“Gosto de ter uma visão sempre à frente do meu tempo”

Do pai aprendeu a pensar “à la longue”, porque quer na área dos vinhos quer na da cortiça é necessário plantar hoje para colher amanhã. Para isso é fundamental definir bem o caminho, com determinação e muito trabalho. Da mãe herdou o lado artístico, que a acompanha desde sempre. Pensou em ser escultora, mas acabou…
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Luisa Amorim é a mais nova das três filhas do empresário Américo Amorim, de quem recolheu ensinamentos e experiências fantásticas. Criativa, com olho para as artes, herança da mãe e da avó, lidera o negócio dos vinhos – o familiar e o pessoal -, com intuição, inquietude e até irreverência. Conheça aqui a empresária que se dedica ao negócio dos vinhos.
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Do pai aprendeu a pensar “à la longue”, porque quer na área dos vinhos quer na da cortiça é necessário plantar hoje para colher amanhã. Para isso é fundamental definir bem o caminho, com determinação e muito trabalho. Da mãe herdou o lado artístico, que a acompanha desde sempre. Pensou em ser escultora, mas acabou por aplicar esta criatividade nos negócios do vinho. Confessa que a nova adega da Quinta Nova foi inspirada nos socalcos do Douro, tal como uma instalação artística.

Luisa Amorim (Luisa, sem acento no i, tal como foi registada) não vive à sombra dos negócios familiares. Traça caminhos que a completam, pois diz ser uma pessoa de desafios, de projetos. É através da criação de vinhos e do enoturismo que conta as histórias que os clientes procuram ouvir, pois o ser humano é curioso e quer sempre conhecer o storytelling de uma garrafa. Timoneira dos destinos da Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo, no Douro, da Quinta da Taboadella, no Dão, e da Herdade Aldeia de Cima, no Alentejo, vê no enoturismo uma linguagem natural para tudo o que faz. Para breve tem planeado um investimento de expansão hoteleira na Quinta Nova– valor que não revela –, para a abertura de novas suites e um SPA de luxo, atingindo um total de 18 quartos.  Não pretende, neste local, crescer mais.

 

Nascendo numa família com o empreendedorismo no sangue, como via o seu futuro profissional, enquanto adolescente e jovem estudante?

Cresci num ambiente onde o trabalho, a curiosidade e a ousadia faziam parte do dia-a-dia da nossa família. Creio que como qualquer adolescente, não tinha um plano rígido, mas sentia que o caminho tinha de ser o de fazer algo distinto e com impacto, com irreverência. Sou uma pessoa que vivo a vida no presente. Gosto de visualizar o futuro, mas conto com uma linha que nunca é reta, até porque temos de contar sempre com alguma inquietude. Está no meu ADN a intuição e a criatividade – um novo projeto, uma nova ideia ou um novo desenho – e uma enorme vontade de transformação.  Tive a sorte de ter uma pessoa carismática e forte ao meu lado, e com uma resiliência extraordinária. O meu pai proporcionou-me experiências e viagens fantásticas, com conversas à mesa onde o entusiasmo era o menu diário.

 

Como define a sua infância? Olhando para trás, como avalia os seus tempos de criança?

Tive uma infância muito normal. E muito feliz. Vivia entre Espinho e Granja, perto da praia. Estudei quase sempre na escola pública e as brincadeiras passavam-se com as minhas irmãs, primas e vizinhas. Desde as casas de bonecas aos legos, passando pelo monopólio e as cartas, a largas horas passadas no jardim a recriar os jogos sem fronteiras, tudo era motivo para passarmos bem o tempo e à nossa maneira.  Os dias eram plenos e acabavam com a sensação de que amanhã íamos querer mais.  Aos fins de semana passávamos mais tempo em família, mas eram nas nossas viagens pelo mundo que os cinco disfrutávamos da vida familiar. O desporto nunca foi o meu forte, apesar de jogar ténis até aos 13 anos. Durante a semana nem sempre era fácil, os jantares lá em casa eram quase diários e muitas vezes com clientes e produtores de vinho de todo o mundo, e nós, as três filhas, ficávamos um pouco presentes durante o aperitivo, mas depois jantávamos cedo, porque no dia seguinte tínhamos novamente escola.

Luísa Amorim. Foto/André Rolo 

 

Sei que gosta de artes, sobretudo pintura… esse caminho profissional nunca esteve em aberto?

