Um estudo recente, realizado pela consultora BCG para a New Space Alliances, revela que Portugal tem uma oportunidade estratégica única para se posicionar, até 2040, como o hub atlântico da Europa em competências espaciais soberanas e interdomínio até 2040. Segundo o research “Portugal no Espaço – 2040”, o nosso país poderá criar cerca de 27 mil novos postos de trabalho nesta área, entre diretos e indiretos, e gerar mais de 40 mil milhões de euros de impacto acumulado no PIB. Em 2023, o setor espacial português gerava 121 milhões de euros em receitas, representando apenas 0,03% do PIB, mas este valor poderá multiplicar-se por 17 vezes até 2040. O estudo mostra que há uma crescente procura global por serviços espaciais, nomeadamente por áreas como defesa, sustentabilidade, observação da terra e conectividade.
Ora, a startup Spotlite nasceu precisamente para atuar neste setor, mais especificamente no da Observação da Terra, mercado avaliado globalmente em cerca de 20 mil milhões de euros. A génese da empresa reside num trabalho de investigação realizado na Universidade de Coimbra em 2017, mas, em 2019 tornou-se quase uma missão de vida. “Num relatório das Nações Unidas de 2019 mostrava-se a correlação entre as alterações climáticas, os eventos extremos e os custos de manutenção das infraestruturas críticas. Há praticamente uma correlação de um para um entre o número de eventos extremos ao longo da última década e o aumento do custo de manutenção das infraestruturas. Ou seja, os custos têm duplicado a cada década, da mesma forma que os eventos extremos têm duplicado”, explica Ricardo Cabral, cofundador e CEO da Spotlite.
Em 2021 procuraram financiamento de capital de risco, já com clientes, e passam por um processo de rebranding, surgindo então a atual Spotlite (a empresa até tinha outra designação).
De que forma contribui então a Spotlite na resolução deste problema? Os dois fundadores, Ricardo Cabral, 42 anos, e Martino Correia, 38, COO, explicam: a Spotlite é uma empresa especializada em monitorização de infraestruturas através de uma plataforma que utiliza dados de satélite para fazer a deteção remota de riscos em estruturas críticas. Trabalha sobretudo com empresas de energia e de transportes, monitorizando, por exemplo, movimento do solo, riscos com vegetação, incêndios, etc. Prevenir falhas críticas em estruturas como redes elétricas, pontes, autoestradas, parques solares, barragens, entre outras, é a sua finalidade. Reduzir as falhas é o propósito, a poupança de recursos financeiros é uma – agradável – consequência.
Tudo começou em 2017. Os dois empreendedores, então professores e investigadores na Universidade de Coimbra, desenvolveram uma tecnologia que deriva da investigação que Ricardo Cabral estava a fazer no âmbito do seu doutoramento na área de Arqueologia e Património. Nessa fase estava a trabalhar com dados de satélite e dados de drones para levantamentos remotos, sobretudo na Síria, onde estavam a ser destruídos sítios arqueológicos. “Foi aí que surgiu a necessidade de perceber como é que poderíamos monitorizar estas destruições de forma remota. Então começámos a testar esta tecnologia, que surgiu primeiro para essa finalidade”, explica Ricardo Cabral.
A Spolite trabalha com grandes clientes como o grupo EDP/E-Redes, a REN, a Brisa, a Ascendi, a Ferrovial, a Global Via, entre outras, representando um total de 15 empresas.
Num segundo momento, em 2019, a dupla de investigadores percebeu que a tecnologia tinha potencial para escalar para outras áreas. “Tínhamos uma tecnologia que, na nossa visão, era a única maneira de mitigar os problemas dos fenómenos extremos nas infraestruturas críticas. Esta era a forma de fazer uma monitorização, usando os dados de satélite para termos visibilidade sobre toda a rede, de forma quase imediata”, explica Martino Correia. Foi também em 2019 que a empresa recebeu uma importante distinção da entidade que corresponde ao Ministério das Infraestruturas alemão, e que lhe deu visibilidade junto da área de clientes que procurava. Aliás, a tecnologia da Spotlite, inovadora no mercado, tem sido reconhecida várias vezes ao longo destes anos de atividade, destacando-se o EIC Selo de Excelência 2023.
