Patrícia ensina-nos a caminhar, antes do caminho existir

Na vida existem muitas formas de chegar a um destino. Há quem chegue a esse sítio, num percurso que faz lembrar uma auto estrada: em linha reta, asfalto liso e a uma velocidade constante, na via da esquerda, com a confiança de quem já sabe o caminho por onde seguir. O percurso é limpo, previsível.…
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Empreendedora portuguesa Patrícia Martins construiu uma marca de sucesso, no mundo digital. Um percurso marcado por uma visão de negócio diferenciada
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Na vida existem muitas formas de chegar a um destino. Há quem chegue a esse sítio, num percurso que faz lembrar uma auto estrada: em linha reta, asfalto liso e a uma velocidade constante, na via da esquerda, com a confiança de quem já sabe o caminho por onde seguir. O percurso é limpo, previsível. Depois, há quem seja levado por outro tipo de caminhos, que não vêm no GPS: trilhos feitos de gravilha e curvas apertadas, que nos obrigam a travar quando queremos acelerar, e a parar em sítios que nunca planeámos parar.

Neste tipo de percurso, a estrada vai aparecendo à medida que avançamos. O progresso é feito de avanços lentos, de recuos estratégicos e de uma tolerância quase poética ao erro.

Aqui, o tempo tem outro relógio.

Caminhar, antes do caminho existir

Antes de existir o negócio próspero, já existia a visão que levou Patrícia Martins a abrir caminho num setor ainda pouco explorado, quando decidiu lançar-se no mercado. A empreendedora portuguesa, atualmente rosto da marca de calçado Canevi, avançou aos 21 anos com a criação de uma loja online, numa altura em que o digital ainda dava os primeiros passos em Portugal e acreditar nesse modelo de negócio exigia mais intuição do que garantias.

Filha de feirantes, e muito inspirada pelo avô, sempre sonhou em vender calçado,. Foi em sua homenagem que criou a ‘Canevi’, uma loja de calçado, roupa. Com sucesso nas redes sociais, os seus diretos ultrapassam meio milhão de visualizações e milhares de vendas. Mas nem sempre foi assim.

Crescer, para Patrícia, nunca foi sinónimo de estabilidade. “Durante muitos anos senti-me abandonada. Morei de casa em casa, com avós, vizinhos, outras pessoas, e nunca tive uma base”, recorda. A infância foi feita de mudanças constantes, de ausência e de uma sensação persistente de desamparo. Havia dias marcados pela rotina de ver os pais saírem de madrugada para trabalhar e pela solidão que ficava. Durante muito tempo, essa realidade transformou-se em raiva: contra o que viveu, contra quem duvidava, “contra quem lhe dizia que não iria ser nada”. Mas, com décadas de caminho percorrido, a perspetiva mudou: “hoje agradeço. Porque foi isso que me construiu”, comenta.

A vontade de ser empresária surge cedo, ainda sem forma e sem referências claras.

Um negócio que começou do zero

Quando decide começar, o contexto não podia ser mais incerto. Tinha 21 anos, o país atravessava uma crise económica e a venda de artigos online ainda era, em muitos aspetos, um território novo por explorar. Ainda assim, Patrícia acreditava “que podia fazer diferente”.

”Comecei do zero. O país estava em crise e ninguém acreditava em mim. Mas eu vi uma oportunidade”, começa por partilhar.

Patrícia conta que o pai vendia calçado na feira e, certo dia, decidiu dar o primeiro passo no projeto que a tornaria a empreendedora que é hoje: “pedi-lhe para tirar fotografias. Na altura quase não existia venda online em Portugal, e o que havia vinha do estrangeiro com prazos longos. Eu percebi que podia fazer diferente, com entrega imediata”, explica.

A jornada de empreendedorismo começou assim: sem estrutura, sem investimento, sem garantias, apenas uma vontade enorme de fazer acontecer.

A empreendedora portuguesa explica que, só com o tempo – e à medida que avançava -, é que o caminho começou a ganhar alguma forma. Até lá, cada decisão era tomada sem certezas e cada erro fazia parte inevitável do processo. “Foi tudo aprendido na prática, a errar e a ajustar.” Nesse contexto, o maior desafio nem foi tanto o ato de vender, mas sim tudo o que vinha antes disso: a confiança. Convencer pessoas a comprar online numa altura em que essa prática ainda gerava desconfiança. E, ao mesmo tempo, ultrapassar outra barreira menos visível, mas constante: a de provar credibilidade num mercado onde a idade e a falta de referências jogavam contra si.

Sem atalhos disponíveis, a diferenciação acabou por surgir de uma escolha simples, mas pouco comum na altura: a transparência. “Nunca criei uma personagem. Dei cara à marca desde o início.” Essa decisão, quase natural, acabou por se tornar estrutural. A proximidade que criou com o público – direta e sem filtros -, construiu uma relação de confiança que viria a ser uma das bases do crescimento do negócio.

O legado que Patrícia quer construir

Atualmente, o percurso já não é movido pela mesma necessidade que o começou.

Se no início havia urgência em provar valor, em ultrapassar expectativas e em contrariar o contexto, hoje existe uma mudança clara na forma como olha para o caminho que construiu.

“Antes fazia para provar aos outros, hoje faço para provar a mim mesma”, resume. A leitura do negócio também mudou: mais estruturada, mais consciente, menos impulsiva. O equilíbrio entre o instinto e a estratégia tornou-se parte central da forma como decide e como cresce.

Há uma noção mais clara do todo, uma ambição que se mantém, mas que já não vive apenas da velocidade. “Sempre trabalhei com o coração, hoje equilibro com a cabeça.” E nesse equilíbrio surge uma nova definição de sucesso: menos imediata, mais estruturada e sustentável.

No fundo, o que antes era sobrevivência transformou-se em construção. E o que antes era apenas vontade de chegar mais longe, é hoje a intenção de deixar algo que permaneça, e que não se dissipe com o tempo.

“Quero construir algo com sentido, deixar um legado e que um dia as minhas filhas tenham orgulho”, remata.

Este artigo foi produzido em parceria com a sala 13 e as fotografia são de Doriana Sousa.

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