O didgeridoo (ou didjeridu) é um instrumento de sopro milenar, originário dos povos aborígenes do norte da Austrália. Feito de troncos de eucalipto escavados para ficarem ocos, este instrumento mede de 1 a 2 metros de comprimento, emitindo um som grave e contínuo através da vibração dos lábios, sendo usado em rituais, cerimónias e como símbolo cultural.
O artista português Miguel Maat é um entusiasta e divulgador do didgeridoo, misturando-o com outros sons e ritmos rock, tendo já quatro álbuns e estando a lançar um novo single (“Light ’N’ Fire“) que apoia a Campintegra, associação que desenvolve projetos para a capacitação e recuperação na doença mental, na comunidade e no contexto de trabalho.
Defensor de causas ambientais, enquanto músico, Miguel Maat assume que o facto de ter passado a tocar didgeridoo intensificou a sua preocupação ambiental e acabou por ser inspiração para adotar o seu nome artístico Maat, como refere à Forbes Portugal, explicando o seu significado.

Desde 2014 que integra uma forte mensagem ecológica no seu trabalho. Na sua perspetiva, qual é o papel de um artista na resposta às crises ambientais globais?
Embora não fosse indiferente às causas ecológicas antes dessa data, a atitude intensificou-se a partir de 2012 quando decidi aprender a tocar didgeridoo.
Nessa altura contactei a Associação Portuguesa de Didgeridoo, responsável pela organização do Festival de Artes Tribais e Tradicionais (FATT), no Algarve, que me encaminhou para o Ruben Branco, da Zhor Dreams. Ele tornou‑se não só o meu professor, mas também um amigo e uma referência importante neste percurso. Esse encontro abriu‑me portas para um universo artístico e humano profundamente ligado à natureza, às tradições e a uma consciência ambiental que desde então passou a integrar o meu trabalho de forma muito mais intensa.
O que começou como uma curiosidade alterou por completo a minha perceção de responsabilização perante o legado que gostaria que fosse deixado às gerações vindouras e transformou significativamente a minha abordagem musical.

Num mundo em constante convulsão, há uma frase da cultura aborígene que sempre me guiou: “Somos todos visitantes deste tempo, deste lugar. Estamos apenas de passagem. A nossa missão é observar, aprender, crescer, amar… e depois regressamos a casa.” Ao ter associado esta expressão ao princípio ético universal, presente nos movimentos ambientais e inspirado por tradições que defendem a responsabilidade entre gerações, de que “O planeta não é nosso; é‑nos apenas emprestado pelos nossos filhos”, tornou‑se evidente que a minha música não podia existir desligada destas questões.
O principal motivo da integração desta consciência ecológica no meu trabalho é porque acredito que a arte toca onde os discursos técnicos não chegam. Se a música pode mover emoções, então também pode mover consciências e, para mim, isso é parte essencial da responsabilidade de ser artista. A música não resolve tudo, mas pode despertar, inquietar e mover vontades.
“A arte toca onde os discursos técnicos não chegam”
O seu projeto combina expressão artística com apoio ativo a organizações ambientalistas. Como é que na prática se traduz esse apoio?
Desde 2016 que tenho apoiado algumas causas, quer através da divulgação da atividade destas instituições nos canais digitais, em eventos, showcases e entrevistas, quer através de apoio financeiro decorrente de vendas dos trabalhos musicais, ou até mesmo através da participação em concertos beneficentes.
Com o álbum ANAK-BAUK estabeleci essa relação com a Survival International, uma instituição que se dedica à defesa dos direitos dos povos e tribos indígenas, seguiu-se o álbum Elektrum Fantasy em apoio da Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA), posteriormente o Centro de Recuperação de Animais de Castelo Branco (CERAS/QUERCUS), a Terra dos Sonhos que lida com situações de vulnerabilidade, desde a realização de sonhos de crianças e jovens com doença crónica, ou em fim de vida, até à melhoria do bem-estar de pessoas com doença oncológica e dos seus cuidadores. No âmbito do mais recente trabalho essa relação foi estabelecida com a Campintegra uma instituição que promove a inclusão e saúde mental através de projetos que devolvem autonomia e novas oportunidades a pessoas em situação de vulnerabilidade.
Para alguém que não o conhece, como se apresentaria e como definiria o seu estilo musical?
Numa expressão: World Fusion com uma pulsação Rock e identidade Indie!
A verdade é que, se por um lado não me consigo dissociar dos sons do mundo e da estética em torno do didgeridoo, da harpa de boca, do udu, da darbuka, da flauta de harmónicos…, também não me consigo dissociar de uma vertente rock mais afirmativa e enérgica. Esta dinâmica trouxe muita cor à minha abordagem musical e enriqueceu-a de uma maneira muito inesperada e original.
Se por vezes surgem temas numa expressão mais purista dos estilos, também acontecem fusões que integram instrumentos do mundo e música contemporânea. Muitos desses instrumentos — como a harpa de boca ou o didgeridoo — têm apenas uma nota natural, o que (aparentemente) limita à partida o espetro harmónico disponível. Essa limitação, porém, não é um obstáculo: é um ponto de partida, que nos obriga a procurar soluções fora do caixa, a explorar novas texturas, ritmos e camadas, e a encontrar caminhos criativos que não surgiriam num contexto musical mais convencional.
“O didgeridoo tem apenas uma nota natural; é um ponto de partida, que nos obriga a explorar novos ritmos e camadas e a encontrar caminhos criativos que não surgiriam num contexto musical mais convencional”.
Nesse processo criativo dou por mim, muitas vezes, no WarWood Studios, em Santarém, do meu companheiro musical e amigo João Guerra Madeira. Ele tem sido, desde longa data, uma presença fundamental no meu percurso — pela mestria, pela sensibilidade e pela capacidade de transformar ideias em matéria sonora. A generalidade da produção deste projeto passa pelas suas mãos, e esse diálogo criativo tem sido decisivo para concretizar a visão que procuro: uma música que nasce da fusão musical espontânea numa exploração artística cada vez mais arrojada.
Que atuações ao vivo tem previstas para os próximos tempos?
O lançamento do álbum irá iniciar-se com um circuito por algumas FNAC, um percurso que já trilhei no passado e onde fui sempre muito bem recebido. Está também agendado um concerto para 18 de julho na Feira da Diversidade, um evento promovido pela Campintegra que irá ocorrer em Vilar Formoso. Ainda estou em fase de conclusão deste novo trabalho, pelo que mais datas irão surgir assim que nos aproximarmos dessa meta.