A arte sempre esteve muito presente na minha vida. Desde pequena, a pintura fascinava-me porque a minha mãe pintava e a minha avó, pelo que sei, também tinha muita aptidão. Desenhar sempre foi muito natural para mim. Cheguei a ponderar seguir o caminho das artes no início do terceiro ciclo, quando já estudava no Porto, no liceu Garcia da Horta. Na altura adorava escultura, mas rapidamente percebi que não era por ali que iria fazer a diferença. Entretanto perdi a mão para o pincel na tela, mas tenho o desejo de um dia voltar a pintar, certamente quando estiver numa fase da vida mais calma. Tenho a sorte de me realizar imenso na minha profissão e desenvolver alguns dos meus hobbies.

“Quando a porta da adega se abre, é curioso observar a reação das pessoas. Surge aquele momento “uau!” – um impacto imediato e profundo”.

A nova adega da Quinta Nova por exemplo, foi inspirada nos socalcos do Douro, como uma instalação artística. A ideia foi criar impacto e termos a perceção que estaríamos perante uma enorme escultura sobre os socalcos do Douro construídos em terraços, mas sobretudo ter uma adega que estivesse enraizada no território, que fizesse sentido nele, que o refletisse enquanto património cultural e paisagístico. Esta adega foi construída em 1764, apenas oito anos após a primeira demarcação da região do Douro, o que é incrível. A transformação do interior desta adega tão antiga, e especificamente esta peça, na verdade pretende ser uma homenagem à viticultura tradicional, na enorme mancha de paisagem reconhecida pela UNESCO como parte do Alto Douro Vinhateiro, com a viticultura de montanha com a maior expressão em todo o mundo. Quando a porta da adega se abre, é curioso observar a reação das pessoas. Surge aquele momento “uau!” – um impacto imediato e profundo. No exterior, preservámos o edifício original, respeitando a sua memória e a sua traça histórica. Mas no interior, pensámos numa enologia de futuro: recorremos ao cimento, um material tradicional, para criar um desafio técnico e estético com 32 cubas, todas com diferentes volumes de mil a 15 mil litros. Esta diversidade proporciona uma micro-oxigenação no cimento variável, dependendo da dimensão. E é precisamente assim: das ideias nasce a forma, e com ela, um novo projeto que honra o passado e projeta o futuro.

 

Que percurso académico seguiu e como decorreu essa fase, que memórias se recorda?

O meu percurso académico começou no Turismo e Hotelaria, uma área que sempre me atraiu pela ligação entre culturas, pessoas e territórios. Ao longo dos anos, já em contexto profissional, complementei a minha aprendizagem com Marketing e Comunicação e mais tarde, Gestão de Empresas. Comecei a trabalhar com 21 anos, e fiz uma formação intensiva dentro e fora do Grupo Amorim, com um plano individual de desenvolvimento. Para além do conhecimento académico, algumas conferências e seminários e consultoria. Tive o privilégio de poder passar por quase todas as empresas do Grupo Amorim a nível nacional e internacional. As viagens em família ou em trabalho mudaram a minha mente. Observar, escutar diferentes pessoas com faixas etárias e nacionalidades distintas e compreender realidades económicas e culturais diferentes, moldou a minha forma de estar, trabalhar e visualizar. Aos 25 anos era uma pessoa mais aberta e mais segura.

 

Quando percebeu que não queria ter uma vida de “negócios tradicionais, sempre fechada num gabinete”, e que o turismo e a natureza estavam na sua missão de vida?

Eu trabalho com negócios tradicionais e também desenvolvo muito trabalho em gabinete, como todos nós. Mas cedo percebi que a minha vida não poderia caber todos os dias em salas de reuniões. Gosto imenso de estar perto do negócio, da operação, gerir contextos profissionais distintos, considerando a produção, o mercado, o sector e gerir as particularidades de cada negócio. Confesso que estar com as pessoas, e estar perto da natureza faz-me bem e ajuda a afinar as ideias.

“Quero contribuir para que os vinhos portugueses tenham cada vez mais reconhecimento de qualidade em todo o mundo”.

Quando iniciei a minha carreira no negócio dos vinhos tinha apenas 26 anos e compreendi que esta poderia ser uma área de que iria gostar e moldar o meu futuro. Na verdade, e depois de uma estada nos Estados Unidos, não me revia a trabalhar em hotelaria toda a vida, mas o destino fez com que nunca me separasse deste negócio.

O enoturismo é quase uma linguagem natural para tudo o que faço nas quintas no Douro, no Dão e nas herdades. O ser humano é curioso e quer conhecer o storytelling do vinho, da história que está por trás de uma garrafa. E o enoturismo é isso, é abrir as portas da nossa adega, da nossa vinha e da nossa vivência para que as pessoas conheçam as nossas quintas e compreendam melhor a origem dos nossos vinhos, na esperança de que reconheçam o valor do trabalho humano e do património natural que lhes estão associados.

