Trump quer mesmo tomar posse da Gronelândia: o que está em cima da mesa e o cenário de rutura na NATO

Donald Trump voltou a colocar a Gronelândia no centro da agenda geopolítica norte-americana, ao admitir que a sua Administração está a avaliar “múltiplas alternativas” para assumir o controlo do território autónomo do Reino da Dinamarca, incluindo uma eventual intervenção militar. A posição foi confirmada pela Casa Branca, num momento em que aliados europeus alertam para…
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O Presidente dos EUA, Donald Trump, mantém a ambição de colocar a Gronelândia sob controlo norte-americano, admitindo desde a compra do território à possibilidade de recurso à força militar. Quais os motivos do interesse de Trump para a anexação da Gronelândia, as reações dos líderes europeus e o cenário de rutura que irá abrir na NATO.
Economia

Donald Trump voltou a colocar a Gronelândia no centro da agenda geopolítica norte-americana, ao admitir que a sua Administração está a avaliar “múltiplas alternativas” para assumir o controlo do território autónomo do Reino da Dinamarca, incluindo uma eventual intervenção militar. A posição foi confirmada pela Casa Branca, num momento em que aliados europeus alertam para as implicações de uma ação desse tipo no seio da NATO (Organização do Tratado do Atlântico Norte).

“A aquisição da Gronelândia é uma prioridade de segurança nacional para os Estados Unidos e é vital para manter sob controlo os nossos adversários na região do Ártico”, afirmou Karoline Leavitt, porta-voz da Casa Branca. A responsável acrescentou que “o Presidente e a sua equipa estão a discutir múltiplas opções para cumprir este importante objetivo de política externa e, claro, utilizar as Forças Armadas dos Estados Unidos é sempre uma opção disponível para o comandante-chefe”.

O tom mais duro da Administração Trump foi reforçado por Stephen Miller, chefe de gabinete do Presidente, que afirmou numa entrevista à CNN que seria fácil para os Estados Unidos assumir o controlo da ilha devido à sua reduzida população, defendendo que “ninguém vai lutar militarmente contra os Estados Unidos” por causa da Gronelândia. Ainda assim, Miller disse não haver “necessidade de pensar ou falar” numa operação militar.

Apesar destas declarações, o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, tem transmitido aos legisladores que a preferência de Trump continua a ser uma solução negociada. De acordo com declarações citadas pelo The Wall Street Journal, Rubio disse que o Presidente “planeia comprar a Gronelândia”, mantendo essa via como alternativa prioritária face a um cenário militar.

A possibilidade de uma intervenção armada levou a primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, a alertar para uma rutura grave no equilíbrio euro-atlântico. A chefe do governo de Copenhaga considerou que um ataque dos Estados Unidos à Gronelândia “violaria décadas de acordos no âmbito da NATO” e representaria “um ataque sem precedentes a um aliado”.

A reação europeia não se fez esperar. Numa declaração conjunta, líderes políticos da Dinamarca, Reino Unido, França, Alemanha, Espanha, Itália, Polónia e outros países sublinharam que “é à Dinamarca e à Gronelândia, e apenas a estas, que cabe decidir sobre matérias que dizem respeito à Dinamarca e à Gronelândia”. O mesmo princípio foi reiterado pelos ministros dos Negócios Estrangeiros dos países nórdicos, que defenderam que qualquer decisão sobre o futuro do território deve ser tomada exclusivamente entre Copenhaga e Nuuk.

As declarações dos homens leais a Trump foram criticadas inclusivamente dentro do Congresso norte-americano. O congressista republicano Don Bacon, antigo general da Força Aérea, classificou os comentários como “realmente estúpidos”, sublinhando que “a Gronelândia e a Dinamarca são nossos aliados” e que “não há qualquer vantagem em desconsiderar os nossos amigos”.

Em paralelo, o governo da Gronelândia e o executivo dinamarquês solicitaram uma reunião com o secretário de Estado norte-americano para discutir as declarações de Washington. “O objetivo da reunião é discutir as declarações marcantes dos Estados Unidos sobre a Gronelândia”, escreveu Vivian Motzfeldt, ministro dos Negócios Estrangeiros gronelandês, acrescentando que, ao longo de 2025, ambos os governos já tinham pedido encontros ao nível ministerial sem sucesso.

A liderança política da própria Gronelândia tem rejeitado de forma consistente qualquer cenário de anexação. Em março de 2025, o partido no poder, Demokraatit, foi explícito: “Não estamos à venda. Não queremos ser americanos. Queremos ser gronelandeses”.

O motivo do interesse pela Gronelândia

Por detrás do interesse de Trump estão razões estratégicas e económicas. A localização da Gronelândia tornou-se cada vez mais relevante com a abertura de novas rotas marítimas no Atlântico Norte, impulsionadas pelo degelo no Ártico, num contexto de crescente presença da Rússia e da China. O Presidente tem argumentado que a Dinamarca não investe o suficiente na defesa do território, afirmando que a ilha está “rodeada por navios russos e chineses”. Os Estados Unidos mantêm já uma base militar na Gronelândia, visitada em março de 2025 pelo vice-presidente JD Vance, mas o controlo direto reforçaria a posição norte-americana na região.

Além da vertente militar, a ilha concentra vastas reservas de minerais raros e o seu território continental poderá conter importantes depósitos de petróleo e gás, segundo a comunidade científica. Para críticos europeus, no entanto, a discussão ultrapassa a questão económica. “Não se trata apenas de um conflito com o reino da Dinamarca, mas com toda a Europa”, afirmou Mette Frederiksen, reagindo à demonstração de solidariedade dos aliados.

A reativação do dossier da Gronelândia surge poucos dias depois de uma operação militar dos EUA na Venezuela para capturar o Presidente Nicolás Maduro, o que levou vários observadores a questionar se Trump poderá sentir-se encorajado a avançar noutros cenários internacionais. Para já, a resposta europeia é clara, a soberania da Gronelândia não está em negociação. Resta perceber o que irá dentro da cabeça de Trump.

com Lusa, Mary Whitfill Roeloffs e Antonio Pequeño IV/Forbes Internacional

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