O seu novo single Light ’N’ Fire surge associado a uma causa concreta. Qual é e o que motivou a fazer essa escolha?
A opção por apoiar a Campintegra vem já de uma relação de longa data, tendo iniciado ainda antes da pandemia em 2019. O trabalho desenvolvido por esta instituição assenta nos valores que defendo da capacitação das pessoas como forma de mudança, dando-lhes ferramentas para poderem ultrapassar os momentos difíceis da vida e tornar o mundo um lugar melhor, iniciando pela mudança do seu próprio pequeno mundo (aquele que gravita à sua volta) que depois se expande no seio da sociedade. Desenvolvem ainda parcerias de elevado valor, com destaque para projetos comunitários e no âmbito da sustentabilidade e ambiente, com os quais me identifico na íntegra.
Com quatro álbuns e várias explorações sonoras, qual é a visão estratégica para a próxima fase do projeto Miguel Maat — e até onde quer levar esta fusão entre música, consciência e performance?
O meu percurso já passou por uma fase claramente pop‑rock, evoluiu para a World Music instrumental, seguiu depois para uma estética de World‑Fusion Rock e, mais recentemente, reencontrei alguns conceitos mais puristas do Rock e do Reggae. Ainda assim, nunca me dissociei do universo World que sempre orbitou em torno do didgeridoo e da harpa de boca.

Por vezes sinto a necessidade — e também gosto — de criar canções que se aproximam de um registo mais ‘comercial’. Identifico‑me com esses universos e reconheço o seu valor, mas eles são apenas uma das muitas linguagens que habito. Funcionam como portas de entrada, permitem chegar às rádios e a espaços onde a atenção é disputada, e isso também faz parte do jogo. Ainda assim, o meu universo musical é muito mais vasto: é um território desafiante, arrojado, envolvente, quase um mundo próprio que faço questão de partilhar. É nessa partilha — entre o que é acessível e o que é profundamente meu — que encontro a verdadeira realização enquanto músico.
Maat é mesmo o seu nome? Ou é um nome artístico? O que quer dizer?
É nome artístico, adotado em 2009. É inspirado na mitologia egípcia, nomeadamente na deusa Ma’at, símbolo de integridade, equilíbrio e respeito pela ordem natural.





