Opinião

Razões para ficar

Nuno Stone

Portugal fala muito do talento que perde. Talvez seja tempo de perceber onde lhe estamos a dar razões para ficar.

 

Todos os anos repetimos o mesmo diagnóstico: Portugal perde talento. Jovens qualificados partem à procura de melhores salários, de reconhecimento e de perspetivas de progressão que nem sempre encontram cá. É uma discussão necessária. Mas, talvez estejamos há demasiado tempo a olhar apenas para quem sai e pouco para aquilo que, dentro do nosso país, ainda consegue convencer pessoas a ficar.

Tenho pensado nisso a partir da experiência de quem passa grande parte da vida profissional a contratar, a formar e a liderar pessoas. E há uma transformação que merece mais atenção: a forma como muitos profissionais deixaram de encarar a carreira como uma linha reta.

Durante décadas, estudar uma área significava trabalhar nela até ao fim da vida. Hoje, isso já não é necessariamente assim. Há engenheiros, arquitetos, juristas, gestores ou profissionais de saúde que, a determinada altura das suas vidas, escolhem recomeçar. Há também quem, depois de alguns anos afastado do mercado de trabalho, encontre numa nova área uma oportunidade para regressar e reconstruir o seu percurso profissional, não porque tenha falhado na profissão anterior, mas porque procura outra combinação de autonomia, rendimento, reconhecimento e progressão de carreira.

É neste contexto que a mediação imobiliária merece ser vista de outra forma. Durante muito tempo foi encarada como uma profissão de recurso, uma alternativa para quem não encontrava lugar noutro setor de atividade. Essa perceção está cada vez mais desatualizada. Para muitas pessoas, tornou-se uma profissão de escolha.

Vejo-o diariamente. No nosso caso, 81,1% dos consultores têm formação superior e convivem na mesma organização pessoas dos 19 aos 78 anos. Uns chegam diretamente da universidade; outros trazem dez, vinte ou trinta anos de experiência noutras áreas de atividade. E os cerca de 19% que não têm formação superior não ficam fora desta equação. A formação contínua permite-lhes adquirir as ferramentas técnicas e comerciais necessárias para construir uma carreira exigente e especializada. Mais importante do que os números, é aquilo que revelam: já não existe uma idade certa, uma formação única ou uma única forma legítima de construir uma carreira.

Essa transversalidade também chegou às lideranças. Tanto na comissão executiva como nas direções dos escritórios convivem hoje pessoas de pelo menos três gerações diferentes. Cerca de metade tem mais de uma década de casa e a outra metade chegou nos últimos dez anos. Essa combinação entre experiência acumulada e novas perspetivas é, para mim, uma das demonstrações mais interessantes da transformação que o setor atravessou.

Naturalmente, esta escolha não oferece garantias. Uma carreira na mediação imobiliária implica risco, disciplina, aprendizagem permanente e responsabilidade individual sobre os próprios resultados. Mas talvez seja precisamente essa relação mais direta entre aquilo que cada pessoa entrega e aquilo que pode construir que explique parte da sua atratividade.

Há, ainda, uma realidade que ajuda a perceber a dimensão deste fenómeno. Portugal não exige um exame de acesso nem um registo profissional individual obrigatório para exercer a atividade de mediação imobiliária. Existem 11.174 licenças AMI, atribuídas a empresas e não a pessoas, e estima-se que trabalhem no setor cerca de 55 mil profissionais. É uma realidade que torna difícil conhecer com exatidão a dimensão humana do setor e que reforça, ao mesmo tempo, a importância da exigência que cada organização coloca na formação e no desenvolvimento dos seus profissionais.

Talvez por isso tenha aprendido, ao longo dos anos, que a qualificação de uma profissão não se mede apenas pelo diploma de quem entra. Mede-se, também, pelo que cada pessoa está disposta a aprender, pela responsabilidade que assume e pela capacidade que encontra para evoluir.

E é aqui que, para mim, a liderança faz diferença. Há uma frase que ouvi, em tempos, a um líder que admiro muito e que uso desde então com as minhas equipas: “nunca olhar para uma pessoa pelo que ela é, mas sobretudo pelo que ela pode vir a ser”.

Liderar passa muito por isso. Por perceber que alguém pode chegar de outro setor, sem experiência no imobiliário, depois de uma interrupção profissional ou sem o percurso académico que seria mais óbvio e, ainda assim, ter condições para construir uma carreira extraordinária. Exigir e acreditar não são ideias incompatíveis. Só conseguimos pedir mais a alguém quando acreditamos verdadeiramente que essa pessoa pode chegar mais longe do que aquilo que já demonstrou.

Quando discutimos retenção de talento, tendemos a pensar, sobretudo, em salários ou políticas públicas. São dimensões fundamentais e Portugal continuará a perder profissionais enquanto existirem diferenças relevantes de rendimento e de oportunidades face a outros países. Nenhum setor, isoladamente, resolve esse problema.

Mas, talvez devêssemos acrescentar uma pergunta à discussão: em vez de perguntarmos apenas por que razão tantos portugueses partem todos os anos à procura de melhores oportunidades no estrangeiro, vale a pena perceber o que fazem os setores que ainda conseguem dar-lhes razões para ficar.

Porque reter talento não significa necessariamente manter alguém na carreira que escolheu aos 20 anos. Às vezes, significa permitir-lhe descobrir, aos 30, aos 45 ou aos 55, que ainda pode escolher outra.

Nuno Stone,
Chief Operations Officer da Portugal Sotheby’s International Realty

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