2025 foi um ano recorde para a Polestar em Portugal, com um crescimento na ordem dos 60%. Para 2026 apontam para um crescimento de cerca de 20%. Em que assenta essa expectativa?
Miguel Pinto: Começámos a operação em Portugal em maio de 2022 e temos vindo a crescer todos os anos. Em 2022 e 2023 éramos uma marca de um só automóvel, o Polestar 2. Só em 2024 é que começámos a entregar outros modelos, com a chegada do Polestar 3 e do Polestar 4. O Polestar 3 foi lançado em outubro de 2022, mas teve algum atraso nas entregas a cliente final, enquanto o Polestar 4 chegou no início de 2024.

Isso permitiu-nos, em 2024, não só crescer como começar a equilibrar a gama e deixar de estar dependentes de um único produto. O Polestar 4 tornou-se rapidamente o nosso best-seller, representando cerca de 70% das nossas entregas. O crescimento que tivemos de 2024 para 2025, na ordem dos 60% a 70%, deveu-se muito à chegada desse modelo, mas também a uma transformação importante no nosso modelo de negócio, que começou a ser implementada no final de 2024 e teve impacto ao longo de 2025.
“Temos bases sólidas para crescer mais cerca de 20% neste 2026”
Com um ano completo desse novo modelo de negócio e com três pontos de venda a funcionar em pleno, entendemos que temos bases sólidas para crescer mais cerca de 20% neste 2026. É um crescimento exigente, mas sustentado e os resultados do primeiro trimestre assim o demonstram. Estamos a crescer 24% naquele que foi o nosso melhor primeiro trimestre de sempre.
Que modelo de negócio é o da Polestar?
Mantemo-nos fiéis ao nosso modelo phygital que combina o online e a presença física. Os clientes podem comprar os nossos automóveis totalmente online, a partir de casa, mas também temos espaços físicos.
A grande mudança aconteceu na componente física. Até 2024, o nosso modelo era bastante disruptivo: nos Polestar Spaces, os colaboradores eram product specialists, explicavam o produto, mas não tinham uma função comercial ativa. Esperava-se que o cliente, depois da visita, fosse para casa e decidisse autonomamente.
“É a Polestar que vende diretamente ao cliente final, não o concessionário”.
Na prática, isso nem sempre funcionava. Muitas vezes o cliente saía de um Polestar Space e era imediatamente abordado por um comercial de outra marca e acabava por fazer um test-drive ou avançar com outra proposta para a concorrência. Percebemos isso e ajustámos o modelo.
Passámos para um modelo de agência, que permite e requer uma presença comercial ativa dos parceiros. Hoje, somos mais próximos do modelo tradicional no retalho, no sentido em que somos comercialmente mais proativos, mas mantemos uma diferença estrutural: é a Polestar que vende diretamente ao cliente final, não o concessionário.

Que vantagens traz esse modelo?
A principal vantagem é a transparência e consistência de preço. O cliente sabe que está a receber a melhor proposta possível, porque é sempre a mesma, independentemente de comprar em Lisboa, Porto ou Faro.
Ao contrário do modelo tradicional, em que a marca vende ao concessionário e este ao cliente, nós vendemos diretamente. Isso garante que somos nós que controlamos o nível de desconto e a proposta comercial.
“Os clientes sabem que estão a lidar diretamente com a marca, o que reforça a confiança no processo”.
Dá uma segurança muito grande ao cliente, porque sabe que não precisa de “andar à procura” de melhor preço noutra cidade ou noutro concessionário. A experiência torna-se mais simples, mais transparente e mais consistente.
A rede também cresceu. Que impacto teve?
Em 2025 passámos a ter três pontos de venda: Porto, Lisboa e Faro. Em Portugal, na indústria automóvel Lisboa representa cerca de 40% das vendas, o Porto cerca de 30% e o Algarve tem um peso menor, mas com potencial, sobretudo para modelos mais premium como o Polestar 3 e o Polestar 5.
O Algarve tem características interessantes, com procura por veículos de segmentos mais elevados, mas ainda está numa fase inicial.

Em Portugal, o canal empresarial domina. Como se posiciona a Polestar?
Nós também temos uma forte presença no canal empresarial, cerca de 85% das nossas vendas são para empresas. Isso está muito ligado aos incentivos fiscais existentes, como a dedução de 23% do IVA até 76.800 euros [62.500€ + 23% IVA. n.d.r.], que favorece modelos como o Polestar 2 e o Polestar 4.
Dentro desse canal, há duas realidades. Por um lado, pequenas empresas, onde o decisor escolhe diretamente o automóvel, muitas vezes por afinidade com a marca. Por outro, grandes contas, onde existem grelhas de frota e entram os chamados user-choosers, os condutores que podem escolher o veículo dentro de determinadas opções.
“Também temos uma forte presença no canal empresarial, cerca de 85% das nossas vendas são para empresas”.
Temos uma equipa dedicada a frotas que trabalha essas relações de forma contínua, quase como um trabalho de longo prazo, criando presença e confiança. E beneficiamos de um brand awareness elevado em Portugal, o que nos permite já entrar nessas listas de escolha.
Como competem com marcas já muito estabelecidas nesse segmento?
Diferenciamo-nos pelo compromisso com a sustentabilidade, que não alterámos apesar das mudanças recentes no discurso político sobre a mobilidade elétrica. É um compromisso estrutural, não conjuntural.

