Se existe uma bolha em torno da inteligência artificial (IA), ela continua a crescer. Em janeiro, a SpaceX de Elon Musk adquiriu a xAI numa operação que avaliou a empresa em 250 mil milhões de dólares (216,39 mil milhões de euros). A Anthropic captou financiamento no mês passado com uma avaliação de 380 mil milhões de dólares (328,91 mil milhões de euros). Já a OpenAI, liderada por Sam Altman, anunciou a 27 de fevereiro compromissos de capital no valor de 110 mil milhões de dólares (95,21 mil milhões de euros), numa ronda que avaliou a empresa em 840 mil milhões de dólares (727,07 mil milhões de euros).
Mesmo empresas com receitas limitadas, ou ainda sem lucros, passaram a valer dezenas de milhares de milhões de dólares, incluindo a startup de robótica Figure AI, a criadora de modelos de IA Z.ai e a empresa de investigação Safe Superintelligence.
Este contexto tem beneficiado diretamente fundadores, executivos e investidores por trás destas empresas. A lista anual de bilionários da Forbes inclui agora pelo menos 86 pessoas cuja fortuna está ligada à inteligência artificial, com um património combinado de cerca de 2,9 biliões de dólares (2,51 biliões de euros). Deste total, 45 tornaram-se bilionários apenas no último ano.
Há 468 bilionários do setor tecnológico presentes na lista da Forbes. Dos 86 bilionários ligados a Inteligência Artificial, 45 tornaram-se bilionários no último ano.
O mais rico entre os novos bilionários da IA é Edwin Chen, fundador da Surge AI, com uma fortuna estimada em 18 mil milhões de dólares (15,58 mil milhões de euros). A empresa dedica-se à rotulagem de dados para treinar modelos de inteligência artificial. Chen manteve mais de 75% da empresa ao evitar financiamento tradicional de capital de risco.
Em segundo lugar surge Liu Debing, com uma fortuna estimada em 9,1 mil milhões de dólares (7,88 mil milhões de euros), cofundador e presidente da empresa chinesa de IA Z.ai. A empresa produz modelos de inteligência artificial abertos que competem com os da OpenAI e tornou-se pública em Hong Kong no início de 2026.
A terceira maior fortuna entre os novos bilionários da IA pertence a Daniel Nadler, fundador da OpenEvidence, empresa que desenvolve uma ferramenta de pesquisa baseada em IA para médicos, avaliada em cerca de 7,6 mil milhões de dólares (6,58 mil milhões de euros).
Alguns dos novos nomes enriqueceram ao desenvolver aplicações práticas baseadas em inteligência artificial, como Nadler ou Qasar Younis, cuja empresa Applied Intuition procura levar software de IA não apenas para veículos autónomos, mas para todo o tipo de veículos.
Dez novos bilionários chegaram à lista graças a startups de “vibe coding”, ferramentas que utilizam inteligência artificial para auxiliar na programação, ou a outras empresas de software baseadas em IA. Entre elas estão as empresas Cursor, Lovable, Sierra, Harness e Cognition.
Outros enriqueceram ao construir a infraestrutura que sustenta a inteligência artificial, incluindo novos bilionários ligados a centros de dados e semicondutores.
Ao mesmo tempo, os grandes nomes da tecnologia também beneficiam do atual boom da IA. Os 468 bilionários do setor tecnológico presentes na lista da Forbes acumulam agora uma fortuna combinada recorde de 4,8 biliões de dólares (4,15 biliões de euros), mais 1,1 bilião de dólares (952,11 mil milhões de euros) do que no ano anterior.
Grande parte desse aumento resulta do crescimento das fortunas de Elon Musk, impulsionado pela avaliação da SpaceX após a fusão com a xAI, e dos cofundadores da Google, Larry Page e Sergey Brin, cujas fortunas cresceram com o sucesso do modelo de inteligência artificial Gemini. O CEO da Nvidia, Jensen Huang, também viu a sua fortuna aumentar em 55,3 mil milhões de dólares (47,86 mil milhões de euros), à medida que as ações da empresa continuaram a subir.
A grande questão é quanto tempo poderá durar este ciclo. Durante a bolha das empresas “dot-com”, no início dos anos 2000, praticamente todas as empresas eram avaliadas como gigantes tecnológicas. O mesmo aconteceu, em menor escala, com as empresas de software na década de 2010 e com as empresas de computação em nuvem em 2022. Agora, desde consultoras a empresas médicas ou fabricantes de armamento, muitas organizações procuram posicionar-se como empresas de inteligência artificial.
Uma diferença importante desta vez é que muitas das avaliações elevadas são determinadas por investidores privados e não pelos mercados públicos. Fundos de capital de risco, private equity e outros veículos de investimento têm aceitado avaliações muito elevadas na expectativa de retornos exponenciais.
Mesmo assim, começam a surgir alguns sinais de tensão nos mercados. A cotação da CoreWeave, especializada em infraestrutura para GPUs (Graphics Processing Unit ou Unidade de Processamento Gráfico), vale atualmente menos de metade do pico registado no verão passado. As ações da Oracle dispararam quando a empresa anunciou investimentos massivos em centros de dados para IA, mas voltaram a cair nos meses seguintes, levando a uma redução significativa da fortuna de Larry Ellison.
