Opinião

Quando a ciência perde mulheres, Portugal perde futuro

Goncalo Nascimento

Vivemos numa era onde a urgência por respostas científicas e inovação dita o ritmo do progresso global. No entanto, continua a verificar-se um paradoxo profundo no nosso ecossistema científico nacional: formamos mentes brilhantes e atingimos a paridade académica, mas assistimos à dissipação do talento feminino ao longo do caminho. É um fenómeno conhecido como leaky pipeline: a fuga de talento na transição entre o Doutoramento e a consolidação da carreira científica.

Os dados são claros e preocupantes. Segundo as estatísticas mais recentes do relatório She Figures 2025, publicado pela Comissão Europeia, as mulheres continuam a representar cerca de 48% das graduações de Doutoramento. Em Portugal, este indicador de base acompanha a tendência europeia e reflete um acesso igualitário ao ensino superior, o que deve ser motivo de orgulho. Contudo, à medida que a progressão exige acesso a lugares de topo e de tomada de decisão, o cenário transforma-se.

Esta perda de talento tem um custo financeiro e social tremendo. Portugal investe recursos públicos e privados consideráveis na formação avançada de investigadoras que, mais tarde, acabam por ver os seus caminhos bloqueados por barreiras sistémicas, pela escassez de perspetivas de carreira estáveis e por uma precariedade contratual, que ainda afeta desproporcionalmente as mulheres. Por isso, apoiar as investigadoras deixou de ser apenas um imperativo de justiça social: é uma decisão estratégica de resiliência económica.

A ciência e a inovação que irão definir as próximas décadas precisam de pluralidade. Modelos de negócio robustos, soluções tecnológicas eficientes e descobertas disruptivas só acontecem quando cruzamos perspetivas distintas e complementares. Se a ciência portuguesa continuar a perder as suas mulheres a meio do percurso, Portugal perderá, inevitavelmente, o seu futuro competitivo. A resposta ao paradoxo apresentado inicialmente exige uma profunda articulação entre políticas públicas e responsabilidade social do setor privado. As empresas têm também de ser agentes ativos na criação de redes de suporte, estabilidade e projeção para as investigadoras.

É precisamente neste espaço de convergência e ação que se posicionam iniciativas como as Medalhas de Honra L’Oréal Portugal para as Mulheres na Ciência, desenvolvidas em parceria com a Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), que já distinguiram 73 cientistas em início de carreira no nosso país. Estes apoios não pretendem substituir o papel estrutural do Estado na dotação de carreiras científicas dignas e estáveis. Pelo contrário, comprovam que o setor privado pode ter um papel decisivo numa fase profissional exigente e vulnerável, evitando que tantas cientistas de excelência acabem por abandonar a área da investigação.

A ciência aplicada é a base da competitividade futura de Portugal. O apoio empresarial a projetos de sustentabilidade e saúde gera as patentes que garantem o futuro do país. Mas esta inovação está em risco: é inadiável eliminar as barreiras no mercado de trabalho que continuam a afastar as mulheres da liderança científica em Portugal.

O futuro da ciência em Portugal constrói-se hoje, mas não existirá sem equidade. O setor privado não pode ser um mero observador, nem financiador passivo. É essencial travar este leaky pipeline de talento feminino e, garantir que as mulheres chegam ao topo da investigação, tem de ser uma prioridade pragmática de gestão. A equidade de género na ciência não é um ideal abstrato, mas é sim a condição fundamental para a inovação, a prosperidade e a resiliência do país.

Gonçalo Nascimento,
Country Coordinator do L’Oréal Groupe

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