Opinião

Reduzir distâncias: O futuro da agricultura começa na proximidade

Rui Almeida

Há uma distância que Portugal precisa de encurtar. Não é medida em quilómetros, mas em perceções.

É a distância entre quem produz e quem consome, entre a agricultura e a cidade, entre a floresta e quem dela beneficia diariamente sem a conhecer. Entre um setor que se transformou profundamente e uma sociedade que continua, muitas vezes, a vê-lo através de imagens do passado.

Se durante anos o desafio foi tornar essa transformação visível, hoje o objetivo é maior: criar proximidade.

Precisamos de espaços onde agricultores, empresários, investigadores, investidores, decisores públicos e jovens possam discutir o mesmo futuro. Nenhuma mudança estrutural acontece quando os seus protagonistas falam apenas entre si.

A agricultura portuguesa demonstra bem esta necessidade. Nas últimas três décadas, a produtividade do trabalho aumentou 277% e os salários cresceram mais de 50% na última década, acima da média da economia nacional. O trabalho assalariado representa já cerca de 40% do emprego do setor, refletindo uma atividade mais profissional, especializada e tecnológica.

Uma exploração agrícola moderna precisa de operadores de maquinaria inteligente, especialistas em dados, gestores, engenheiros e técnicos de sustentabilidade. O campo deixou de precisar apenas de braços: precisa de talento.

No entanto, a perceção pública continua frequentemente associada a uma atividade pouco qualificada e pouco inovadora. Este desfasamento entre realidade e narrativa tem consequências.

Enquanto a agricultura evolui, a sua força de trabalho envelhece. A idade média da mão-de-obra familiar passou de 46 para 59 anos em três décadas e o modelo perdeu mais de metade dos seus trabalhadores. O maior risco já não é produzir menos, mas não haver quem continue a produzir.

O desafio é europeu. Apenas 12% dos gestores agrícolas têm menos de 40 anos, tornando a renovação geracional uma questão estratégica para a segurança alimentar, a gestão do território e a competitividade.

Ainda assim, existem razões para confiar. Entre 2007 e 2022 instalaram-se mais de 10 mil jovens agricultores em Portugal, responsáveis por mais de 1,5 mil milhões de euros de investimento e pela gestão de mais de 250 mil hectares. Têm uma idade média de 33 anos, formação superior ou técnico-especializada e, em quase um terço dos casos, chegaram ao setor sem experiência agrícola anterior.

Este dado revela uma mudança importante: a agricultura já atrai talento que vem de fora. Pessoas que escolhem o setor pela inovação, pelo empreendedorismo e pelo propósito, trazendo novas competências e novas formas de pensar.

É precisamente aqui que reduzir distâncias ganha significado estratégico. Um investidor identifica oportunidades diferentes das de um agricultor. Um especialista em tecnologia encontra soluções que o quotidiano do terreno pode não revelar. Um consumidor informado influencia cadeias de valor e um jovem empreendedor desafia modelos instalados.

Quando estas perspetivas se cruzam, surgem melhores decisões.

O setor também precisa de se aproximar da sociedade, explicando melhor como produz, porque investe em tecnologia, como gere os recursos naturais e qual o seu contributo para a economia e para a sustentabilidade do território. A proximidade gera confiança, e a confiança gera melhores políticas, melhores investimentos e maior capacidade de inovação.

A experiência europeia demonstra que a renovação geracional resulta da combinação entre acesso à terra, financiamento, formação, mentoria e integração em mercados organizados. Não existe uma medida milagrosa; existe uma estratégia integrada.

O mesmo princípio aplica-se à relação entre agricultura e sociedade. Não basta comunicar mais. É necessário criar oportunidades de encontro e construir entendimento entre mundos que evoluíram demasiado tempo em paralelo.

Num contexto marcado pelas alterações climáticas, pela pressão sobre os recursos naturais e pela necessidade de garantir segurança alimentar, aproximar tornou-se uma vantagem competitiva.

Reduzir distâncias significa aproximar conhecimento e experiência, tradição e inovação, tecnologia e território, produtores e consumidores.

Porque o futuro da agricultura portuguesa não depende apenas do que acontece dentro das explorações agrícolas. Depende da capacidade de transformar o setor num espaço aberto à sociedade, onde diferentes perspetivas se cruzam, desafiam ideias feitas e criam respostas para um dos maiores desafios económicos e estratégicos do nosso tempo.

A agricultura mudou. A floresta também. Agora é tempo de aproximar.

Rui Almeida,
Diretor, CONSULAI

Artigos Relacionados