O negócio do desporto feminino continua a crescer rapidamente, mas as receitas provenientes dos direitos de transmissão permanecem muito inferiores às das principais ligas masculinas, limitando os salários pagos às atletas. E pelo terceiro ano consecutivo, nenhuma mulher integra a lista dos 50 atletas mais bem pagos do mundo.
A Forbes refere que poucos investimentos tiveram uma valorização tão expressiva nos últimos anos como as equipas de desporto feminino. Cinco anos depois de Mark Davis, proprietário dos Las Vegas Raiders, ter comprado as Las Vegas Aces por 2 milhões de dólares (1,7 milhões de euros), as atuais campeãs da WNBA (Women’s National Basketball Association) estão avaliadas em 420 milhões de dólares (361 milhões de euros), com todas as equipas da liga a valerem pelo menos 250 milhões de dólares (215 milhões de euros).
Ao mesmo tempo, as equipas da NWSL (National Women’s Soccer League) valem agora, em média, 200 milhões de dólares (172 milhões de euros), apenas quatro anos depois de a avaliação de 35 milhões de dólares (30 milhões de euros) atribuída à compra do Washington Spirit pela empresária Michele Kang ter sido considerada excessiva.
Esses avanços começam gradualmente a refletir-se dentro das competições. A WNBA, por exemplo, mais do que quadruplicou o teto salarial esta temporada, passando de 1,5 milhões de dólares (1,3 milhões de euros) em 2025 para 7 milhões de dólares (6 milhões de euros), ao abrigo do novo acordo coletivo de trabalho da liga.
Ainda assim, continua a existir uma diferença significativa entre as atletas femininas com maiores receitas e os seus equivalentes masculinos.
Apesar da valorização dos investimentos feitos em equipas de desporto femininas, continua a existir uma diferença significativa entre as atletas femininas com maiores receitas e os seus equivalentes masculinos.
Pelo terceiro ano consecutivo, nenhuma mulher integra a lista dos 50 atletas mais bem pagos do mundo. O último lugar do ranking deste ano pertence ao tenista italiano Jannik Sinner, com receitas de 54,6 milhões de dólares (47 milhões de euros) nos últimos 12 meses.
Em contraste, a tenista Coco Gauff liderou a mais recente lista da Forbes das atletas femininas mais bem pagas do mundo, com receitas estimadas de 33 milhões de dólares (28 milhões de euros) em 2025. Desse total, 8 milhões de dólares (6,9 milhões de euros) resultaram de prémios competitivos e 25 milhões de dólares (21,5 milhões de euros) vieram de patrocínios, aparições públicas, exibições e outros negócios fora dos courts.
A última mulher a entrar na lista geral dos 50 atletas mais bem pagos foi Serena Williams. A tenista norte-americana arrecadou 45,3 milhões de dólares (39 milhões de euros) na lista de 2023, valor proveniente quase exclusivamente de contratos comerciais numa fase já próxima da reforma.
Desde 2012, apenas outras três mulheres conseguiram integrar a lista: Maria Sharapova, Li Na e Naomi Osaka, todas ligadas ao ténis. Osaka continua a deter o recorde de receitas para uma atleta feminina, com 60 milhões de dólares (52 milhões de euros) em 2021.
Depois de interromper a carreira devido a questões de saúde mental e ao nascimento da filha em 2023, Naomi Osaka arrecadou cerca de 12,5 milhões de dólares (10,8 milhões de euros) no último ano, empatando no oitavo lugar entre as atletas femininas mais bem pagas.
O ténis tem estado historicamente na linha da frente da igualdade salarial no desporto. Desde 2007, quando Wimbledon passou também a atribuir prémios iguais a homens e mulheres, os quatro torneios do Grand Slam distribuem o mesmo prize money, embora persistam diferenças em competições de menor dimensão.
Não surpreende, por isso, que o ténis represente metade das 20 atletas femininas mais bem pagas do último ano. Ainda assim, entre os 50 atletas mais bem pagos do mundo existem apenas dois tenistas masculinos: Jannik Sinner e Carlos Alcaraz.
O ténis tem estado historicamente na linha da frente no sentido de uma maior igualdade salarial no desporto. Nos desportos coletivos, as coisas são muito piores…
A diferença salarial torna-se ainda mais evidente nos desportos coletivos.
LeBron James, o jogador mais bem pago da NBA (National Basketball Association) este ano, arrecadou 137,8 milhões de dólares (119 milhões de euros) nos últimos 12 meses entre salário e negócios fora do campo. O valor corresponde a mais de 11 vezes os 12,1 milhões de dólares (10,4 milhões de euros) arrecadados por Caitlin Clark, a basquetebolista mais bem paga do mundo em 2025.
A diferença torna-se ainda mais expressiva quando comparados apenas os salários. Caitlin Clark recebeu cerca de 78 mil dólares (67 mil euros) na época passada e 529 mil dólares (455 mil euros) este ano, enquanto LeBron James encaixou 52,6 milhões de dólares (45 milhões de euros) na temporada 2025-26.
No futebol, os 235 milhões de dólares (202 milhões de euros) recebidos por Cristiano Ronaldo em salários e prémios na liga saudita, elevando os seus ganhos totais para 300 milhões de dólares (258 milhões de euros), não têm paralelo no desporto feminino.
