Portugal recebeu Dimitrios Georgiopoulos, Head of Mid-Europe da Merck, numa visita que assinalou um marco importante para a empresa: os 20 anos do Laboratório Satélite desenvolvido em parceria com o iBET. Integrado na rede global de Investigação e Desenvolvimento da Merck, este laboratório é apontado por Georgiopoulos como um exemplo de como o talento científico português pode contribuir para programas internacionais de inovação.
Nesta conversa com a Forbes Portugal, Georgiopoulos partilha a visão da empresa para o futuro da investigação biomédica e deixa uma mensagem clara: o investimento em ciência exige visão de longo prazo e colaboração sustentada.
Esta é a sua primeira visita a Portugal, depois de assumir a responsabilidade de liderar 27 mercados na Europa. Como avaliaria o ecossistema científico e de inovação português?
Embora esta seja a minha primeira visita neste novo cargo, Portugal não é novidade para mim e tenho de dizer que este país nunca deixa de me impressionar.
Portugal construiu um ecossistema científico e de inovação altamente credível e cada vez mais competitivo. O país combina talento brilhante, universidades e instituições de investigação internacionalmente reconhecidas e uma verdadeira capacidade de ligar a excelência académica à colaboração com a indústria. Isso não é algo que se possa fabricar rapidamente, requer anos de investimento consistente nas pessoas e nas instituições.
Para a Merck, esta é uma realidade que conhecemos bem. Estamos presentes em Portugal há mais de 90 anos, e as capacidades científicas do país cresceram significativamente ao longo desse tempo. Portugal contribui para diferentes fases da nossa inovação em saúde, desde a investigação inicial até à participação em ensaios clínicos internacionais.
Um exemplo muito concreto deste potencial é a nossa parceria de longa data com o iBET – Instituto de Biologia Experimental e Tecnológica, uma colaboração que dura há mais de 30 anos e que levou à criação do Laboratório Satélite Merck, que celebra agora o seu 20.º aniversário. Uma estrutura que conta com 13 investigadores a contribuir diretamente para os nossos programas globais de descoberta de medicamentos, vemos o país como um parceiro científico de confiança, com um papel significativo a desempenhar na inovação global na saúde.
“Portugal construiu um ecossistema científico e de inovação altamente credível e cada vez mais competitivo”
Como mencionou, este ano assinalam-se duas décadas de reforço da colaboração com o iBET através da criação de um Laboratório Satélite sediado em Portugal e integrado na estrutura global de I&D da Merck. O que permite a uma equipa de 13 investigadores em Portugal desempenhar um papel significativo nos esforços globais de investigação da companhia?
O impacto de uma equipa de investigação não é definido pelo seu tamanho, mas pela profundidade da sua especialização e pela eficiência da sua ligação à organização científica mais ampla.
O Laboratório Satélite da Merck no iBET é um forte exemplo disso. Os seus investigadores contribuem para múltiplas fases da descoberta inicial de fármacos, desde a avaliação de alvos terapêuticos até à otimização de moléculas candidatas. Estão a apoiar os programas da Merck Healthcare em oncologia e imunologia, tanto em abordagens de pequenas moléculas como em anticorpos.

O que torna esta equipa particularmente eficaz não é apenas a sua experiência técnica, mas o facto de estarem genuinamente integrados na nossa estrutura global de Investigação e Desenvolvimento (I&D). Ao longo de duas décadas, a continuidade desta colaboração construiu um nível de confiança, cultura científica partilhada e alinhamento operacional que faz do laboratório um verdadeiro contributo para o nosso ecossistema global de investigação.
Para mim, é exatamente isto que significa uma parceria científica significativa: especialização focada, compromisso a longo prazo e capacidade de gerar investigação com real relevância global.
“Os investigadores do Laboratório Satélite da Merck no iBET contribuem para múltiplas fases da descoberta inicial de fármacos”
Que tipo de investigação a Merck está atualmente a realizar em Portugal?
Através da nossa parceria com o iBET, a investigação em Portugal foca-se principalmente em oncologia e imunologia, e faz parte dos nossos programas globais de I&D.
Na prática, a equipa contribui para várias fases da investigação pré-clínica, avaliação de alvos terapêuticos, desenvolvimento de ensaios, descoberta de moléculas e otimização de candidatos. Isto significa ajudar as nossas equipas globais de investigação a compreender melhor os seus alvos biológicos, avaliar hipóteses científicas e gerar dados de alta qualidade que apoiem a tomada de decisão precoce na descoberta de medicamentos.