Passado um ano conquistam o primeiro cliente, a multinacional EGIS, a que validou a tese dos dois fundadores, e que ainda é cliente da Spotlite. Surgiram então projetos da Agência Espacial Europeia e com bolsas e fundos próprios, este negócio foi crescendo. Em 2021 procuraram financiamento de capital de risco, já com clientes, e passam por um processo de rebranding, surgindo então a atual Spotlite (a empresa até tinha outra designação). Nesta ronda de financiamento entraram a Indico Capital, a Portugal Ventures, a EDP Ventures e Shilling Capital Partners. Em dezembro último, a Spotlite fechou mais uma ronda de financiamento no valor de 3,5 milhões de euros para acelerar o seu crescimento, melhorar a plataforma e entrar em novos mercados. Os olhos estão agora postos no crescimento do mercado europeu e no mercado da América do Sul. “Também queremos dar os primeiros passos no mercado norte-americano, usando este financiamento para isso, encontrando os primeiros clientes âncora”, explica o CEO.
Os grandes clientes que a Spotlite conquistou
Como negócio, a startup opera como um modelo SaaS (Software as a Service), trabalhando com licenças anuais. O pricing aplicado depende dos módulos e da dimensão das infraestruturas e com a frequência da monitorização. Por não estar autorizado a divulgar o volume de negócios da empresa, Ricardo Cabral apenas diz que, em 2024, multiplicaram o negócio por quatro e as previsões é que os números de 2025 representem um crescimento de 500% face ao ano anterior.
A Spolite trabalha com grandes clientes como o grupo EDP/E-Redes, a REN, a Brisa, a Ascendi, a Ferrovial, a Global Via, entre outras, representando um total de 15 empresas. No fundo, a internacionalização tem sido feita com estes clientes, que acaba por levar os seus serviços para os países onde estão instalados. Sobre a conquista de novos clientes, nacionais ou internacionais, Ricardo Cabral explica que “o problema é de tal ordem que nunca temos muita dificuldade em apresentar as nossas soluções, porque as empresas estão muito interessadas nelas. São indústrias muito tradicionais, ainda com pouca inovação, o que, por um lado, é bom porque precisam de soluções para o problema, mas, por outro lado não muito despertos para trabalhar com a tecnologia”. Ricardo Cabral revela ainda que, para muitos esta é uma tecnologia “quase futurista”, pois há um gap muito grande entre o que fazem atualmente e o que podem fazer com esta solução. “Cerca de 90% do trabalho destas empresas, na área dos riscos, são inspeções visuais, muito tradicionais, e nós chegamos com uma tecnologia de satélites, muito diferente”, refere o CEO.
“Há empresas com quem trabalhamos que têm ativos de dezenas de milhares de quilómetros, e que já estão a eliminar quase a 100% as equipas de inspeção”, explica o CEO, Ricardo Cabral.
Os clientes da Spotlite, no fundo usufruem de dois tipos de poupanças: por um lado, na gestão de risco, que são mais difíceis de quantificar; e por outro, nas poupanças de OPEX (despesas operacionais). Martino Correia explica que estes clientes, “tratando-se de gestores de infraestruturas e de operadores de manutenção, cujas infraestruturas que estendem por áreas muito grandes, têm uma visão muito parcial da realidade. Aquilo que oferecemos é, de forma regular, uma visão mais global do estado e dos riscos que poderão ocorrer em toda a extensão da infraestrutura”. Estes operadores têm falta de informação para cerca de 95% das estruturas, e têm de tomar decisões sobre onde vão colocar o investimento. “Nós oferecemos a capacidade de terem essa informação e assim priorizar onde vão colocar o dinheiro do seu orçamento de manutenção. Fazem uma manutenção preventiva e não reativa ou planeada”, explica.
De uma forma mais prática, Ricardo Cabral mostra outra vantagem da tecnologia Spotlite. “Há empresas com quem trabalhamos que têm ativos de dezenas de milhares de quilómetros, e que já estão a eliminar quase a 100% as equipas de inspeção. Isto porque comprovamos que os dados de satélite têm a fiabilidade suficiente para não ser necessário que equipas de 20 ou 30 pessoas andem todos os dias a inspecionar os ativos, pois os dados de satélite conseguem dar o mesmo tipo de avaliação”, remata. E acrescenta: “Aqui conseguimos obter milhões de euros de poupança e chegar a 40% de poupanças nas intervenções não necessárias”.
(Artigo publicado originalmente na edição da Forbes Portugal nº 85 (fevereiro/março 2026)