 

Como recorda a sua passagem pelos Estados Unidos?

O que mais me marcou foi a cultura do empreendedorismo. Ainda hoje me impressiona. Nos EUA, é fácil fundar uma empresa e obter apoio financeiro para lançar um novo projeto ou ideia. Os jovens têm imensas oportunidades dentro das empresas, onde se cultiva a ambição e a inovação. Ainda hoje, sempre que vou a Nova Iorque, há momentos em que acredito que nada é impossível.

Tenho alguns episódios que me marcaram profundamente, por volta de 1998. Presenciei pela primeira vez a internet sem fios, num estudo experimental. Tudo aquilo estava muito à frente da nossa realidade.  Tudo na América era diferente — e, por vezes, muito mais fácil. A logística tinha uma eficácia incrível. A medicina já estava muito segmentada. Em casa e pelo telefone, era facílimo ter acesso a vários serviços. Em relação ao marketing, retirei os melhores ensinamentos da minha vida. Ainda hoje, os livros devem estar atualizados em 70%. Os americanos são muito objetivos: não se questiona o que se quer vender, mas quanto se quer vender. E continuam — e vão continuar — a dar cartas, sobretudo na área da inteligência artificial. As maiores empresas do mundo são quase todas americanas. É, sem dúvida, uma grande escola.

Luísa Amorim. Foto/André Rolo

 

É difícil trabalhar com a família? Como enfrentou este desafio?

Quando se trabalha em família a emoção está lá, mas na maioria das vezes é só em casa que se demonstra o afeto. Tive de aprender que uma reunião não é um jantar, e uma opinião não é critério. Quando comecei a trabalhar no grupo era muito jovem e naquela altura não existiam grandes regras de governance familiar, e nem sempre o papel dos novos membros da família era claro. Mas tudo isso faz parte e trabalhar no negócio da família é uma “Missão”.

 

Quando sentiu que precisava de um percurso independente? Sente-se empreendedora por vocação?

Por volta dos 30 anos. Sou uma pessoa de projetos. Na altura não foi um impulso, foi mesmo uma enorme vontade que me levou a experimentar um projeto novo, que me iria desafiar e fazer sentir que gerir um negócio é também concretizar sonhos, e acrescentar valor com responsabilidade. Se sou empreendedora por vocação? Penso que me dedico bastante aos projetos em que acredito, mesmo que às vezes aconteçam em contraciclo. Mas o risco faz parte da vida e acreditar que é possível faz toda a diferença.

 

Como percebeu que queria uma carreira mais ligada ao setor dos vinhos? Como surgiu esta área na sua vida? A Quinta Nova da Senhora do Carmo foi o primeiro projecto nesta área que assumiu?

Quando regressei dos EUA queria assumir uma nova direção. Na altura, a família tinha adquirido no Grupo Amorim uma empresa de vinho do Porto, a JW Burmester & Co, há muito pouco tempo. Confesso que vi uma oportunidade. Essa vontade, que vinha já da passagem por Bordéus, Napa Valley e de outras diversas regiões vitivinícolas que tinha visitado no mundo, e de uma vida ligada à cortiça, parecia quase um caminho natural.  Mais tarde, em 2005, foi na Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo que assumi um projeto pela primeira vez de ponta a ponta, com a direção geral desde o início.

 

Como evoluiu o negócio e qual o balanço que faz hoje da atividade desta quinta?

A aquisição em 1999 de três empresas – JW Burmester, Gilberts e Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo – foi um compromisso com Portugal e o futuro. O vinho era considerado um dos clusters indicados por Michael Porter e tinha-se a sensação de que um dia o Douro iria ser uma grande região vitivinícola, e por isso faria sentido investir no Vinho do Porto, um vinho diferenciado e reconhecido historicamente em todo o mundo.

“Sou uma pessoa bastante intuitiva e gosto de ter uma visão sempre à frente do meu tempo. Tento trabalhar com equipas multidisciplinares e com perfis muito distintos do meu”.

Mais tarde centramo-nos apenas na Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo e cada vez mais nos DOC Douro, desenvolvendo uma gama de vinhos premium e icon. O balanço de hoje é a conquista de uma marca de renome, com enorme consistência e prestígio, ano após ano. Fomos pioneiros no enoturismo e hoje empregamos no nosso negócio de vinhos – Douro e Dão – quase 100 pessoas. Não temos a ambição de sermos um grande produtor em número de garrafas. A nossa estratégia é mais de nicho, e está definida para acrescentar valor aos territórios onde nos encontramos e às nossas quintas e marcas, optando por terroirs únicos para produzir vinhos de extrema qualidade. Temos conseguido gerir as empresas aportando valor no Douro e no Dão, e embora não sejamos, de todo, as quintas que engarrafam uma maior quantidade de garrafas, somos sem dúvida alguma das mais representativas em valor de faturação e número de postos de trabalho.