O trabalho abrange tanto abordagens baseadas em pequenas moléculas como em anticorpos, estando ligado a programas internacionais em vez de fica isolado. Essa integração é o que o torna genuinamente valioso.
Em última análise, o objetivo desta investigação é contribuir para a descoberta de futuras soluções terapêuticas que respondam a grandes necessidades médicas sem resposta. É um trabalho numa fase inicial, mas é uma parte essencial do percurso mais amplo da inovação, e Portugal está a desempenhar um papel significativo nessa jornada.

Durante muitos anos, a inovação farmacêutica foi amplamente vista como algo que acontecia dentro dos muros das grandes empresas. A parceria com a iBET é um claro exemplo de inovação aberta. Acredita que este modelo colaborativo se tornará cada vez mais importante no desenvolvimento de novos medicamentos?
Sim, absolutamente. Inovação aberta significa a capacidade de reunir conhecimentos, tecnologias e perspetivas além das fronteiras organizacionais, entre indústria, instituições académicas e organizações especializadas de investigação.
Isto é cada vez mais relevante porque a descoberta de fármacos tornou-se mais complexa, mais interdisciplinar e mais dependente de uma capacidade altamente especializada. Nenhuma organização, por mais forte que seja, consegue ter todo o conhecimento e capacidades necessários para enfrentar sozinha todos os desafios científicos.
O que torna o modelo Merck–iBET particularmente valioso é que evoluiu muito para além de uma colaboração externa tradicional. O Laboratório Satélite está totalmente integrado na nossa organização global de I&D, não é uma relação com fornecedores, é uma integração científica genuína. É aí que a inovação aberta se torna mais significativa: quando não é transacional, mas baseada em ambição e confiança partilhadas.
Esta parceria demonstra como a colaboração entre a academia e a indústria pode criar valor científico duradouro. E penso que este modelo só se tornará mais importante porque a ciência que estamos a tentar desenvolver se torna mais complexa e especializada.
“O Laboratório Satélite está totalmente integrado na nossa organização global de I&D, não é uma relação com fornecedores, é uma integração científica genuína”.
As doenças raras continuam a ser uma área de necessidade médica significativa e não satisfeita. Porque é que este campo é cientificamente e medicamente relevante para a Merck, e onde vê as maiores oportunidades de progresso?
As doenças raras são uma área onde a ciência pode ter um impacto humano muito profundo. Embora cada condição possa afetar um número relativamente pequeno de pessoas, o peso para os doentes e famílias é frequentemente significativo, envolvendo diagnóstico atrasado, opções de tratamento muito limitadas e percursos de cuidados complexos.
Para nós, esta área é relevante porque se situa na interseção entre uma grande necessidade médica não satisfeita e uma ciência altamente especializada. O progresso nas doenças raras requer uma compreensão profunda, capacidades avançadas de investigação e uma colaboração forte em todo o ecossistema, desde investigadores e clínicos, até aos reguladores e comunidades de doentes.
A nossa recente expansão para doenças raras reflete a nossa ambição de levar as nossas capacidades globais para áreas onde a inovação pode realmente mudar vidas, para doentes que historicamente tiveram poucas ou nenhumas opções aprovadas. E penso que essa ambição está muito no cerne do que a Merck Healthcare representa.
Olhando para o futuro, acredito que o progresso dependerá de uma melhor compreensão da doença, de um diagnóstico mais rápido e preciso, e de vias sustentáveis que permitam que a inovação chegue aos doentes. As doenças raras lembram-nos, de forma muito clara, porque é que a inovação nos cuidados de saúde é importante.
“A nossa recente expansão para doenças raras reflete a nossa ambição de levar as nossas capacidades globais para áreas onde a inovação pode realmente mudar vidas”
A oncologia continua a ser uma área de grande necessidade científica e médica. Que avanços científicos considera que serão mais importantes para melhorar os resultados dos doentes nos próximos anos?
O cancro não é uma doença só, são muitas doenças, cada uma com diferentes fatores biológicos e diferentes trajetórias dos doentes. Esse é o desafio fundamental, e é também o que torna a oncologia um campo tão cientificamente dinâmico.
