No palco do Forbes PME Power foram lançados dois desafios simples a três empresários de realidades distintas, mas unidos pela mesma ambição: crescer de forma sustentável num País onde o tempo parece acelerar mais depressa do que as próprias empresas.
Sentaram-se à mesa três realidades diferentes: o da maturidade financeira, representado por Manuel Marçal, CEO da Chanceplus; o da construção que decidiu reinventar a forma como se trata quem constrói, pela voz de Hélder Gonçalves, CEO da Bilt; e o da velocidade digital e formativa, trazido por Regina Santana, CEO da Digital Marketing Elevation. Juntos, tentaram responder às perguntas que estão a remodelar o ecossistema empresarial português: o que podem as pequenas e médias empresas aprender com as gazelas? E o que podem as gazelas absorver das PME maduras?
A resposta começou, inevitavelmente, pela origem de cada negócio. A história de Regina Santana é a de uma empresa nascida da fusão de outras, e de um problema que o mercado insistia em ignorar: a falta de formação prática e acessível para quem lidera negócios. “Precisamos de muito mais além de marketing, as PME precisam de muita formação em gestão, acompanhamento, entender estes termos todos que ouvimos falar aqui”, afirmou. Exemplo de uma “empresa gazela”, a sua organização cresceu com rapidez, adaptando-se a um mundo onde “já não temos 10 anos para constituir uma empresa e para ir melhorando, em meses as coisas têm de avançar.”

Na outra ponta do espectro, mas com a mesma precisão estratégica, Manuel Marçal apresentou uma empresa madura e previsível, quase contracorrente num país apaixonado pela velocidade. “Nunca quisemos ser a maior, mas a melhor”, esclareceu, lembrando que a Chanceplus trabalha há 19 anos sem reclamações e com colaboradores que, em alguns casos, estão desde o primeiro dia. A estabilidade, hoje rara, tornou-se vantagem competitiva.
Hélder Gonçalves entra como ponte entre estes mundos. Ele próprio trabalhou 20 anos numa empresa convencional de construção até decidir criar a empresa onde gostaria de ter trabalhado: “A Bilt foi criada com um forte foco nos colaboradores, no bem-estar, na motivação. As empresas são as pessoas que têm.” Resultado? A Bilt tornou-se rapidamente Great Place to Work, foi duas vezes Gazela e tem fornecedores que trabalham em exclusivo para a empresa, recompensa direta de uma política simples, mas rara no setor: pagamento pontual e respeito mútuo.

Pessoas: custo ou vantagem?
No contraste entre velocidade e maturidade, surge um ponto comum: o futuro das empresas é humano, não tecnológico. Regina Santana, que representa o setor mais digital e volátil, foi a primeira a assumir o desafio da rotatividade: “A resiliência hoje não pode ser só do empresário, tem que ser toda a equipe.” E quando provocada com a pergunta se formar pessoas para depois as ver partir não é um problema, Regina não hesita: “Eu prefiro ter uma pessoa que eu formo e que vai depois voar para o outro lado, mas enquanto está comigo pelo menos é uma pessoa formada.” A rotatividade deixa de ser custo e converte-se em legado.
Hélder Gonçalves concorda, mas acrescenta a necessidade de criar condições que façam as pessoas querer ficar: “As pessoas hoje não querem só salários.” A Bilt oferece desde estacionamento a fruta, desde ginásio a boa comunicação. E talvez mais importante do que benefícios, oferece dignidade: “Tratar as pessoas como sendo pessoas.” Com isso, não só retém talento, como recebe pedidos espontâneos de quem quer voltar a trabalhar com ele.
Manuel Marçal, o mais conservador dos três, surpreende ao revelar uma filosofia quase contrária ao discurso dominante: acredita em emprego para a vida. “Ainda acreditamos do emprego para a vida… a Chance Plus ainda é da velha escola.” Mas essa escola preserva algo que muitas vezes falta nas empresas em hiperescala: cultura, identidade e pertença. E, acima de tudo, propósito.

Quando se fala de intermediação de crédito, imagina-se números. Manuel Marçal devolve-nos pessoas: “Estamos a ajudar uma pessoa a poder ter a sua própria habitação… ou a poder trabalhar porque tem uma viatura.” Fora das grandes cidades, recorda, um carro não é luxo: “É a diferença entre podermos ter trabalho e não termos.”
Ao final de cada dia, diz, ganha-se dinheiro, claro, mas ganha-se, sobretudo, sentido. Uma empresa com propósito e, mais do que qualquer tecnologia emergente, é isso que resiste ao tempo.
Quem lidera quem?
O debate regressa então às lideranças. A Bilt aposta na responsabilidade: “Prefiro que tomem uma má decisão do que não tomem nenhuma decisão.” A Chanceplus aposta na lentidão estratégica, quase artesanal: “Tem que ser como um bolo que se vai juntando um ingrediente mais.” Já as gazelas, diz Regina, precisam de quem não confunda equilíbrio com tempo dividido: “Uma empresa gazela não tem momentos certos para as coisas acontecerem.” É preciso estar a 100% onde quer que se esteja, e rápido. O relógio é o maior concorrente.
Para encerrar a sessão foi pedida uma palavra-bússola para 2026. Regina Santana responde com “Inovação”, mas redefine-a: “Não precisamos andar à procura de inventar a roda… podemos fazer o que fazemos de forma mais bem feita.”
Já Hélder Gonçalves não escolhe mão-de-obra, a carência que o preocupa, mas aposta noutra direção: “Muito trabalho e crescimento.”
Por seu turno, Manuel Marçal recusa o léxico dos ciclos e dos calendários. Para ele, a palavra não muda: “É o querer muito… é o mais importante para 2025, 2026, 2027, para sempre.” Talvez seja aí que PME e gazelas convergem nem pela idade, nem pela velocidade, mas pelo ímpeto. O futuro não pertence aos maiores, nem aos mais rápidos: pertence aos que querem muito.
A Forbes Portugal promoveu a iniciativa PME Power 2025 em parceria com a Iberinform e a Câmara Municipal de Leiria e com o apoio da Cegid, Crédito Agrícola, Chanceplus, Ó Capital, RQA Construção e Yunit Consulting.





