Há automóveis clássicos que valem pelo modelo. Outros valem pela história. E depois há casos raros, quase improváveis, em que o modelo, a especificação e o percurso de vida do veículo se alinham de tal forma que o resultado é único. Foi isso que aconteceu com este Mercedes-Benz 300 SL “Gullwing” de 1956, chassis 198040-6500019, vendido pela Artcurial por 4.407.800 euros, um valor dentro da estimativa (2.000.000 a 5.000.000 euros), mas que confirma o estatuto especial de um dos automóveis mais cobiçados do pós-guerra.
Um 300 SL fora do comum desde o dia em que saiu de Estugarda
Este exemplar saiu da linha de produção em Estugarda a 26 de janeiro de 1956. Desde o início, não era um 300 SL “normal”. Foi encomendado com uma configuração excecional e altamente rara, incluindo todas as opções desportivas disponíveis no catálogo da época. E, ainda mais incomum, foi entregue com pintura “Graphitgrau” (código DB 190), uma cor aplicada em apenas 106 unidades, combinada com interior em pele natural (Naturfarbe 1068).

Mais relevante ainda para colecionadores: o automóvel mantém 100% dos números originais de fábrica, incluindo motor, caixa, eixo traseiro e componentes internos identificados na documentação técnica. A avaliação mais recente, realizada em dezembro de 2025 pelo especialista Dipl.-Ing. Klaus Kukuk, confirma que o carro conserva a sua autenticidade de forma quase total, incluindo números ocultos em painéis da carroçaria e até inscrições gravadas nas chaves.
O “tesouro” francês com especificação desportiva total
Este 300 SL é também um dos apenas 30 exemplares entregues novos em França. Foi encomendado pelo importador Mercedes-Benz em Paris, o concessionário Royal-Elysées, dirigido por Charles Delcroix, e destinado ao seu primeiro proprietário: Claude Foussier.

Foussier não era um cliente comum. Era industrial, executivo e, ao mesmo tempo, um atleta de alto nível. Competiu em tiro ao prato nos Jogos Olímpicos de Roma (1960) e Tóquio (1964), foi campeão europeu por equipas seis vezes entre 1956 e 1962, e teve uma carreira institucional relevante no desporto francês, incluindo a chefia da delegação francesa aos Jogos Olímpicos de Inverno de Grenoble (1968) e Sapporo (1972).

A lista de opções deste Mercedes-Benz 300 SL reflete um perfil exigente, orientado para performance: motor NSL com peças especiais para condução desportiva; molas, amortecedores e afinações para utilização de alto desempenho; jantes Rudge de aperto central; coluna de direção alongada; conjunto de bagagem em pele; e proteção anticorrosão e materiais de insonorização.
53 anos com o mesmo proprietário e um detalhe que parece ficção
O automóvel permaneceu com Claude Foussier até março de 1961. Depois passou brevemente pelas mãos de Roger Loyet, antigo piloto e conhecido comerciante parisiense, antes de ser adquirido por Jean Piger, outro industrial francês. Jean Piger manteve o carro durante 53 anos, de 1961 a 2014, sempre com a mesma matrícula original durante décadas.

Em 1984, ao mudar-se para o Château de Margeaix, alterou a morada no registo, mas não substituiu as chapas originais. O 300 SL ficou guardado nos anexos do castelo, ao lado de outros modelos de alto valor, incluindo um Ferrari 500 Mondial, um Bugatti 57 Atalante, um Ferrari BB 512 e um Jaguar E-Type adquirido novo.
Um selo fiscal de 1993, ainda presente no para-brisas, indica que o automóvel continuava em circulação nessa altura. Quando finalmente foi vendido em 2014, não circulava há 11 anos. Estava coberto de pó, com pneus vazios. Ainda assim, segundo a descrição do lote, bastaram seis velas novas, uma bateria e combustível para o motor pegar e o carro ser carregado para seguir para a Alemanha.

O novo proprietário, um colecionador discreto, não o restaurou nem o limpou. Guardou-o numa espécie de “bolha” de armazenamento, protegendo-o do tempo. Nove anos depois, um colecionador parisiense e entusiasta da Mercedes-Benz descobriu o carro. Tentou comprá-lo de imediato. O proprietário recusou. Um ano mais tarde, o negócio acabou por acontecer, e o 300 SL regressou a Paris.

E então surge o detalhe mais improvável de toda a história: investigações junto das autoridades locais indicam que Claude Foussier, o primeiro proprietário, vivia em 1956 no número 2 do boulevard Suchet, no 16.º arrondissement. O atual proprietário vive hoje no mesmo endereço. O carro voltou, 70 anos depois, à mesma garagem onde esteve quando foi entregue novo.

Pintura original, interior intacto e “matching numbers” absoluto
O estado do automóvel é apresentado como um dos seus maiores argumentos. Segundo a avaliação técnica citada, o carro mantém praticamente toda a pintura original de fábrica, com exceção de uma zona com espessura ligeiramente superior na traseira direita abaixo do para-choques e um retoque por baixo da porta do passageiro.

O interior em pele natural é descrito como patinado, nunca limpo ou tratado, e o veículo inclui elementos pouco comuns, como um indicador de temperatura exterior montado à frente do passageiro.

O automóvel é vendido com um dos conjuntos originais de bagagem (o segundo perdeu-se ao longo da vida do carro); kit de ferramentas Mercedes-Benz; uma peça em alumínio feita para equilibrar as rodas; a matrícula original de 1956, nunca substituída; e “camada de pó” acumulada, apontada como parte do seu carácter de preservação.
Porque é que este 300 SL é tão raro
O Mercedes-Benz 300 SL “Gullwing” é um dos modelos mais icónicos da história do automóvel, tanto pelo desenho como pela tecnologia. Foi o primeiro automóvel de produção com injeção de combustível e nasceu diretamente do ADN de competição da Mercedes-Benz.

Mas este exemplar em particular distingue-se pela especificação. A produção indica que apenas cerca de 250 unidades terão sido entregues com o motor NSL, que acrescentava cerca de 20 cv face à versão standard. Dentro desse grupo, 170 saíram de fábrica com motor NSL e jantes Rudge. E apenas cerca de 100 terão combinado motor NSL, jantes Rudge e suspensão desportiva, além das restantes opções. Segundo a descrição, este automóvel poderá ser um de cerca de 60 construídos com este nível de configuração, idêntico ao aplicado nas 29 raríssimas versões com carroçaria em alumínio.

Um clássico de preservação com lugar garantido nos grandes concursos
Com o seu estado de conservação, a descrição sugere que este 300 SL está pronto para competir na categoria “Preservation Class” dos maiores concursos de elegância, uma classe cada vez mais valorizada no mundo dos clássicos, onde a originalidade e a autenticidade podem contar mais do que um restauro perfeito.

O lote indica ainda que o automóvel e o seu novo proprietário serão convidados para a próxima edição do Concours d’Élégance de Chantilly.
Com um chassis tubular, motor de seis cilindros de 3 litros, travões Alfin e suspensão independente, o 300 SL foi um automóvel concebido para dominar a estrada, com velocidade máxima superior a 230 km/h e aceleração dos 0 aos 100 km/h em menos de 9 segundos, números impressionantes para a época.

E neste caso, com uma história olímpica, décadas de propriedade estável e uma autenticidade quase total, o resultado é um daqueles automóveis que não aparecem duas vezes.





