Opinião

Quando comunicar é cuidar: o poder da literacia em saúde

Bernardo Soares

Antes de qualquer consulta, tratamento ou vacina deve haver sempre uma mensagem que prepara, esclarece e orienta — e é ela que pode salvar vidas. A saúde pública enfrenta hoje desafios que não se resolvem apenas com tecnologia, investimento ou inovação científica. Resolvem-se também com informação clara, rigorosa e acessível. A forma como comunicamos saúde influencia comportamentos, molda decisões e, no limite, determina resultados. E quando falamos de saúde, não falamos apenas de pessoas. Falamos também dos animais que nos acompanham e do ambiente que partilhamos. Comunicar saúde é comunicar um sistema interligado — um ecossistema vivo, onde o bem-estar humano, animal e ambiental se sustentam mutuamente.

É um facto que vivemos assoberbados de informação. Nunca foi tão fácil aceder a dados, estatísticas ou recomendações médicas — e, paradoxalmente, nunca foi tão difícil compreendê-los. A literacia em saúde continua baixa, mesmo em sociedades desenvolvidas, e a desinformação tornou-se uma ameaça silenciosa à prevenção e à confiança nas instituições. A avalanche de mensagens, muitas vezes contraditórias, cria ruído e desorienta. E quando a ciência se torna linguagem inacessível, abre-se um buraco negro para interpretações erradas, crenças perigosas e decisões precipitadas. A comunicação, quando feita com rigor e empatia, é a ponte que falta. Porque comunicar ciência não é apenas transmitir factos — é traduzir o complexo de forma que o outro queira e consiga compreender. E essa tradução deve abranger todas as dimensões da saúde: desde as doenças zoonóticas à sustentabilidade, passando pela segurança alimentar ou pela íntima e indissociável relação com o ambiente.

Comunicar saúde é sabermos como e quando devemos colocar-nos no lugar de quem está à nossa frente. É um exercício de equilíbrio entre a precisão técnica e a linguagem humana. Quando falamos de vacinação, saúde mental, nutrição ou doenças crónicas, a forma como as mensagens são transmitidas influencia diretamente comportamentos e atitudes. A comunicação científica deve, por isso, integrar saberes médico-veterinários e ambientais, de modo coordenado e coerente. Não basta sabermos o que é certo; é preciso sabermos dizê-lo de forma que as pessoas queiram ouvir. Traduzir ciência é também ligar mundos que dependem uns dos outros — transformar dados em diálogo, números em significado e conhecimento em ação.

A comunicação em saúde já não é exclusivamente uma questão de especialistas. Hoje, todas as instituições — públicas, privadas ou associativas — têm uma responsabilidade partilhada na forma como informam e educam a sociedade. Todas as entidades que atuam na área da saúde humana, animal ou ambiental devem assegurar que o seu discurso é coerente com a prática. Não basta fazer campanhas: é preciso criar confiança, mostrar consistência e comunicar com propósito. A diferença entre uma mensagem que gera medo e outra que promove consciência é o que distingue a reação do comportamento. A comunicação não é um acessório — é parte integrante dela.

A literacia em saúde não é um luxo intelectual ou um chavão atual, é uma necessidade coletiva. É o que permite transformar conhecimento em autonomia e prevenção em hábito. A comunicação deve ser vista como uma ponte entre a ciência e a sociedade, capaz de traduzir o conhecimento técnico em escolhas conscientes no quotidiano. A prevenção começa nas palavras, nas campanhas e nas conversas do dia a dia — muito antes de qualquer diagnóstico. As agências e comunicadores têm aqui um papel determinante: criar linguagem comum entre os diferentes setores e tornar o conceito One Health compreensível e vivido. Uma literacia verdadeiramente integrada é aquela que ajuda cada cidadão a perceber que as suas escolhas — o que consome, o que produz e como vive — têm impacto direto na saúde do planeta e, consequentemente, e na de todos os que o rodeiam.

A comunicação é o elo invisível entre conhecimento e comportamento. É através dela que a ciência alcança o seu verdadeiro potencial, que a prevenção se torna possível e que a confiança se constrói. Comunicar saúde é cuidar de tudo o que vive — pessoas, animais e ambiente. É reconhecer que a balança do bem-estar global só se equilibra com o bem-estar de todos. Quando comunicamos saúde com clareza, prevenimos, educamos e cuidamos. E isso é, possivelmente, a forma mais humana de salvar vidas.

Bernardo Soares,
Médico Veterinário e One Health Diretor na UPPartner

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