A Critical TechWorks foi fundada em 2018, sendo uma joint venture entre o Grupo BMW (51%) e a tecnológica portuguesa Critical Software (49%). Sediada em Portugal, a empresa foi criada para desenvolver software para o ecossistema digital e veículos do grupo BMW. À Forbes, os COO da Critical TechWorks, Christine Marconcin e Benedikt Nuspl explicam o que tem sido feito em Portugal para os automóveis, motos e fábricas do construtor alemão, os planos para o futuro e a forma como a tecnologia, o software e a digitalização revolucionou por completo os automóveis novos que hoje conduzimos.
A Critical TechWorks desenvolve software para os automóveis do grupo BMW. Os desenvolvimentos em que estão a trabalhar agora surgirão dentro de quanto tempo nos automóveis?
Christine Marconcin: Desde a sua criação, a Critical TechWorks tem vindo a afirmar-se como um parceiro estratégico do BMW Group, contribuindo diretamente para o design, desenvolvimento e implementação de produtos digitais nos veículos, fábricas e ecossistemas de toda a organização e da sua estrutura produtiva.
A resposta a esta pergunta depende muito de cada produto de software. Existem funcionalidades e novas aplicações que chegam regularmente ao mercado através de atualizações “over the air”, que os nossos clientes recebem. Nestes casos, falamos de meses. Em paralelo, trabalhamos em novas plataformas e arquiteturas de software que podem demorar alguns anos até chegarem à produção. No caso da Neue Klasse, por exemplo, algumas das nossas equipas iniciaram o trabalho há 4 a 5 anos.

O lançamento do BMW iX3 é um marco que reflete a força desta parceria e, sobretudo, a ambição conjunta de ajudar a definir a próxima geração da mobilidade – com inovação, propósito e excelência de engenharia. O iX3 é também o primeiro modelo assente na arquitetura Neue Klasse, um passo decisivo na evolução do portefólio da BMW, centrado em produtos conectados e digitais, e numa experiência de condução distintiva. A Critical TechWorks orgulha-se de contribuir para esta jornada e para a escala que a Neue Klasse representará nos próximos anos.
Sem antecipar prazos de disponibilidade no mercado, podemos confirmar que as nossas equipas estão a desenvolver mais de 150 produtos digitais para a Neue Klasse. Em paralelo, temos mais de 250 especialistas focados em garantir uma conectividade robusta entre o veículo e o seu ecossistema, trabalhando em atualizações “over the eair” em mais de 22 milhões de carros – assegurando que cada veículo beneficia continuamente dos desenvolvimentos mais recentes, de forma segura e consistente.
“As nossas equipas estão a desenvolver mais de 150 produtos digitais para a Neue Klasse”

A nossa visão é clara: os carros não devem ser apenas máquinas que transportam pessoas do ponto A ao ponto B. Devem ser plataformas inteligentes que elevam os padrões de segurança, simplificam o quotidiano e tornam a experiência de condução mais fluida e avançada. Este compromisso sustenta o nosso propósito: acelerar a transformação digital do Grupo BMW, com impacto real e um forte foco em elevar o prazer de conduzir.
A Mini e as motos BMW também têm software português. Pode dar exemplos concretos de soluções presentes nos veículos que foram feitas em Portugal?
Christine Marconcin: Relativamente ao nosso desenvolvimento para a Mini um dos maiores destaques recentes prende-se com a introdução da MediaApp V2, um produto integrado no lançamento do novo Mini Aceman elétrico, para o qual a CTW foi responsável com cerca de 80% do desenvolvimento de engenharia de software. Estivemos particularmente envolvidos na introdução e implementação do novo ecrã circular, baseado em tecnologia Android Automotive.

Este novo media player responsivo adapta-se a streaming, podcasts e audiolivros, oferecendo uma experiência única em todos os tipos de conteúdos. Esta tecnologia integra também sistemas de navegação, combinando simplicidade e funcionalidade numa experiência diferenciadora para os utilizadores.
Paralelamente, estivemos envolvidos em funcionalidades do Intelligent Personal Assistant, permitindo aos condutores controlar a navegação, chamadas telefónicas ou outras tarefas apenas com a voz.
Na BMW Motorrad, desenvolvemos, por exemplo, o sistema de navegação e o novo painel de instrumentos. O tema mais recente na Motorrad começou no ano passado, com o desenvolvimento da aplicação Motorrad para iOS.