A renovação contratual de Trinity Rodman com o Washington Spirit, assinada em janeiro, rende-lhe cerca de 2 milhões de dólares (1,7 milhões de euros) por ano, segundo informações divulgadas nos Estados Unidos. O acordo obrigou inclusivamente a uma alteração regulamentar na NWSL para poder ser concretizado.
Grande parte da diferença salarial entre homens e mulheres resulta das receitas geradas por cada liga.
A WNBA deverá arrecadar uma média anual de 281 milhões de dólares (242 milhões de euros) através dos seus contratos de direitos televisivos ao longo de 11 anos, um salto significativo face aos anteriores 43 milhões de dólares (37 milhões de euros) anuais.
Segundo estimativas da Forbes, cada equipa da liga gerou, em média, 33 milhões de dólares (28 milhões de euros) de receitas na última temporada, mais 76% do que no ano anterior.
Graças a esse crescimento e ao novo acordo coletivo assinado em março, que garante às jogadoras cerca de 20% das receitas brutas da liga, os salários máximos passaram de cerca de 249 mil dólares (214 mil euros) para 1,4 milhões de dólares (1,2 milhões de euros).
Ainda assim, a NBA opera numa dimensão financeira muito diferente.
A liga masculina gera quase 7 mil milhões de dólares (6 mil milhões de euros) por ano em direitos televisivos, enquanto as equipas registam receitas médias de 417 milhões de dólares (359 milhões de euros). O acordo coletivo da NBA garante ainda aos jogadores cerca de 50% das receitas relacionadas com o basquetebol.
Esta temporada, os salários máximos na NBA começaram nos 54 milhões de dólares (46 milhões de euros) e chegaram aos 59,6 milhões de dólares (51 milhões de euros) recebidos por Stephen Curry.
Vinte dos 50 atletas mais bem pagos do mundo pertencem à NBA, que é, de longe, a liga mais representada no ranking. Mesmo o salário mínimo de um rookie em regime full-time, de 1,3 milhões de dólares (1,1 milhões de euros), aproxima-se já dos novos contratos máximos da WNBA.
A NWSL encontra-se, segundo analistas, um ciclo atrás da WNBA em matéria de direitos televisivos. A liga feminina de futebol gera cerca de 60 milhões de dólares (52 milhões de euros) anuais através do contrato televisivo assinado em 2023.
As equipas distribuem um teto salarial de 3,5 milhões de dólares (3 milhões de euros) por plantéis compostos por 22 a 26 jogadoras.
Ainda assim, a liga introduziu em dezembro uma exceção que permite às equipas ultrapassar o teto salarial em até 1 milhão de dólares (860 mil euros) para manter “jogadoras de elevado impacto”. A medida ficou informalmente conhecida como “Regra Rodman”, numa referência a Trinity Rodman.
No que diz respeito à entrada no ranking da Forbes, esse milhão adicional pode não ser suficiente para alterar significativamente o panorama, sobretudo porque os rendimentos dos atletas masculinos continuam também a crescer.
Apesar de tudo, há razões para acreditar que os ganhos das atletas femininas continuarão a acelerar. E fora da competição, a diferença entre homens e mulheres está também a diminuir mais rapidamente.
Ainda assim, existem razões para acreditar que os ganhos das atletas femininas continuarão a acelerar. A Deloitte prevê que o desporto feminino de elite ultrapasse pela primeira vez os 3 mil milhões de dólares (2,6 mil milhões de euros) de receitas este ano, um crescimento de 25% face aos 2,4 mil milhões de dólares (2,1 mil milhões de euros) de 2025 e de 340% face a 2022, quando o setor gerava menos de 700 milhões de dólares (602 milhões de euros).
As receitas de transmissão televisiva deverão crescer 38% em termos anuais, atingindo 765 milhões de dólares (658 milhões de euros) em 2026.
Fora da competição, a diferença entre homens e mulheres está também a diminuir mais rapidamente.
Segundo estimativas da Forbes, quatro jogadoras da WNBA, Caitlin Clark, Sabrina Ionescu, Paige Bueckers e Angel Reese, geram pelo menos 9 milhões de dólares (7,7 milhões de euros) anuais fora dos campos, valores comparáveis aos de vários jogadores da NBA presentes na lista dos atletas mais bem pagos do mundo.
Todas elas estão ainda numa fase inicial das respetivas carreiras. Coco Gauff, considerada atualmente a atleta feminina mais comercializável do mundo e já vencedora de dois torneios do Grand Slam, tem apenas 22 anos.
No total, 17 das 20 atletas femininas mais bem pagas do último ano ainda têm menos de 30 anos, enquanto os dez atletas masculinos mais bem pagos têm todos mais de 30 anos, incluindo três com mais de 40.
Construir uma marca global exige tempo. Se Caitlin Clark e Paige Bueckers se tornarem os rostos da WNBA nas próximas décadas, da mesma forma que LeBron James e Stephen Curry marcaram uma geração da NBA, o crescimento do valor comercial das duas atletas poderá eventualmente levá-las à lista dos 50 atletas mais bem pagos do mundo.
A Forbes admite também que Coco Gauff ou a tenista chinesa Qinwen Zheng, que possui igualmente um conjunto relevante de contratos publicitários, possam terminar esse jejum.
Independentemente disso, a expectativa é que as ligas de desporto feminino continuem a gerar ganhos financeiros significativos nos próximos anos.
Texto original aqui. Artigo traduzido e editado por Paulo Marmé.





