No dia em que a Madeira recebeu a grande festa da gastronomia, a Forbes começou o dia no único lugar que fazia sentido para um dia que terminaria na cerimónia portuguesa do Guia Michelin: o Mercado dos Lavradores.
Inaugurado em 1940, o mercado junta os produtos que melhor caracterizam a Madeira, como as frutas, o bolo de mel e a poncha. Visitá-lo é visitar um grupo de vendedores locais que sabem receber e que se despedem com um: tenha um dia feliz. Ao mesmo tempo que se passeia lado a lado com diversos turistas, que escolhem conhecer a ilha também através dos sabores.


Mas enquanto que aqui se mistura o nacional com o internacional, no Savoy Palace o português foi o grande destaque. A gala começou ao final da tarde e contou com os maiores nomes da gastronomia nacional, como Rui Paula, Marlene Vieira, José Avillez ou Henrique Sá Pessoa.
Ao longo da cerimónia, apresentada por Daniela Ruah, vários chefs e restaurantes foram distinguidos: entre prémios especiais, recomendações e as tão esperadas estrelas Michelin. No final, reuniram-se todos os presentes para um showcooking, sob a orientação Benoit Sinthon. Pelo meio, três histórias saltaram à vista.
A primeira estrela
Ainda na passadeira vermelha, a chef Marlene Vieira, que no ano passado se tornou a primeira mulher a alcançar este feito em Portugal nos últimos 30 anos, dizia: “Eu sabia que essa estrela era muito maior do que eu”. E entre os vários motivos que poderão levar a esta afirmação, estará o feito histórico que lembrou ao país que a palavra chef se aplica a ambos os géneros.
Este ano, a brasileira Angélica Salvador seguiu exatamente o mesmo caminho. A quarta mulher a conquistar uma estrela Michelin em Portugal é a chef do restaurante In Diferente, no Porto.

“Acho que nem eu absorvi isto, mas ao mesmo tempo é uma sensação de que não é de hoje esta vontade, hoje o mérito veio e eu fico muito feliz porque sei que uma das coisas que talvez possa ter levado a isto é a parte de nunca desistir dos sonhos. A nossa consistência é uma coisa que nos faz ter os pés no chão e acreditar que somos capazes. As coisas acontecem quando têm de acontecer mesmo. Eu brinco ‘eu só acredito vendo’, mas eu estou a ver e não estou a acreditar”, brinca a chef em declarações à Forbes Portugal, destacando o novo passo para as mulheres na indústria: “Fico feliz que tenha chegado a mim. As portas estão a abrir para nós [mulheres] e fico feliz de este ano ter sido eu. Que no futuro se continuem a abrir mais portas para as mulheres”.
E depois de se ganhar uma estrela Michelin?
“É uma responsabilidade ainda maior. Há aquela parte de virem ver o que estamos a fazer, o que estamos a apresentar, o que estamos a dar aos nossos convidados. Portanto, independentemente do que isto nos traz, é manter o que estamos a fazer bem e melhorar o que podermos. É o meu objetivo a partir da data de hoje”, conclui.
A estrela mais jovem
Na cerimónia de 2024, Francisco Quintas tornou-se o chef mais jovem a receber uma estrela Michelin em Portugal. Na altura, no restaurante 2Monkeys, no Torel Palace, em Lisboa. Este ano chegou à Madeira como responsável do restaurante Largo do Paço, na Casa da Calçada, em Amarante, um espaço que, devido a um encerramento para obras, tinha perdido a sua estrela.
“Aqui, encanta com uma proposta moderna, não isenta de delicadeza e técnica, que valoriza a harmonia dos sabores, construídos sempre com base tanto nas suas experiências pessoais (trabalhou atrás de prestigiados fogões de Inglaterra, Bélgica, Holanda e França), como nos melhores produtos sazonais portugueses”, lê-se no comunicado do Guia.
Dois projetos, duas estrelas, existe fórmula para este sucesso? “Não é fórmula nenhuma, é muito trabalho, é pensar sempre no cliente e na experiência do cliente. Acredito que o nosso foco tem de ser sempre esse e acredito que isto é uma recompensa desse trabalho bem feito. Há muito trabalho ainda por fazer, quero fazer muito melhor, mas estou extremamente feliz e grato de, com 27 anos, ter atingido esse feito de abrir dois projetos e em ambos, em menos de um ano, conseguirmos a estrela Michelin”, diz o chef à Forbes Portugal.

Francisco recebeu também um dos prémios especiais entregues na cerimónia: Jovem Chef. O facto de ter conquistado tudo o que conquistou ainda tão novo, é motivo de orgulho para o chef.
“Traz-me muita responsabilidade, é um feito fantástico, é algo de que me orgulho muito. Acredito que seja uma recompensa do trabalho que está a ser feito e vai continuar a ser feito, cada vez com mais afinco, detalhe e determinação”, continua.
Mais uma estrela
“Os vertiginosos 50 segundos no elevador panorâmico até ao topo da Torre Vasco da Gama inspiraram o nome do restaurante Fifty Seconds. É aqui, a 120 metros de altura, com uma vista inesquecível sobre o rio Tejo e um ambiente sofisticado e cosmopolita, que irá descobrir o paraíso gastronómico. O Fifty Seconds é um projeto espiritual que reúne uma equipa de excelentes profissionais com um objetivo singular: proporcionar uma experiência gastronómica única em cada prato”.
É desta forma que o restaurante é apresentado online e, claramente, foi desta forma que o júri do Guia Michelin o encontrou. O último anúncio da noite ficou reservado para os restaurantes com duas estrelas Michelin. Todos os nomes anunciados mantiveram a distinção, menos um: o Fifty Seconds chegou, este ano, às duas estrelas.

Ao leme deste hotel está Rui Silvestre, um chef que também esteve entre os mais jovens a vencer uma estrela Michelin (no seu caso, aos 29 anos). “Ele adora combinar os melhores produtos da terra e do mar de uma forma inovadora que desperta todos os sentidos e preserva o sabor autêntico e excecional dos ingredientes locais”, lê-se no website do restaurante.