Olhando mais para a frente, quais são as grandes novidades que os clientes BMW podem esperar em matéria de infotainment para os próximos tempos e que estão a ser trabalhadas na Critical TeckWorks?
Christine Marconcin: O nosso trabalho tem um objetivo central: garantir que cada carro BMW é um sistema vivo e inteligente, com conectividade fluida e dedicada, transformando cada veículo numa plataforma digital sobre rodas. O infotainment desempenha um papel fundamental enquanto base tecnológica que gere toda a experiência de condução.
Como grande destaque, apresentado também no CES no início de 2026, não posso deixar de mencionar o nosso novo Personal Assistant com tecnologia Alexa+. Ao integrar Inteligência Artificial no nosso Personal Assistant, atingiremos novos patamares de comunicação e interação fluida com o veículo e o ambiente envolvente. Este trabalho está a ser desenvolvido numa colaboração estreita entre a Amazon, a BMW e a Critical TechWorks.
O nosso envolvimento no desenvolvimento do BMW Panoramic iDrive foi igualmente marcante – um sistema totalmente inovador, introduzido no novo BMW iX3, composto por quatro elementos principais: o BMW Panoramic Vision, o BMW 3D HeadUp Display opcional, o novo ecrã central e um volante multifunções redesenhado, tudo baseado no novo BMW Operating System 10. A Critical TechWorks esteve envolvida no desenvolvimento de módulos de software para o sistema operativo, contribuiu para a arquitetura das aplicações “in vehicle” e trabalhou na implementação de aplicações como Spotify, Amazon Music, Netflix e YouTube.
Por fim, e igualmente importante, trabalhamos de forma integrada no BMW ConnectedDrive e no BMW Digital Premium / Connected Package — um sistema “cloud based” que liga o veículo ao ambiente digital, garantindo acesso contínuo aos serviços disponíveis e mantendo o sistema permanentemente atualizado com as últimas versões de aplicações, segurança e sustentabilidade.

Como evoluiu o papel do software automóvel nos últimos anos e o que podemos esperar no futuro próximo?
Christine Marconcin: Nos últimos anos, testemunhámos uma profunda mudança de paradigma no desenvolvimento automóvel, assente numa filosofia de engenharia totalmente reestruturada. Antes, os carros eram construídos com um modelo “hardware first”, onde o software era uma das etapas finais. Agora assistimos a uma inversão total, com o software a assumir o papel central desde o início e a moldar todo o desenvolvimento.
Já não podemos falar de Software Defined Vehicles como uma tendência — são hoje uma realidade em toda a cadeia de valor. Já não compramos um carro e esperamos que se mantenha o mesmo conjunto de funcionalidades e aplicações durante 10 ou 20 anos.
A diferença dos veículos digitais é que os sistemas são permanentemente atualizados, permitindo novas funcionalidades e a evolução natural da experiência de condução, tal como acontece com smartphones, computadores e outros dispositivos conectados. Isto está alinhado com os comunicados recentes do BMW Group, em que indicam que a próxima geração de veículos (Neue Klasse) terá uma arquitetura composta por quatro “Super Brains” — a introdução de grandes blocos funcionais de computação que preparam os veículos para futuras atualizações e integrações de IA.

A IA estará ainda mais presente nos nossos produtos digitais e também no próprio processo de desenvolvimento. Estamos perante uma revolução que mudará e influenciará a forma como trabalhamos, interagimos e inovamos.
O software tem hoje um impacto crescente na sustentabilidade e eficiência energética, na gestão inteligente da mobilidade e na integração dos veículos em ecossistemas digitais mais amplos. Iremos assistir a uma maior consolidação dos SoftwareDefined Vehicles, com integração mais profunda dos ecossistemas digitais nas arquiteturas dos veículos, novas metodologias de engenharia software e AIfirst, e uma maior implementação de aplicações e funcionalidades digitais na experiência de condução.
Quais são os maiores desafios no desenvolvimento de software para veículos, comparativamente a outras áreas tecnológicas?
Christine Marconcin: O desenvolvimento de software automóvel traz uma responsabilidade acrescida. A segurança é absolutamente inegociável. Ao contrário de uma aplicação típica, onde um bug é apenas incómodo, o software automóvel tem requisitos muito mais elevados, com normas como a ISO26262 ou ASPICE. A implementação destes requisitos traduz-se em muito esforço no processo de desenvolvimento.
Um exemplo concreto: imagine que uma pessoa sofre um evento cardíaco enquanto conduz. O sistema tem de detetar a situação, assumir o controlo do veículo e levá-lo para um local seguro. Não há margem de erro.
Isto significa que sistemas como travagem automática, assistência na faixa ou alertas de fadiga têm de funcionar 100% das vezes. O BMW iX3, por exemplo, inclui o BMW Emergency Assist, que deteta inatividade prolongada do condutor e, caso não exista resposta, abranda automaticamente o veículo, encosta em segurança e contacta de imediato os serviços de emergência.

