A tecnologia está a tornar-se um instrumento político explícito, usado tanto para ganhar influência internacional como para controlar narrativas internas. Três exemplos recentes, um em África, outro na América Latina e um terceiro no Médio Oriente, mostram como plataformas digitais, inteligência artificial e infraestruturas tecnológicas passaram a integrar o arsenal estratégico de Estados e governos.
Empresas chinesas de IA estão a assumir liderança em África
De acordo com declarações do presidente da Microsoft, Brad Smith, as empresas chinesas de inteligência artificial estão a ultrapassar as congéneres norte-americanas na conquista de utilizadores em vários países africanos. O fenómeno, citado pelo Financial Times, resulta da combinação entre subsídios estatais chineses e modelos de baixo custo, que tornam estas soluções mais acessíveis em mercados emergentes.
Um dos casos destacados é o da DeepSeek, startup chinesa cujo modelo de IA R1 tem vindo a ser adotado rapidamente em países como a Etiópia e o Zimbabué. Segundo dados da própria Microsoft, a DeepSeek detém atualmente 18% do mercado de IA na Etiópia e 17% no Zimbabué. Em países sujeitos a restrições tecnológicas impostas pelos Estados Unidos, como a Bielorrússia, Cuba ou a Rússia, a quota da empresa chinesa é ainda mais expressiva.
Brad Smith reconhece que a China dispõe hoje de um modelo de código aberto competitivo, sustentado por apoios públicos que permitem, na prática, vender abaixo do custo das empresas norte-americanas. Em contraste, grupos como a OpenAI, a Google ou a Anthropic mantêm os seus modelos mais avançados sob controlo proprietário, acessíveis sobretudo através de subscrições ou contratos empresariais.
Para o responsável da Microsoft, esta diferença de abordagem não é neutra. O avanço da IA chinesa em África é visto como um sinal de que a tecnologia se tornou um vetor de influência política e ideológica, sobretudo num contexto em que o Ocidente tem mostrado menor disponibilidade para financiar infraestruturas críticas, como centros de dados ou custos energéticos. Smith alertou que a ausência de apoio ocidental pode abrir espaço a sistemas tecnológicos “não alinhados com os valores democráticos”.
Rede social X volta a estar acessível na Venezuela após mais de um ano bloqueada
O impacto político da tecnologia não se limita, contudo, à inteligência artificial. Na Venezuela, a recente retoma do acesso à rede social X, após mais de um ano de bloqueio, ilustra como as plataformas digitais são usadas como instrumentos de pressão, negociação e sinalização política.
A rede social, anteriormente conhecida como Twitter, tinha sido bloqueada em 2024 por ordem do então Presidente Nicolás Maduro, em resposta às críticas à sua contestada reeleição. O bloqueio levou ministros, parlamentares e instituições públicas a abandonarem a plataforma, que era até então o principal canal de notícias do país, migrando para aplicações alternativas como o Telegram.
O regresso da X coincide com um momento politicamente sensível. A presidente interina, Delcy Rodríguez, utilizou a própria plataforma para anunciar o restabelecimento do canal de comunicação, numa fase em que o Governo venezuelano enfrenta pressão externa dos Estados Unidos, assinou novos acordos petrolíferos e deu sinais de reaproximação diplomática, após anos de rutura.
A utilização imediata da rede por figuras-chave do regime, como o ministro do Interior, Diosdado Cabello, mostra que o desbloqueio não é apenas técnico. É também simbólico e político. A X volta a ser um palco de mobilização, confronto e propaganda, com mensagens de apoio, ameaças e referências diretas à tensão com Washington.
Em ambos os casos, África e Venezuela, a tecnologia surge como um elemento central na redefinição das relações de poder. Seja através da inteligência artificial de baixo custo que molda o futuro digital de países em desenvolvimento, seja através do controlo e desbloqueio seletivo de redes sociais, as decisões tecnológicas estão cada vez mais indissociáveis das opções políticas.
Starlink oferece serviço de Internet por satélite de forma gratuita no Irão
No Irão, a tecnologia surge como um fator decisivo de resistência e de ligação ao exterior. Perante o corte generalizado da Internet pelas autoridades iranianas, no contexto de uma vaga de protestos que se alastra desde o final de dezembro, o serviço de Internet por satélite Starlink passou a oferecer acesso gratuito no país, segundo ativistas no terreno.
Mehdi Yahyanejad, ativista radicado nos Estados Unidos que ajudou a introduzir os equipamentos no Irão, confirmou que a subscrição gratuita já está operacional, após testes realizados com terminais recém-ativados dentro do país. A Starlink tornou-se, assim, praticamente a única via de comunicação dos iranianos com o exterior, numa altura em que o Governo intensificou a repressão, classificando os manifestantes como terroristas e enfrentando acusações de execuções e detenções em massa.
A decisão surge num contexto em que o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou publicamente que pretendia contactar Elon Musk para discutir o posicionamento de satélites Starlink, com o objetivo de “manter a internet a funcionar” no Irão. A conectividade via satélite assume, neste cenário, um papel político direto, ao contornar o controlo estatal das comunicações e permitir a circulação de informação num ambiente de forte censura.
Com uma inflação anual superior a 42%, uma moeda que perdeu 69% do seu valor face ao dólar no último ano e mais de 2.500 mortos nos protestos, segundo organizações de direitos humanos, o acesso à Internet deixou de ser apenas um serviço. Tornou-se um instrumento de sobrevivência, denúncia e pressão internacional.
Dos algoritmos de inteligência artificial ao desbloqueio seletivo de redes sociais e à Internet por satélite oferecida em contexto de repressão, a tecnologia passou a ser um palco central da política contemporânea. Já não se limita a apoiar decisões. Define-as, condiciona-as e, em muitos casos, executa-as. Hoje, a política faz-se, cada vez mais, através da tecnologia.
Num mundo em que apenas 14% da população dos países do chamado Sul Global utiliza hoje ferramentas de IA, contra 24% nos países desenvolvidos, segundo dados da Microsoft, a forma como estas tecnologias são disponibilizadas, reguladas ou bloqueadas pode aprofundar desigualdades ou redesenhar alianças. A política já não se limita a legislar sobre tecnologia. Faz-se, cada vez mais, através dela.
com Lusa





