Opinião

Quando o SNS confunde Inovação Tecnológica com Inovação em Saúde

Ana Gonçalves

Há uma pergunta que talvez devêssemos começar a fazer quando discutimos o futuro do Serviço Nacional de Saúde: “depois de tratar a doença, o que estamos efetivamente a conseguir devolver às pessoas?”

Os portugueses, como nos restantes países desenvolvidos, estão a viver mais anos. A esperança média de vida em Portugal atingiu os 82,5 anos, acima da média da OCDE, sem que signifique necessariamente viver melhor ou com mais autonomia. E é precisamente aqui que a discussão sobre o SNS precisa de dar um passo em frente, pois não basta promover novas tecnologias com o intuito de aumentar a capacidade de diagnosticar e tratar… é preciso apostar na capacidade de recuperar.

Não se trata de desvalorizar o que está a ser feito. Pelo contrário. A digitalização, a inteligência artificial, a robotização e a capacidade de cruzar informação clínica, são aspetos fundamentais para termos um sistema de saúde mais eficiente e preparado para uma população envelhecida e com maior prevalência de doenças crónicas. O problema começa quando se confunde inovação tecnológica com inovação em saúde. Torna-se, pois, legítimo questionar se o sistema está a cumprir integralmente a sua missão.

A própria Organização Mundial da Saúde tem vindo a chamar a atenção para a necessidade de colocar a reabilitação no centro dos sistemas de saúde. Os números são difíceis de ignorar: cerca de 2,4 mil milhões de pessoas em todo o mundo vivem atualmente com uma condição de saúde que pode beneficiar de reabilitação. É praticamente uma em cada três pessoas.

Mais interessante ainda é o diagnóstico que a OMS faz sobre a forma como medimos a própria saúde. Num documento publicado este ano, a organização alerta para o facto de os sistemas continuarem a avaliar o progresso sobretudo através da mortalidade e da morbilidade, deixando de fora uma dimensão tão decisiva como o funcionamento. Ou seja, saber se uma pessoa consegue efetivamente viver, trabalhar, participar e manter a sua autonomia. O que não medimos, dificilmente conseguimos transformar numa prioridade de investimento.

É aqui que a fisioterapia merece deixar de ser tratada como uma nota de rodapé. Quando falamos de um doente que sofreu um AVC, de alguém que passou por uma cirurgia complexa, de uma pessoa com uma doença neurológica ou musculoesquelética ou simplesmente de quem perdeu capacidade funcional com a idade, o tratamento médico pode resolver uma parte fundamental do problema. Mas recuperar a pessoa é outra etapa e, muitas vezes, uma etapa determinante para aquilo que acontece a seguir.

A diferença entre sair de um hospital e voltar verdadeiramente à vida pode estar precisamente aí. Continuamos, no entanto, a falar muito mais de episódios clínicos do que de resultados funcionais. Contamos consultas, cirurgias, tempos de espera, camas, exames e internamentos. Tudo isto é importante. Mas sabemos quantas pessoas recuperaram a autonomia? Quantas regressaram ao trabalho? Quantas deixaram de precisar de ajuda para as tarefas quotidianas? Quantas evitaram uma nova hospitalização porque conseguiram recuperar capacidade funcional?

Com todas as consequências económicas que também não podemos continuar a ignorar. A incapacidade não termina quando termina um tratamento. Tem custos para o próprio, para as famílias, para as empresas e para o Estado. Um paciente que não recupera a sua autonomia pode precisar de mais cuidados, mais apoio familiar, mais respostas sociais e, em idade ativa, pode ficar afastado durante mais tempo do mercado de trabalho.

Talvez por isso a discussão sobre o futuro do SNS precise de mudar ligeiramente o tom. Em vez de se discutir apenas quanto investir em tecnologia (fator crucial, sem dúvida), importa deixar de ter uma visão ultrapassada do que significa estar saudável e investir, também, em quem é capaz de transformar essa tecnologia em recuperação, autonomia e qualidade de vida.

Ana Gonçalves,
CEO da Academia Negócios Saúde

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