 

Qual é o vosso portefólio neste momento? Quantos espaços e quantos hectares em exploração? E na Taboadella no Dão?

Atualmente atuo em três territórios muito diferentes, que me dizem muito. No Douro, a Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo tem 85 hectares de vinha divididos em 41 parcelas. É aqui que nascem vinhos como o Aeternus, um vinho raro de uma vinha centenária e um tributo ao meu pai, Américo Amorim, e o Mirabilis, símbolo de precisão e longevidade. Temos ainda os Quinta Nova Reserva, como o Terroir Blend e o Blanc de Noir e uma das nossas marcas mais antigas, o Grainha, que reflete a identidade da região do Douro. No Dão, a Taboadella, com cerca de 40 hectares de vinha, traduz a elegância deste solo granítico, único em Portugal. Aqui destacaria o Reserva Encruzado, um branco de referência, os Unoaked branco e tinto, que mostram a pureza da fruta, e os Grande Villae, que são vinhos de guarda. Aliás, recomendo que os portugueses apostem mais nesta região, porque os vinhos do Dão ainda têm um preço ótimo e mostram uma evolução notável.

 

Há uma outra quinta no Alentejo – Herdade Aldeia de Cima – um investimento pessoal. Como surgiu este projeto e qual é o objetivo?

É um projeto meu e do meu marido, Francisco, numa herdade que era do meu pai. Desde o início quisemos regenerar o montado e afirmar um Alentejo diferente, na Serra do Mendro, onde contamos com 424 metros de altitude. Plantámos a primeira vinha em patamares da região e seguimos uma viticultura biológica. Mas a Herdade é mais do que vinho: cuidamos da floresta, temos um rebanho de ovelhas que ajuda a tratar a terra, cultivamos olival e medronheiros, e também produzimos mel. Agora estamos a criar novos espaços de produção e transformação: um lagar, uma destilaria e uma melaria. É um projeto a longo prazo, que olha para a terra como um legado a preservar e transmitir.

 

Qual o volume de negócios consolidado das três localizações? E principais mercados de destino?

Na Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo, produzimos cerca de 600 mil garrafas ao ano; a Taboadella está a crescer de forma sustentada, e estamos com cerca de 250 garrafas anuais. O vinho é o nosso principal negócio; o enoturismo amplifica a reputação e a relação direta com o consumidor, e representa já 30% da faturação. Na Herdade Aldeia de Cima temos um projeto boutique, com cerca de 40 mil garrafas anuais atualmente. Temos mercados de exportação diversificados, como a Suíça, os chamados países Benelux, Canadá, EUA e Brasil. Portugal continua a ser o nosso principal mercado.

Luísa Amorim. Foto/André Rolo

 

Como surgiu e evoluiu o enoturismo na Quinta Nova e na Taboadella? Quem são os principais clientes?

Tem sido um caminho longo, iniciado há 20 anos, quando o Douro ainda não era o destino turístico que conhecemos hoje. Abrimos portas cedo e sinto que, de alguma forma, contribuímos para colocar o Douro no mapa internacional. O nosso restaurante Terraçu’s, com a chancela Relais & Châteaux, continua a ser o cartão de visita, com vista sobre as vinhas centenárias em socalcos e um terraço aberto para o vale. Com o tempo, a experiência tornou-se mais imersiva: hoje quem nos visita quer conhecer as parcelas históricas, perceber vinificações por microlotes e viver momentos únicos. Foi por isso que criámos o Winery Lounge, um espaço exclusivamente reservado para experiências privadas.

Na Taboadella, a visita tem outro ritmo. O Dão é uma região menos explorada, e o enoturismo por aqui é mais sereno e pedagógico. Há provas na Wine House, alojamento privado na Vila Hotel – também ela pertencente à rede Relais & Châteaux – e um percurso pedestre que liga a origem romana do lugar à arquitetura contemporânea da adega.  No Alentejo, ainda não desenvolvemos o enoturismo. Estamos mais focados na produção de vinho, de outros produtos, e, claro, no montado. O público é maioritariamente internacional – sobretudo da Europa e da América do Norte – mas temos também muitos visitantes nacionais.

 

Que investimentos têm previstos para a vossa estratégia de crescimento?