Enquanto a maioria do software resolve um problema de cada vez, um carro tem de gerir dezenas de funções críticas em simultâneo: navegação em tempo real, monitorização dos sinais vitais do condutor, gestão da bateria, filtragem de notificações, climatização, infotainment, Assistente Pessoal com comando por voz — tudo isto sem comprometer desempenho ou segurança.
O software automóvel exige atualizações over the air que nunca podem falhar a meio do processo e têm de permanecer compatíveis com hardware que pode durar 10 a 15 anos.
Acredito firmemente que um veículo como o novo iX3 é o produto mais complexo que um consumidor privado pode adquirir no mercado. Em sua casa, não encontrará outro produto com este nível de complexidade entre mecânica, eletrónica, software e interfaces de cloud computing como encontra num dos nossos veículos.
Em que áreas concretas a Inteligência Artificial está a ser aplicada nos veículos do grupo BMW?
Christine Marconcin: A Inteligência Artificial está presente em múltiplas dimensões do veículo — desde os sistemas de assistência à condução ao nosso Personal Assistant, agora desenvolvido com tecnologia Alexa+. Entre personalização digital, previsão de rotas, deteção de fadiga do condutor e otimização energética, os casos de uso de IA estendem-se por todo o veículo.
Na condução autónoma, os sistemas podem arrancar e parar automaticamente em trânsito intenso e monitorizam continuamente a atenção do condutor. O modelo PPP (Perception, Prediction, Planning) ajuda a antecipar o comportamento de outros veículos e a planear trajetórias mais seguras.
Nos modelos elétricos, como o iX3, a gestão energética e o estado da bateria são monitorizados continuamente com recurso a IA. Os veículos aprendem com o condutor, ajustam funcionalidades e evoluem de forma contínua — garantindo viagens cada vez mais seguras, eficientes e confortáveis.
As vossas soluções de software baseado em IA estão também já a ser empregues também em fábricas do Grupo BMW? Para fazer o quê exatamente?
Benedikt Nuspl: As nossas soluções não se limitam aos produtos a bordo dos veículos, também desempenham um papel importante nas linhas de produção do BMW Group e noutros processos core da empresa. Ajudam na tomada de decisões informadas, antecipam problemas operacionais e tornam os processos industriais mais eficientes e flexíveis.
Um exemplo é o projeto BMW Group Virtual Factory, no qual o nosso trabalho contribui para escalar digital twins por mais de 30 fábricas.

Quando um novo veículo é desenvolvido, as respetivas linhas de produção têm de ser redesenhadas, um processo que, anteriormente, era manual e longo.
A nossa solução integra as plataformas de dados industriais da BMW com o NVIDIA Omniverse, permitindo colaboração imersiva e em tempo real em 3D. A BMW confirma que as simulações agora demoram apenas alguns dias, em vez de várias semanas, reduzindo os custos de planeamento da produção em cerca de 30%.
Em que novos desenvolvimentos estão a trabalhar em termos de processos industriais e das fábricas da BMW?
Benedikt Nuspl: Estamos a trabalhar em soluções de planeamento industrial baseadas em digital twin, permitindo simulação virtual de fábricas, linhas de produção e fluxos logísticos antes de ocorrerem alterações físicas. Estas soluções reduzem custos, tempos de implementação e impactos operacionais, enquanto melhoram a tomada de decisão.
“Em 2026, planeamos reforçar a equipa com cerca de 300 novos colaboradores”
A IA preditiva também ajuda a analisar dados de vendas passadas e a planear a produção de modelos futuros, apoiando melhores decisões de negócio. Estamos igualmente a desenvolver soluções para potenciar maior autonomia de processos nas equipas da BMW e a explorar ferramentas como tradução e transcrição de vídeo.
Atualmente, a Critical TechWorks emprega quantas pessoas? Está previsto aumentarem o número de colaboradores este 2026? Se sim, quantos novos colaboradores pretendem recrutar?
Christine Marconcin: A Critical TechWorks emprega atualmente mais de 3.000 pessoas no Porto, Lisboa e Braga. Em 2026, planeamos reforçar a equipa com cerca de 300 novos colaboradores, apoiando o nosso crescimento estratégico no desenvolvimento de produtos inteligentes e ecossistemas digitais.
Que perfis profissionais são mais procurados pela Critical TechWorks atualmente?
Christine Marconcin: Procuramos profissionais altamente qualificados em arquitetura de IA, engenharia de software, ciência de dados e cibersegurança. Para além das competências técnicas, valorizamos curiosidade, criatividade e inovação, alinhadas com uma cultura ágil, colaborativa e inclusiva.