Acredito que os avanços mais importantes virão de uma melhor compreensão da biologia do cancro a nível molecular, da melhoria da nossa capacidade de identificar quais os doentes mais propensos a responder a uma determinada abordagem e do reforço da base de evidências em diferentes estágios da doença. Biomarcadores, diagnósticos avançados e dados de alta qualidade serão todos essenciais.
A colaboração é igualmente importante. A investigação em fase inicial realizada pela nossa equipa no iBET, incluindo avaliação de alvos, desenvolvimento de ensaios e otimização de moléculas, é um exemplo de como o trabalho científico fundamental contribui para este esforço mais amplo.
Em última análise, o objetivo é uma inovação que seja cientificamente robusta, clinicamente significativa e capaz de alcançar doentes que ainda enfrentam necessidades significativas por satisfazer.
“Os avanços mais importantes virão de uma melhor compreensão da biologia do cancro a nível molecular”
A medicina de precisão é frequentemente descrita como o futuro dos cuidados oncológicos. O que será necessário para tornar abordagens de tratamento mais personalizadas uma realidade para mais doentes?
A medicina de precisão já está a mudar a forma como pensamos sobre os cuidados oncológicos, mas chegar lá para mais doentes exigirá progresso em vários aspetos simultaneamente.
Do ponto de vista científico, começa com uma compreensão mais profunda dos fatores moleculares da doença e a capacidade de adaptar a abordagem certa, ao doente certo, no momento certo. E reforço: os biomarcadores, os diagnósticos avançados e dados de alta qualidade serão todos fundamentais.
Mas a ciência sozinha não chega. Os sistemas de saúde também precisam da infraestrutura certa: acesso a testes moleculares, vias clínicas claras e fortes capacidades de dados. Sem estes facilitadores, a inovação corre o risco de estar disponível apenas em centros especializados em vez de chegar aos doentes em cuidados regulares, o que seria uma oportunidade realmente perdida.
“Os sistemas de saúde também precisam da infraestrutura certa: acesso a testes moleculares, vias clínicas claras e fortes capacidades de dados”.

Pensando na região europeia e em Portugal, quais vê como as principais oportunidades para atrair maior investimento em I&D relacionada com a saúde?
O investimento em I&D em saúde acompanha a qualidade científica, o forte talento e a capacidade de ligar capacidades locais às prioridades globais de investigação. Os países e regiões que oferecem os três são os que atraem um compromisso sustentado e a longo prazo.
Portugal tem muitos destes ingredientes. A parceria Merck–iBET envia um sinal claro a outros investidores: Portugal pode oferecer um ambiente científico estável e de alta qualidade, com uma comprovada capacidade de gerar valor ao longo do tempo.
No futuro, acredito que a oportunidade reside em aprofundar a especialização científica, continuar a investir em talento e reforçar a participação em redes internacionais de investigação. Estas são as bases que tornam o investimento em I&D sustentável.
“Portugal pode oferecer um ambiente científico estável e de alta qualidade”
Se pudesse recomendar uma medida aos decisores políticos para acelerar a atração do investimento científico, qual seria?
Se pudesse destacar uma prioridade, seria esta: criar as condições para uma colaboração estruturada e a longo prazo entre a academia e a indústria que permita avanços científicos que, em última análise, cheguem aos doentes e melhorem os seus resultados. Não financiamento de projetos a curto prazo, mas apoio sustentado ao tipo de parcerias integradas que permitem o desenvolvimento do conhecimento científico, das capacidades e da confiança ao longo do tempo.
Isto importa porque os ecossistemas científicos mais valiosos não se constroem da noite para o dia. Além disso, há que permitir que a inovação científica beneficie a sociedade, pois esta é a única forma de atrair mais financiamento e criar mais parcerias local-global.
Para os decisores políticos, focar-me-ia, portanto, em três coisas: investimento sustentado em talento científico e instituições de investigação; diretivas que facilitem a colaboração da indústria e da academia além-fronteiras; e uma visão a longo prazo para a especialização científica que permita a países e regiões construir capacidades distintas e reconhecidas internacionalmente e, em última análise, melhorar os resultados para os doentes
A Europa tem fundações. Portugal demonstrou que faz parte deste ecossistema. A oportunidade agora é construir sobre isso com a ambição e continuidade que a ciência merece, contando sempre com a Merck.