Depois há o design, a performance e a qualidade de construção. E também a experiência de cliente. O nosso modelo permite uma abordagem comercial menos agressiva, menos “pushy”, e isso é valorizado.
Há também um fator importante: os clientes sabem que estão a lidar diretamente com a marca, o que reforça a confiança no processo.
Há também uma forte componente tecnológica associada à marca, tendo sido apelidada de “iPhone dos automóveis”.
Sim. Fomos pioneiros na integração com a Google, com o Polestar 2 a ser o primeiro automóvel do mundo com sistema nativo Google.
Hoje continuamos a evoluir nessa área, com novas integrações, incluindo serviços como Google Maps e novas gerações de software.

A tecnologia é um pilar cada vez mais importante e foi, numa fase inicial, determinante para captar os chamados early adopters. Hoje já estamos a alargar esse espectro, mas continuamos a ter uma forte componente tecnológica na proposta de valor.
Que novos modelos vão chegar ao mercado?
Em 2026 temos a chegada do Polestar 5, um grande turismo que representa bem os três pilares da marca: sustentabilidade, design e performance. Chega no verão e já temos encomendas.
Será um modelo de nicho, porque não encaixa nos limites fiscais mais favoráveis, o que dificulta a sua massificação em Portugal, mas há interesse e curiosidade, nomeadamente para test-drives.
“Em 2026 temos a chegada do Polestar 5. Vamos também lançar uma nova versão do Polestar 4”.
Vamos também lançar uma nova versão do Polestar 4, mais versátil. Ainda não podemos revelar muitos detalhes, mas será um modelo de volume e uma aposta importante para continuar a crescer.
E olhando mais à frente, o que esperar da gama?
Em 2027 teremos um novo Polestar 2, totalmente renovado. É um modelo com um valor simbólico importante para nós, foi o primeiro elétrico “puro” da marca e aquele com que entrámos em vários mercados.
O novo Polestar 2 será tecnologicamente muito mais avançado, e passará a ser uma verdadeira base de entrada, permitindo-nos chegar a mais clientes.
“Em 2028 chega o Polestar 7, um SUV do segmento C, que é o segmento que mais cresce em todo o mundo”.
Em 2028 chega o Polestar 7, um SUV do segmento C, que é o segmento que mais cresce em todo o mundo. Será produzido na Europa, o que é relevante do ponto de vista geopolítico e de custos.
Com esta expansão da gama, passaremos de uma cobertura de cerca de 25% do mercado para mais de 50%, o que muda completamente a escala da marca.
O Polestar 4 tem tido um desempenho forte. Há margem para crescer mais?
Sim. O Polestar 4 atingiu cerca de 9% de quota no seu segmento de SUV premium elétricos, o que é um resultado muito relevante para uma marca como a nossa.

Estamos a trabalhar o posicionamento comercial, com campanhas que colocam o preço de entrada em 50.900 euros, mantendo o IVA incluído.
Queremos ganhar mais quota, mas sem comprometer o posicionamento premium. Não queremos entrar numa lógica de desvalorização abrupta do produto.
Como veem a concorrência dentro dos elétricos?
Curiosamente, não vemos os outros fabricantes de elétricos como principais concorrentes. Todos contribuem para o crescimento do mercado.
Os nossos verdadeiros concorrentes são os fabricantes que ainda não apostaram na eletrificação. São esses que ainda disputam o mesmo espaço de decisão com os clientes.
“Não vemos os outros fabricantes de elétricos como principais concorrentes. Todos contribuem para o crescimento do mercado”
Mas o mercado está cada vez mais competitivo, incluindo com marcas chinesas. Como respondem?
É um mercado extremamente competitivo. As marcas chinesas têm propostas muito interessantes em termos de qualidade e preço.
Nós beneficiamos da escala do grupo Geely, que nos dá acesso a plataformas e tecnologia e nos permite reduzir custos de produção. Isso ajuda-nos a ser mais competitivos.
Mas temos também um compromisso com os nossos clientes. Não queremos movimentos bruscos de preço que possam desvalorizar os automóveis já vendidos. Queremos crescer de forma sustentada e é isso que temos vindo a fazer.
Como analisa o mercado português de elétricos?
Portugal é um mercado muito interessante. A penetração de elétricos foi de cerca de 23% no ano passado e continua a crescer, já perto dos 25% no início deste ano.
A própria geografia ajuda, é possível fazer percursos como Lisboa-Porto ou Lisboa-Algarve sem necessidade de parar para carregar, dentro das condições normais de utilização.
Vamos continuar a investir no país, reforçar a rede e melhorar continuamente o nosso modelo de negócio.
Qual é o cliente típico da Polestar?
É um cliente mais jovem do que a média do segmento premium, cerca de 45 anos, aproximadamente 10 anos abaixo dos concorrentes tradicionais.

É alguém com poder de compra, interessado em design, tecnologia e sustentabilidade. Mas não apenas ao nível do discurso. Há uma preocupação real com a origem dos materiais, com a rastreabilidade e com o impacto ambiental dos produtos.
O design é também um fator muito importante na decisão.
“O cliente Polestar é um cliente mais jovem do que a média do segmento premium”
A sustentabilidade é um pilar central para a marca. Que metas têm?
Para nós, a sustentabilidade não é um compromisso circunstancial, está “gravado na pedra”.
Temos o objetivo do Projeto Polestar 0, de criar um automóvel neutro em carbono até 2030, o que implica trabalhar toda a cadeia de valor, desde fornecedores até produção.
Acreditamos que recuar nas metas de eletrificação é um erro do ponto de vista da competitividade industrial europeia, sobretudo face ao avanço da China neste setor.
“Recuar nas metas de eletrificação é um erro do ponto de vista da competitividade industrial europeia”





