Algumas das exposições mais aguardadas nas principais capitais culturais, em 2026, oferecem mais do que apenas uma agenda para os amantes de arte. De Paris a Nova Iorque, passando por Londres, Madrid e Tóquio, as esperadas mostras servem de barómetro das transformações em curso no mercado global de arte e no universo do colecionismo. A curadoria dos grandes museus revela quais os artistas, períodos e narrativas que estão a ganhar centralidade institucional, o que, frequentemente, antecede ou acompanha mudanças na forma como o valor artístico é produzido, legitimado e procurado por colecionadores. Eis algumas das tendências mais evidentes, por temas, cidades e exposições:
▶ Obras clássicas e Modernismo
Museus consagrados, como o Musée de l’Orangerie e o Musée d’Orsay, em Paris, e o Museo Nacional Thyssen‑Bornemisza, em Madrid, reafirmam a centralidade de nomes clássicos, cujo valor já é amplamente reconhecido.
Henri Rousseau: The Ambition of Painting, no Musée de l’Orangerie, em Paris, de 25 de Março a 20 de Julho
A retrospetiva de Henri Rousseau no Musée de l’Orangerie apresenta cerca de 50 obras, incluindo peças emblemáticas da Barnes Foundation, oferecendo uma leitura completa da carreira do artista francês. A exposição afasta-se da narrativa simplista do “Douanier” autodidata e revela Rousseau como um artista ambicioso, consciente do seu papel no desenvolvimento do modernismo e das dinâmicas do mercado artístico da época.

Ao reunir pinturas icónicas e estudos preparatórios, a curadoria destaca a inventividade do artista e a forma como influenciou contemporâneos como Picasso, ao mesmo tempo que evidência fases da sua obra até agora menos exploradas. A abordagem revela tendências claras no colecionismo contemporâneo: o interesse não se limita ao nome de Rousseau, mas centra-se também em períodos específicos da sua produção que são agora reconhecidos institucionalmente. As obras em evidências sinalizam algumas das fases do modernismo estão a ganhar relevância e antecipa o interesse do público em narrativas históricas reinterpretadas e, agora, legitimadas pelos grandes museus.
Renoir and Love, no Musée d’Orsay, em Paris, de 17 de Março a 19 de Julho
Renoir and Love propõe uma leitura singular da obra de Pierre‑Auguste Renoir, privilegiando a dimensão afectiva da sua pintura e, em particular, as representações de amor, intimidade e sociabilidade do artista. Reunindo obras‑ícone como Dance at Le Moulin de la Galette ao lado de retratos e cenas de cotidiano, a exposição constrói um discurso em torno da forma como o artista traduziu os vínculos humanos em cor, luz e movimento. Este recorte temático da mostra, em vez de uma retrospetiva estritamente cronológica, convida o público a reconsiderar não apenas o lugar de Renoir na história do Impressionismo, mas também as razões pelas quais certas obras se tornaram culturalmente emblemáticas.

Esta curadoria temática e narrativa reflete uma tendência cada vez mais evidente no mercado de arte: o interesse por leituras que recontextualizam nomes consagrados para revelar novos aspetos da sua produção. As obras reforçam o estatuto de Renoir não apenas como figura histórica, mas como fonte de temas que continuam a ressoar cultural e economicamente.
Vilhelm Hammershøi: Survey, Museo Nacional Thyssen‑Bornemisza, em Madrid, até 31 de Maio
Esta retrospectiva dedicada a Vilhelm Hammershøi apresenta uma seleção de interiores silenciosos e paisagens urbanas, característicos da estética minimalista e contemplativa do artista dinamarquês. Ao reunir obras provenientes de coleções internacionais, a exposição permite apreciar a subtileza do uso da luz e a economia de elementos que conferem às suas composições uma intimidade quase cinematográfica. A curadoria destaca a coerência da sua visão artística e a capacidade de transformar espaços comuns em experiências visuais densas, estabelecendo um diálogo com tendências contemporâneas de perceção e narrativa.

