Pai e filha apostam em reatores nucleares subterrâneos para tornar energia mais barata e segura

A norte-americana Elizabeth Muller e o seu pai, o físico Richard A. Muller, estão a desenvolver uma nova abordagem à energia nuclear através da startup Deep Fission, que propõe instalar pequenos reatores a cerca de 1,6 quilómetros de profundidade. A ideia nasceu de anos de conversas e caminhadas semanais em Berkeley, na Califórnia, e pode…
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A Deep Fission, fundada por Elizabeth Muller e pelo físico Richard A. Muller, está a desenvolver uma abordagem inovadora à energia nuclear, baseada em reatores instalados a grande profundidade, com o objetivo de reduzir custos e aumentar a segurança.
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A norte-americana Elizabeth Muller e o seu pai, o físico Richard A. Muller, estão a desenvolver uma nova abordagem à energia nuclear através da startup Deep Fission, que propõe instalar pequenos reatores a cerca de 1,6 quilómetros de profundidade. A ideia nasceu de anos de conversas e caminhadas semanais em Berkeley, na Califórnia, e pode vir a tornar-se o maior impacto comercial da carreira de Richard Muller, atualmente com 82 anos.

Com um percurso académico consolidado, Richard A. Muller destacou-se ainda jovem ao desenvolver um método moderno de datação por carbono e ao receber um prémio “genius” da MacArthur Foundation. Após quatro décadas a lecionar na Universidade da Califórnia em Berkeley, juntou-se à filha, Elizabeth Muller, de 47 anos, para lançar um projeto empresarial com ambições no setor energético.

Elizabeth Muller cresceu num ambiente marcadamente crítico da energia nuclear, mas a sua perspetiva mudou após viver em França, onde trabalhou durante oito anos em finanças internacionais. Segundo explica, no contexto francês, a energia nuclear é amplamente aceite como uma solução limpa e fiável para o aquecimento global. Foi com essa visão que regressou aos Estados Unidos e decidiu canalizar o conhecimento do pai para um projeto empresarial.

A Deep Fission propõe um modelo relativamente simples: perfurar um poço estreito, com cerca de 76 centímetros de diâmetro, até grande profundidade, enchê-lo de água e inserir um pequeno reator nuclear. O calor gerado faz ferver a água no fundo, que sobe por um tubo separado para acionar uma turbina a vapor. Cada poço poderá gerar cerca de 15 megawatts, suficientes para abastecer aproximadamente 12.000 casas. Um conjunto de 70 poços permitiria alimentar um centro de dados de inteligência artificial com capacidade de um gigawatt.

A empresa estima que o custo de produção de eletricidade possa rondar os seis cêntimos por quilowatt-hora, em parte porque esta abordagem elimina até 80% dos custos associados às centrais nucleares tradicionais, como estruturas de betão e recipientes de aço de grande espessura. Segundo Richard Muller, a pressão necessária ao funcionamento do reator é assegurada pela própria coluna de água.

Em agosto, o Departamento de Energia dos Estados Unidos incluiu a Deep Fission num programa-piloto destinado a testar uma nova geração de reatores mais pequenos e rápidos de construir. A crescente procura energética, impulsionada por centros de dados, está a acelerar o interesse por soluções alternativas dentro do setor nuclear.

A empresa prevê vender novas participações ainda este ano para financiar investigação e desenvolvimento, bem como um reator experimental avaliado em 84 milhões de dólares (72,65 milhões de euros), com o objetivo de alcançar a chamada “criticidade”, ou seja, uma reação nuclear autossustentada.

Cody Pickens para a Forbes

O primeiro poço de teste está a ser perfurado em Parsons, no estado do Kansas, numa área industrial com histórico ligado à produção de munições durante a Segunda Guerra Mundial. O sistema prevê a utilização de urânio enriquecido a 5% e um circuito fechado de água, no qual o vapor é condensado e reutilizado, limitando o consumo de recursos.