Na Quinta Nova está em curso um projeto de expansão hoteleira, com previsão de abertura em 2026/2027. O plano inclui novas suites e um SPA de luxo, mas sempre mantendo a escala humana e a ligação à paisagem do Douro. Vamos ficar com 18 quartos — e não pretendemos crescer mais. Na viticultura, entrámos numa nova etapa: exploramos novas castas, diferentes exposições solares e adotamos práticas mais responsáveis, sempre que possível com certificação. Continuamos a monitorizar o uso da água, a apostar em enrelvamentos biodiversos e a reduzir a pegada de carbono. Muitas vezes, é um trabalho invisível — mas essencial — para que cada garrafa traduza a verdadeira essência do lugar.

Mantemos a vindima manual e promovemos a chamada “viticultura em mosaico” – talvez um nome cunhado por nós, mas que é transversal a todos os projetos. Trata-se de uma tipologia típica da montanha e do Vale do Douro, que promove a plantação de castas em nano e microterroirs, conjugando diferentes variedades e parcelas com o objetivo de aumentar a resiliência das plantas e, ao mesmo tempo, obter distintos pontos de maturação.

 

Quais são os principais desafios de liderança que enfrenta neste setor?

A do negócio depende sempre de nós. Mas a da natureza — e a sua capacidade de se manter equilibrada e funcional ao longo do tempo — talvez seja o maior desafio. Costumo dizer que, apesar de existirem muitos livros sobre dietas milagrosas, cada caso é um caso. O mesmo se aplica à viticultura: é difícil reter pessoas e manter a tradição saudável, num compromisso exigente e prolongado. Atrair alguém para a agricultura pode ser mais difícil do que atrair um quadro superior para uma empresa. Quando não temos pessoas para conduzir os nossos tratores, não conseguimos tratar a vinha atempadamente – e podemos perder grande parte da colheita. A natureza não espera. E está cada vez mais imprevisível.

“Atrair alguém para a agricultura pode ser mais difícil do que atrair um quadro superior para uma empresa”.

É urgente atrair pessoas para o interior. O poder autárquico tem um papel estrutural na criação de condições de habitabilidade e mobilidade. Essa é, sem dúvida, uma prioridade. E, claro, o acesso à educação e aos sistemas de saúde faz toda a diferença.

Na verdade, não faltam oportunidades de trabalho no interior do país. Mas, se não forem rapidamente criadas e condições e planos de desenvolvimento, arrisco-me a afirmar que, com o clima atual, vamos assistir ao abandono das terras – e a ver um Portugal cada vez mais desértico. No Sul e no Norte. É igual.

 

Como define o seu estilo de liderança e como vê a liderança feminina?

Não aprecio falar de liderança feminina ou masculina. Para mim não é um tema. Tenho uma liderança criativa e exigente. Na verdade, sou uma pessoa muito empenhada e gosto de estar sempre a desenvolver novos projetos. Sou uma pessoa bastante intuitiva e gosto de ter uma visão sempre à frente do meu tempo. Tento trabalhar com equipas multidisciplinares e com perfis muito distintos do meu.

 

Que marca pessoal pretende deixar no setor dos vinhos?

Não é de todo uma preocupação para mim. Todos os dias procuro dar o meu melhor e acredito que o caminho se faz caminhando. Na verdade, procuro sempre negócios e projetos com sentido. No vinho, cada garrafa traduz uma emoção, uma terra e um momento, e é bonito apreciar como cada uma deve refletir o lugar, o sítio de onde nasce. O fio condutor é sempre o mesmo: rigor técnico, respeito pela identidade e uma hospitalidade genuína, que recebe as pessoas como se estivessem em nossa casa.

Diria que quero contribuir para que os vinhos portugueses tenham cada vez mais reconhecimento de qualidade em todo o mundo, deixando referências que sejam marcantes. Julgo que todos nos sentimos bem quando acreditamos no que fazemos e conseguimos preparar novas gerações para cuidar da terra no futuro. Sempre nos ensinaram que a terra é um bem precioso e que não se fabrica. O importante é olhar para trás com a sensação de que ajudámos a transformar territórios, valorizamos o nosso país e a nossa nação e deixar uma pegada positiva no futuro.

 

Que lições de gestão é que o seu pai lhe deixou? Têm sido úteis neste seu percurso?

Uma bússola simples, mas exigente. Pensar “à la longue”, o que nesta área dos vinhos e da cortiça, é gerir para plantar hoje e colher amanhã, definindo bem os caminhos, com bastante convicção e determinação, e muito trabalho. Só assim chegamos lá. Mas sem medo, e se for necessário, ter a capacidade para corrigir os resultados, sem perder a foco, a ambição e a exigência.

(Entrevista publicada originalmente na edição de outubro/novembro de 2025)

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