Esta visibilidade internacional evidencia uma tendência crescente no mundo da arte: a procura por artistas que combinam rigor formal com profundidade conceptual. Obras que circulam em nichos regionais podem assumir relevância global, e esta mostra de Hammershøi demonstra o interesse crescente em explorar dimensões históricas menos visíveis, mas altamente significativas.
▶ Revisão do cânone: novas leituras de artistas consagrados
As seguintes exposições não se limitam a reafirmar o valor histórico das obras de Schiele, Gainsborough ou Klee, mas a explorar novas narrativas, períodos ou contextos fora do foco tradicional.
Egon Schiele: Portrait of Dr Erwin von Graff, na Neue Galerie, em Nova Iorque, até 4 de Maio
A exposição na Neue Galerie, Nova Iorque, centra-se num dos retratos mais expressivos de Egon Schiele, dedicado ao médico vienense Dr. Erwin von Graff, e explora a complexa relação entre o artista e o modelo. Reunindo pinturas, desenhos preparatórios e material de arquivo, a curadoria permite-nos compreender como esta amizade influenciou a expressão psicológica intensa e os traços distintivos do expressionismo austríaco. O foco da mostra nesta fase específica da carreira de Schiele revela dimensões menos conhecidas do seu trabalho, oferecendo uma leitura que vai além do cânone tradicional e destaca a riqueza formal e emocional da obra.

A tendência é clara: a valorização de obras de fases particulares ou contextos específicos de artistas já consagrados. Ao legitimar este período menos explorado, a curadoria não só amplia o entendimento histórico de Schiele, como também orienta a procura de obras raras ou menos estudadas.
Gainsborough: The Fashion of Portraiture, na Frick Collection, Nova Iorque, até 11 de Maio
A exposição dedica-se à faceta menos explorada de Thomas Gainsborough, centrando-se na relação entre retrato e moda no século XVIII britânico. Ao combinar retratos de elite com detalhes de vestuário e adereços, a curadoria destaca como o artista utilizou a representação de tecidos, cortes e estilos para construir status social e identidade visual. Uma nova abordagem que nos permite uma leitura mais rica das obras do artista e sublinha que Gainsborough não se limitava a captar a fisionomia humana, mas também narrativas culturais subtis ligadas à época.

Ao ressaltar essas dimensões contextuais, a exposição sinaliza uma tendência crescente no mundo da arte: o interesse não se limita a nomes consagrados, mas estende-se a obras que nos oferecem informação histórica ou estética inédita.
Paul Klee: Other Possible Worlds, no Jewish Museum, em Nova Iorque, de 20 de Março a 26 Julho
A exposição concentra-se no período tardio de Paul Klee, incluindo obras produzidas durante o seu exílio após ser considerado “degenerado” pelo regime nazi. Reúne cerca de 100 pinturas e desenhos, muitos raramente exibidos, acompanhados por documentação que contextualiza a sua vida e os desafios políticos e pessoais enfrentados. A curadoria da mostra revela dimensões menos conhecidas do artista, como a sua experimentação e a profundidade conceptual, permitindo uma leitura renovada da sua prática e das influências transversais entre exílio, resistência e criatividade.

A tendência é clara: fases específicas e obras pouco estudadas, mesmo de artistas já consagrados, estão a ganhar relevância. Um novo olhar sobre narrativas históricas e contextos sociais acrescentam valor simbólico e económico às obras.
▶ Redescoberta de artistas mulheres e marginalizadas
Maruja Mallo, no Museo Reina Sofía, em Madrid, até 16 de Março
A retrospetiva dedicada a Maruja Mallo oferece uma visão abrangente do percurso da artista galega, centralizando o seu papel no surrealismo espanhol e a sua capacidade de articular inovação formal com narrativa social.
A exposição apresenta obras icónicas, desenhos e materiais de arquivo que revelam a sua originalidade e a dimensão experimental do seu trabalho, desde composições geométricas a figuras que exploram identidade, género e modernidade.

A tendência é clara: há um interesse crescente nas artistas historicamente marginalizadas, cuja obra combina qualidade e relevância cultural.
Aurèlia Muñoz, no Museo Nacional Thyssen‑Bornemisza, em Madrid, de 29 de Abril a 7 de Setembro
A exposição dedicada a Aurèlia Muñoz destaca a importância da sua obra têxtil no contexto da arte catalã e espanhola do século XX. Reunindo tapeçarias, desenhos preparatórios e estudos de cor, a curadoria evidencia o rigor artístico e a expressividade das suas composições, colocando a arte têxtil, frequentemente marginalizada, em diálogo com práticas artísticas mais reconhecidas.

