Semanas depois de a administração Trump ter reduzido o salário mínimo aplicável a alguns trabalhadores agrícolas temporários, uma empresa associada à família Trump solicitou aprovação para contratar 36 trabalhadores estrangeiros para a Trump Vineyards (vinhas), na Virgínia, oferecendo um salário quase dois dólares por hora inferior ao praticado anteriormente. O pedido sublinha a dependência persistente deste negócio em mão de obra estrangeira, apesar do discurso político do presidente Donald Trump contra a imigração e da sua narrativa de que os trabalhadores americanos estão a ser afastados dos seus empregos.
A Trump Vineyards é uma unidade vitivinícola localizada em Charlottesville, no estado da Virgínia, e está associada à marca Trump. Apesar do nome, a propriedade não é detida diretamente por Donald Trump. A empresa proprietária é a Eric Trump Wine Manufacturing LLC, uma sociedade de responsabilidade limitada presidida por Eric Trump, filho do meio do presidente dos Estados Unidos. No site oficial da vinícola, um aviso esclarece que a empresa “não é detida, gerida nem afiliada a Donald J. Trump”, embora utilize a marca Trump mediante licenciamento.
Em outubro de 2025, o Departamento do Trabalho dos Estados Unidos promulgou uma regra que alterou a forma como são calculados os salários de alguns trabalhadores agrícolas temporários estrangeiros com vistos H-2A, reduzindo a remuneração mínima exigida para determinadas funções.

Dois meses depois, a empresa apresentou a documentação necessária para contratar 36 trabalhadores estrangeiros com vistos H-2A para a Trump Vineyards, no período entre fevereiro e outubro de 2026, alegando não conseguir encontrar trabalhadores americanos em número suficiente e garantindo que a contratação de mão de obra estrangeira não prejudicaria os salários nem as condições de trabalho no país.
As funções em causa pagam 13,90 dólares por hora (cerca de 11,97 euros), menos 1,91 dólares (aproximadamente 1,64 euros) do que a vinícola pagava em 2025 e abaixo dos valores oferecidos para funções semelhantes desde 2021, de acordo com registos do Departamento do Trabalho.
Desde 2008, o primeiro ano para o qual existem dados disponíveis online, empresas associadas à Trump Organization tentaram trazer para os Estados Unidos pelo menos 2.069 trabalhadores estrangeiros ao abrigo de programas de vistos temporários.
Embora Donald Trump tenha evitado criticar diretamente o recurso a mão de obra estrangeira no setor agrícola, a prática recorrente das empresas associadas à sua família contrasta com o seu discurso político, que associa a imigração à substituição de trabalhadores americanos e à pressão descendente sobre os salários nos Estados Unidos.
Os porta-vozes da Casa Branca e da Trump Organization não responderam aos pedidos de esclarecimento da Forbes.
Dois tipos de vistos
O pedido da Trump Vineyards surge num momento em que Donald Trump intensifica a repressão à imigração no seu segundo mandato, marcada pelo reforço da fiscalização do Serviço de Imigração e Alfândega. A administração tem direcionado particular atenção aos vistos H-1B, destinados a trabalhadores altamente qualificados em áreas como engenharia, contabilidade ou artes, ao contrário dos vistos H-2A utilizados pelas empresas associadas à família Trump. Em setembro, o presidente impôs uma taxa de 100.000 dólares (cerca de 86.107 euros) a muitos pedidos de visto H-1B.
A legislação norte-americana permite que as empresas contratem trabalhadores estrangeiros através de vistos temporários quando não conseguem preencher vagas com candidatos americanos. As empresas associadas à marca Trump recorrem de forma recorrente a dois destes programas: o H-2A, para trabalhadores agrícolas, e o H-2B, para empregos na hotelaria em unidades como o Mar-a-Lago. Para utilizar estes programas, as empresas têm de obter aprovação do Departamento do Trabalho, apresentar uma petição ao Departamento de Segurança Interna e, posteriormente, aguardar a emissão dos vistos pelo Departamento de Estado.

Para que o pedido seja aceite, o empregador deve demonstrar que “não há trabalhadores americanos suficientes que sejam capazes, estejam dispostos, qualificados e disponíveis para realizar o trabalho temporário” e que a contratação de trabalhadores estrangeiros “não afetará negativamente os salários e as condições de trabalho de trabalhadores americanos com empregos semelhantes”, segundo o Departamento do Trabalho.
Remuneração baixou
A taxa de desemprego na Virgínia situava-se em 3,5% em novembro de 2025, de acordo com o Bureau of Labor Statistics. Para determinar o salário mínimo aplicável aos titulares de vistos, o departamento calcula uma “taxa salarial de efeito adverso”, que varia consoante o estado ou a região. Em outubro, foi emitida uma regra final provisória que reviu a metodologia de cálculo desta taxa para algumas ocupações, reduzindo os níveis de remuneração.
O carácter provisório da regra significa que entrou em vigor de imediato, embora continue a permitir comentários públicos antes de se tornar definitiva. O prazo para submissão de comentários terminou a 1 de dezembro e não foi ainda anunciada uma data para a versão final da regra.
Alguns defensores dos direitos laborais e economistas alertam que a mudança na regra poderá reduzir os salários dos trabalhadores agrícolas, tanto americanos como estrangeiros. O Economic Policy Institute estima que a metodologia revista possa reduzir o total dos salários pagos aos trabalhadores agrícolas americanos em cerca de 3 mil milhões de dólares por ano (aproximadamente 2,58 mil milhões de euros), o equivalente a cerca de 9% do total. Em novembro, o sindicato United Farm Workers e 18 trabalhadores agrícolas intentaram uma ação judicial contra o Departamento do Trabalho, argumentando que a regra viola a lei federal ao não impedir um “efeito adverso” sobre salários e condições de trabalho.
Por sua vez, o Departamento do Trabalho defende que a metodologia salarial revista incentivará a contratação legal de trabalhadores, estimando que a mudança poderá levar à contratação de cerca de 119.000 trabalhadores H-2A adicionais e gerar cerca de 200 milhões de dólares em benefícios económicos anuais (cerca de 172 milhões de euros).
De acordo com o pedido apresentado, os trabalhadores anteriormente empregados pela Trump Vineyards receberão 16,16 dólares por hora caso regressem em 2026 (cerca de 13,91 euros).
Negócios de Trump
Donald Trump pode continuar a obter rendimentos dos seus negócios enquanto exerce o cargo através do Donald J. Trump Revocable Trust, o mesmo mecanismo utilizado durante o seu primeiro mandato. Trump é o único doador e beneficiário do fundo, enquanto Donald Trump Jr. atua como administrador. A Trump Organization confirmou num documento regulatório apresentado em abril no Reino Unido que o presidente mantém o controlo dos seus negócios enquanto está em funções.

De acordo com dados do Departamento do Trabalho, a Trump Organization procurou contratar 602 trabalhadores estrangeiros ao longo dos cinco anos do primeiro mandato de Donald Trump como presidente.
A Forbes estima que Donald Trump tenha atualmente um património líquido de cerca de 6,7 mil milhões de dólares (aproximadamente 5,77 mil milhões de euros), mais 2,4 mil milhões de dólares do que antes da sua eleição para um segundo mandato em novembro de 2024 (cerca de 2,07 mil milhões de euros), sendo que uma parte significativa da sua riqueza atual está associada a ativos em criptomoedas, e não a imobiliário ou clubes de golfe.
Zach Everson/Forbes Internacional