Até ao momento, a Deep Fission angariou 122 milhões de dólares (105,51 milhões de euros), tendo atingido uma avaliação de 1.000 milhões de dólares (864,82 milhões de euros). Elizabeth Muller detém 19% da empresa, Richard Muller 10% e a 8VC, do cofundador da Palantir, o bilionário Joe Lonsdale, cerca de 8%. A empresa prevê vender ações ainda este ano para ajudar a financiar a investigação e desenvolvimento, bem como um reator de teste avaliado em 84 milhões de dólares (72,65 milhões de euros).

Quando não está a dividir átomos, Liz Muller dança salsa. Foto: Cody Pickens para a Forbes

Assumindo que conseguem obter uma licença acelerada da Comissão Reguladora Nuclear, a Deep Fission espera começar a vender energia comercial em 2027, vários anos antes de outras startups de reatores apoiadas pelo Departamento de Energia dos EUA. Entre estas incluem-se a Oklo, com uma capitalização de mercado de 8,3 mil milhões de dólares (7,18 mil milhões de euros), que está a construir o seu primeiro reator no Laboratório Nacional de Idaho; a Aalo Atomics, que angariou 136 milhões de dólares (117,62 milhões de euros) e também está a desenvolver um projeto no Idaho; a Valar Atomics, com 150 milhões de dólares (129,72 milhões de euros) angariados para o seu reator no Utah; e a Kairos Power, que planeia vender eletricidade a partir do reator que está a construir em Oak Ridge, no Tennessee, para ajudar a alimentar um centro de dados da Google.

Antes deste projeto, pai e filha criaram uma organização sem fins lucrativos dedicada ao estudo das alterações climáticas. Richard Muller, anteriormente cético, concluiu que a energia nuclear é uma das soluções mais eficazes para reduzir emissões nos países desenvolvidos.

A transição para o setor empresarial surgiu após uma tentativa falhada de desenvolver projetos de gás de xisto na China. Apesar do insucesso, Muller encontrou motivação no mundo dos negócios: “Criar uma empresa com fins lucrativos para avançar com mais flexibilidade e rapidez foi algo que descobri que adoro.”

O “peso” científico de Richard Muller

Richard Muller não é um aventureiro. Além de cofundador da Deep Fission, é uma figura relevante na física, tendo dado contributos históricos importantes ao nível da datação por carbono, a qual permite determinar a idade de materiais orgânicos como madeira, ossos ou carvão com base no decaimento radioativo.

Esta técnica tem sido usada para desmentir fraudes e falsificações desde a sua criação no final da década de 1940 por Willard Libby, tendo sido posteriormente aprimorada por Richard A. Muller nos anos 1970. Eis alguns exemplos da relevância da datação de carbono que se tornaram particularmente conhecidos e em que a técnica foi usada (ainda que não trabalhos diretamente conduzidos por Muller):

Sudário de Turim

Durante séculos considerado o pano funerário de Jesus Cristo, com a imagem do rosto supostamente impressa de forma milagrosa, o Sudário de Turim foi analisado em 1988. Os testes indicaram que o tecido, com cerca de 4,4 metros de comprimento, data da Idade Média.

Contraste de Formes

O Museu Guggenheim suspeitava da autenticidade de uma obra atribuída ao artista francês Fernand Léger, datada de 1913. Testes revelaram vestígios de carbono associados a ensaios nucleares da década de 1950, confirmando tratar-se de uma falsificação.

Princesa Persa

Em 2000, Paquistão e Irão disputaram a posse de uma múmia alegadamente pertencente a uma princesa persa do século VI a.C. A análise revelou que o caixão tinha sido produzido com ferramentas modernas e que o corpo era de uma mulher falecida na década de 1990.

Estátua Kouros

O Museu Getty analisou uma escultura grega supostamente antiga, com cerca de dois metros de altura. A datação indicou que o mármore tinha milhares de anos, mas dúvidas persistem quanto à autenticidade da peça, levando o museu a classificá-la como sendo de “cerca de 530 a.C.” ou uma possível falsificação moderna.

Texto original aqui. Artigo traduzido e editado por Paulo Marmé.

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