A tendência é clara: há um interesse crescente por práticas históricas que escaparam ao circuito tradicional de valorização, em especial artistas mulheres cuja obra combina inovação formal e relevância cultural. Ao conferir visibilidade a Muñoz, é destacada a importância destas peças têxteis de grande qualidade histórica e estética.
Ewa Juszkiewicz, no Museo Nacional Thyssen‑Bornemisza, em Madrid, de 26 de Maio a 6 de Setembro
A monográfica de Ewa Juszkiewicz apresenta o trabalho da artista polaca contemporânea, conhecida por reinterpretar retratos clássicos europeus através de subversão formal e conceptual. A exposição reúne pinturas recentes que transformam figuras históricas, desconstruindo padrões tradicionais de representação e questionando normas de género e estética. A curadoria evidencia a capacidade da artista de dialogar com o passado e cria novas narrativas visuais, tornando visível o valor conceptual da obra de Juszkiewicz.

A exposição sinaliza uma tendência clara: o crescente interesse em artistas mulheres contemporâneas que desafiam convenções e ampliam o cânone. Esta visibilidade institucional legitima obras inovadoras, antecipando procura e valorização de peças que, para além da técnica, carregam peso histórico e cultural, consolidando a posição da artista no mercado internacional de arte.
▶ Arte contemporânea e globalização
Mariko Mori Retrospective, no Mori Art Museum, em Tóquio, de 31 de Outubro a 28 de Março
A retrospetiva de Mariko Mori reúne cerca de 80 obras que exploram a interseção entre arte, ciência e espiritualidade. Nesta mostra, o espectador entra em ambientes imersivos cuja curadoria enfatiza a capacidade da artista de conjugar tecnologia, performance e estética contemporânea, transformando, assim, conceitos abstratos em experiências sensoriais.
Ao destacar práticas que desafiam fronteiras disciplinares, a exposição revela a crescente centralidade de artistas que exploram narrativas globais e interdisciplinares.

A tendência é claro: mercados internacionais prestam atenção a obras inovadoras que cruzam géneros e técnicas, e artistas que interligam culturas e tecnologias tornam-se alvo de procura estratégica, refletindo a globalização do mercado contemporâneo.
David Hockney, na Serpentine, em Londres, até 23 de Agosto
A exposição de David Hockney, na Serpentine, apresenta obras recentes do artista, incluindo pinturas digitais criadas num iPad, assim como trabalhos em grandes formatos tradicionais. A curadoria sublinha a capacidade do artista de experimentar com novas tecnologias sem perder a força expressiva que caracteriza toda a sua carreira. Ao integrar suportes digitais e tradicionais, a mostra evidencia a flexibilidade de Hockney em dialogar com públicos contemporâneos e expandir fronteiras formais, consolidando a sua posição como referência viva no panorama artístico internacional.

A tendência é clara: há uma valorização crescente de obras que combinam inovação tecnológica e reputação histórica. A exposição sinaliza que o público está atento a artistas que reinventam continuamente a sua prática e que produzem peças com relevância estética e conceptual, antecipando interesse por obras que cruzam tradição e inovação.
Frida Kahlo: The Making of an Icon, no Tate Modern, em Londres, de 25 de Junho a 3 de Janeiro de 2027
A retrospetiva da Tate Modern apresenta mais de 130 obras de Frida Kahlo, incluindo pinturas, desenhos, fotografias e documentos pessoais, oferecendo uma visão multidimensional da artista enquanto figura cultural, ativista e ícone global. A curadoria contextualiza a sua produção artística em relação às experiências pessoais, ao ativismo político e à circulação internacional da sua obra, ao mesmo tempo que demostra como Kahlo influenciou e foi influenciada por outros artistas.

Em conjunto, estas exposições revelam as atuais e diferentes formas de olhar e valorizar a arte. O tema da pintura histórica e modernismo reforça a importância de artistas clássicos e de fases específicas das suas obras, sublinhando como a história da arte continua a ser reinterpretada e celebrada. Já a revisão do cânone destaca novas leituras de nomes consagrados, revelando dimensões pouco conhecidas e incentivando uma reflexão mais profunda sobre contextos e narrativas esquecidas. O foco na redescoberta de artistas mulheres e marginalizadas evidencia a emergência de vozes historicamente silenciadas, valorizando inovação, diversidade e experiências culturais antes negligenciadas. Por fim, a arte contemporânea e globalização expõe o diálogo entre tradição, tecnologia e práticas transnacionais, sublinhando a expansão de horizontes e a interligação de culturas na produção artística atual.





