Opinião

Portugal como living lab: arquitetar crescimento com qualidade e impacto positivo no território e nas pessoas

Roberto Antunes

Ser um país atrativo não é suficiente. A verdadeira questão é que tipo de crescimento escolhemos promover e com que impacto no território, nas pessoas e na economia. Assumir Portugal como um living lab, conceito muito em voga quando se fala em inovação, implica uma decisão coletiva: crescer com qualidade, experimentar com responsabilidade e colocar o talento no centro do modelo de desenvolvimento.

Um living lab não é um conceito abstrato: traduz-se no alinhamento entre políticas públicas e estratégias empresariais, em ciclos rápidos de aprendizagem e numa forma prática de governar que mede, publica resultados, regula com base em evidência e melhora continuamente. No atual contexto global, marcado pela competição por talento, investimento e relevância, os países mais bem-sucedidos são aqueles que funcionam como ecossistemas vivos de inovação. Ou seja, são territórios onde políticas públicas, empresas, universidades, startups e cidadãos colaboram para testar soluções em contexto real, aprender rapidamente e progredir.

Portugal reúne condições únicas para assumir esse posicionamento. A sua dimensão, a proximidade entre decisores e a capacidade de articulação público-privada criam um terreno fértil para a experimentação. Mas essa vantagem só se concretiza com intencionalidade. Crescer sem visão estratégica gera pressão sobre infraestruturas, perda de identidade e desequilíbrios sociais. Crescer com arquitetura implica usar dados, tecnologia e conhecimento para tomar melhores decisões e gerar valor sustentável.

Nesse sentido, o turismo assume um papel particularmente relevante. Mais do que um setor económico, é um sistema complexo onde convergem pessoas, fluxos, dados, cultura e território, talvez o maior laboratório vivo do país. É no turismo que tecnologias como a Inteligência Artificial (IA), a Internet das Coisas (IoT) ou a análise avançada de dados podem ser testadas em escala real, com impacto imediato na experiência e na eficiência. Falamos, por exemplo, de IA aplicada ao atendimento ao cliente e ao revenue management, de sensores e soluções de IoT para a gestão inteligente de fluxos, ou de modelos avançados de análise de dados que permitem antecipar a procura e reduzir a pressão sobre determinados destinos, melhorando a experiência de quem visita e de quem vive nos territórios.

O turismo pode, e deve, ir mais longe no impacto no mercado de trabalho. Pode ser um poderoso motor de atração de talento, criatividade e investimento qualificado. Ao criar procura por novos perfis profissionais tecnológicos, analíticos, criativos e multidisciplinares, contribui para que os profissionais passem a olhar para Portugal como um destino onde é possível construir carreira, experimentar e ter impacto. O turismo pode ser um catalisador de ecossistemas de inovação que cruzam áreas como mobilidade, energia, cultura, saúde ou cidades inteligentes, e um instrumento de diplomacia cultural capaz de posicionar Portugal como destino de conhecimento e futuro.

Atrair talento, hoje, depende cada vez menos de incentivos económicos isolados e cada vez mais da qualidade do ecossistema, de contextos onde seja possível experimentar, aprender, colaborar e progredir,Portugal já dá alguns sinais positivos neste caminho, com projetos de mobilidade inteligente em destinos urbanos, produtos de natureza low-impact (baixo impacto ambiental, social e territorial) e high-value (elevado valor económico, cultural e simbólico por visitante) e uma programação cultural mais qualificada, que enriquece a experiência e contribui para prolongar a estadia. O desafio agora é ganhar escala, consistência e continuidade.

Arquitetar crescimento com qualidade implica olhar para além dos resultados quantitativos e avaliar o impacto no território, nas pessoas e na economia. Neste enquadramento, Portugal tem a oportunidade de afirmar-se como um living lab de referência à escala europeia, onde o futuro é testado em contexto real, com responsabilidade e visão de longo prazo.

Roberto Antunes,
diretor executivo do NEST – Centro de Inovação do Turismo

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