muito comprometida com a criação. Há também maior abertura cultural e diversidade de plataformas para apresentação e difusão. Isso cria mais oportunidades para quem quer dedicar-se seriamente a esta linguagem.
Que conselho daria a jovens músicos de jazz?
Os músicos jovens de hoje em dia não gostam de muitos conselhos (risos). Diria que a inovação não substitui o conhecimento. Não se constrói futuro ignorando o passado. É fundamental estudar a história do jazz, compreender os seus fundamentos, ouvir os grandes intérpretes e conhecer as obras estruturantes.
Todo o meu percurso académico em relação ao Jazz foi suportado por uma enorme componente histórica, foi fundamental para o meu crescimento intelectual e artístico ter a perceção da história do jazz, o que faço com ela irá fazer parte do meu caminho. Com mais ou menos incidência na cultura tradicional, o caminho que cada um escolhe pode e deve ser o mais criativo possível, se possível assente no que realmente gostamos e queremos sentir.
A liberdade criativa só é verdadeiramente consistente quando assenta numa base sólida. Sou defensor da inovação, mas nunca desligada da sua fundação histórica e cultural.