Ainda assim, a expansão da inteligência artificial continua a criar novas fortunas em todo o mundo. A Forbes identifica vários grupos de novos bilionários ligados ao setor:
Os criadores de modelos de IA
Liu Debing (9,1 mil milhões de dólares | 7,88 mil milhões de euros) e Tang Jie (1,9 mil milhões de dólares | 1,64 mil milhões de euros) | Z.ai
Yan Junjie (7,2 mil milhões de dólares | 6,23 mil milhões de euros) | MiniMax
Piotr Dabkowski (1,8 mil milhões de dólares | 1,56 mil milhões de euros) e Mati Staniszewski (1,8 mil milhões de dólares | 1,56 mil milhões de euros) | ElevenLabs
Timothée Lacroix, Guillaume Lample, Arthur Mensch (1,8 mil milhões de dólares cada | 1,56 mil milhões de euros) | Mistral
As startups norte-americanas OpenAI e Anthropic foram as primeiras a enriquecer com a criação de modelos de inteligência artificial. Agora, o fenómeno está a espalhar-se globalmente. As empresas chinesas Z.ai, anteriormente conhecida como Zhipu, e MiniMax estrearam-se em bolsa no início de 2026, criando novas fortunas para os seus fundadores.
Ao mesmo tempo, a startup francesa Mistral aposta no desenvolvimento de modelos adaptados a grandes empresas europeias, estratégia que levou os investidores a avaliar a empresa em 14 mil milhões de dólares (12,12 mil milhões de euros). Já a ElevenLabs tornou-se uma referência no desenvolvimento de modelos de voz baseados em inteligência artificial.
Especialistas em rotulagem de dados
Edwin Chen (18 mil milhões de dólares | 15,58 mil milhões de euros) | Surge AI
Lucy Guo (1,4 mil milhões de dólares | 1,21 mil milhões de euros) | Scale AI
Brendan Foody, Adarsh Hiremath, Surya Midha (2,2 mil milhões de dólares cada | 1,90 mil milhões de euros) | Mercor
Os modelos de inteligência artificial já utilizaram praticamente todos os dados disponíveis na internet aberta para treinar os seus sistemas. Isso torna a rotulagem e preparação de dados por humanos, muitas vezes altamente qualificados, uma etapa cada vez mais importante. Empresas como Surge AI, Scale AI e Mercor fornecem esse trabalho essencial para os principais laboratórios de IA.
Aplicações de software e “vibe coding”
Arvid Lunnemark, Sualeh Asif, Aman Sanger, Michael Truell (1,3 mil milhões de dólares cada | 1,13 mil milhões de euros) | Cursor
Aravind Srinivas, Denis Yarats, Johnny Ho, Andy Konwinski (2,1 mil milhões de dólares cada | 1,82 mil milhões de euros) | Perplexity
Jyoti Bansal (2,3 mil milhões de dólares | 1,99 mil milhões de euros) | Harness
Fabian Hedin, Anton Osika (1,6 mil milhões de dólares cada | 1,38 mil milhões de euros) | Lovable
Bret Taylor, Clay Bavor (2,5 mil milhões de dólares cada | 2,16 mil milhões de euros) | Sierra
Steven Hao (1,3 mil milhões de dólares | 1,13 mil milhões de euros) | Cognition
Depois dos laboratórios de investigação, esta nova vaga de empresas representa a segunda grande fronteira da inteligência artificial. A Sierra, avaliada em 10 mil milhões de dólares (8,66 mil milhões de euros), oferece serviços de apoio ao cliente baseados em IA para empresas, enquanto a Harness utiliza inteligência artificial para automatizar processos de engenharia de software.
Ferramentas de programação assistida por IA, como Cursor ou Claude Code da Anthropic, tornaram-se rapidamente populares entre engenheiros de software, embora o setor seja altamente competitivo e as avaliações das empresas possam variar rapidamente.
Aviões, médicos e automóveis
Daniel Nadler (7,6 mil milhões de dólares | 6,58 mil milhões de euros) | OpenEvidence
Peter Ludwig, Qasar Younis (1,5 mil milhões de dólares cada | 1,30 mil milhões de euros) | Applied Intuition
Trae Stephens (1 mil milhão de dólares | 865,56 milhões de euros) | Anduril
Torsten Reil, Gundbert Scherf, Niklas Kohler (2 mil milhões de dólares cada | 1,73 mil milhões de euros) | Helsing
A inteligência artificial está também a transformar setores tradicionais. A OpenEvidence desenvolve uma ferramenta de pesquisa baseada em IA para médicos, frequentemente comparada ao ChatGPT para profissionais de saúde.
A Applied Intuition aposta em software baseado em IA capaz de controlar desde automóveis até aviões ou veículos militares. Outras empresas, como a norte-americana Anduril ou a alemã Helsing, trabalham em tecnologias de defesa e armamento autónomo.
A infraestrutura da inteligência artificial
Michael Hsing (1,8 mil milhões de dólares | 1,56 mil milhões de euros) | Monolithic Power Systems
Pantas Sutardja (1,4 mil milhões de dólares | 1,21 mil milhões de euros) | Semicondutores
Robin Khuda (2,1 mil milhões de dólares | 1,82 mil milhões de euros) | Centros de dados
Jitendra Mohan, Sanjay Gajendra (1 mil milhão de dólares cada | 865,56 milhões de euros) | Astera Labs
As revoluções tecnológicas não acontecem apenas na “nuvem”. A infraestrutura física também desempenha um papel essencial. Empresas de semicondutores, centros de dados e equipamentos eletrónicos são responsáveis por fornecer a capacidade de processamento necessária para treinar e executar modelos de inteligência artificial.
Michael Hsing fundou a Monolithic Power Systems em 1997, mas a empresa tornou-se uma das grandes beneficiárias do boom da IA devido à sua tecnologia de gestão de energia para centros de dados. Já Pantas Sutardja construiu grande parte da sua fortuna na Marvell Technology, empresa especializada em chips e redes para aplicações de inteligência artificial.
Texto original aqui. Artigo traduzido e editado por Paulo Marmé.





