Opinião

Quando o espaço certo cria valor

Maria José Almeida

Durante anos, Portugal foi visto como um mercado periférico no universo do luxo. A atratividade cultural, a qualidade de vida e o património já lá estavam, porém, faltava aquilo que pesa na decisão das marcas quando escolhem uma geografia: contexto, coerência e o espaço certo. Essa perceção mudou de forma clara nos últimos anos, e o imobiliário tem sido um dos principais catalisadores dessa mudança.

Nas marcas de luxo, a expansão é uma decisão identitária. Estar num país, numa cidade ou numa rua é um ato de posicionamento. O luxo  procura autenticidade, a que se constrói através da localização, da arquitetura e da forma como o espaço físico reforça a narrativa da marca.

Em Portugal, essa transformação tornou-se particularmente evidente na Avenida da Liberdade. Ao longo dos últimos anos, as marcas de luxo não só reforçaram presença, como elevaram significativamente o nível de exigência relativamente aos espaços que ocupam. Hoje, estar na Avenida já não basta, é crucial estar no eixo certo, no edifício certo, com condições que permitam contar a história da marca de forma coerente –  uma lógica que se equipara ao que acontece nas principais ruas das capitais europeias, onde a localização e o storytelling são tão determinantes quanto o produto.

Os requisitos são cada vez mais específicos: boas fachadas, pé-direito generoso, luz natural, visibilidade e uma relação cuidada com o espaço público tornaram-se determinantes. A loja deixou de ser apenas um ponto de venda para se afirmar como um manifesto de marca. Nesse contexto, o edifício é fundamental, não é neutro, não é substituível, e não se dissocia da identidade que a marca pretende projetar.

Este novo nível de exigência teve impacto direto no mercado imobiliário, na medida que os investidores perceberam que a simples disponibilidade de área já não é suficiente para atrair as marcas de luxo. A reabilitação, feita com consciência do valor da arquitetura, da história do edifício e da sua integração urbana, passou a ser estratégica.

Quando um edifício é bem recuperado e acolhe uma marca bem posicionada, tende a valorizar não apenas o ativo, mas toda a envolvente. O luxo funciona como âncora e, ao mesmo tempo, como curador. Atrai investimento qualificado, redefine o perfil da rua e contribui para a criação de estruturas comerciais mais coesas e duradouras.

A consolidação da Avenida da Liberdade, exemplo claro dessa lógica, não aconteceu por acaso, mas como resultado de decisões ponderadas, tanto por parte das marcas como dos proprietários e investidores. A rua tornou-se um ativo em si mesma. E, ainda assim, este movimento não se limita ao luxo, abre espaço a segmentos complementares que beneficiam da qualificação urbana e do efeito de vizinhança.

O Porto está também a afirmar-se como protagonista da nova dinâmica urbana do país. Entre os seus ícones, a Avenida dos Aliados destaca-se como uma artéria com enorme potencial, reunindo os atributos que as marcas mais valorizam: localização estratégica, identidade arquitetónica singular, edifícios históricos com capacidade de reabilitação e um crescente interesse por parte de investidores que reconhecem o valor de um posicionamento sólido. As primeiras marcas já começaram a instalar‑se como sinal claro de uma tendência que ultrapassa o universo do luxo: um processo de revitalização urbana, diversificação comercial e uma visão integrada para qualificar o centro da cidade.

Se durante anos se questionou se Portugal teria escala ou maturidade para atrair o luxo, hoje a evidência é concreta. Quando marcas, investidores e proprietários partilham uma leitura comum sobre espaço, cultura e identidade, o imobiliário deixa de ser apenas um suporte físico para se afirmar como um verdadeiro instrumento de posicionamento urbano e económico. O luxo não transforma apenas o retalho, transforma a cidade.

Maria José Almeida,
Expertise no segmento de retalho de luxo, Cushman & Wakefield (Portugal)

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