O encerramento de salas de cinema em Portugal deixou de ser um caso isolado para se tornar uma tendência visível em várias regiões do país. Nos últimos meses, exibidores como a Cineplace, a NOS Lusomundo Cinemas e a UCI têm fechado complexos ou reduzido significativamente a sua operação, invocando dificuldades económicas, mudanças nos hábitos de consumo e falta de viabilidade financeira.
O caso mais recente envolve a exibidora Cineplace, que encerrou os cinemas que explorava nos centros comerciais La Vie, na Guarda e nas Caldas da Rainha. No total, foram fechadas oito salas, deixando ambas as cidades sem exibição regular de cinema comercial.
No caso da Guarda, a oferta de programação de filmes fica reduzida ao Teatro Municipal da Guarda. A propósito do encerramento do Cineplace da Guarda, a agência Lusa cita o jornal Todas As Beiras que lembra que as quatro salas funcionavam desde 2008, data de abertura do centro comercial, e foram exploradas pela NOS Lusomundo Cinemas até 2016, reabrindo depois pela Cineplace.
A título de exemplo, só na cidade da Guarda, a exibição nas quatro salas da Cineplace representou, em 2024, a maioria da estatística de exibição do distrito, com 30.784 entradas. O Teatro Municipal da Guarda programou, em 2024, sete sessões de cinema, vistas por 220 espectadores.
Em 2006, encerrou igualmente o Cine-Estúdio Oppidana na Guarda, capital de um distrito da beira interior, com cerca de 142 mil habitantes.
À agência Lusa, fonte da administração dos centros comerciais La Vie explicou que a decisão está relacionada com a situação financeira da exibidora. Segundo a mesma fonte, o encerramento resulta da aplicação de um Plano Especial de Revitalização (PER), tendo em conta que “o modelo de negócio atualmente exigido implica a garantia de números mínimos de afluência de espetadores, condição que tem sido muito difícil de atingir de forma consistente, nos últimos anos”.
Com o fim do contrato de exploração com a Cineplace, a administração dos centros comerciais adiantou à Lusa que está a analisar alternativas. “Estamos a estudar novas soluções e conceitos que possam responder às expectativas da comunidade local”, referiu a mesma fonte, sem avançar prazos ou modelos concretos.
A Cineplace não respondeu aos pedidos de esclarecimento da Lusa sobre estes encerramentos nem sobre outras salas que a exibidora fechou ao longo de 2025. De acordo com dados do Instituto do Cinema e do Audiovisual (ICA), a Cineplace explorava nesse ano 62 salas de cinema em 12 complexos, sendo a segunda maior exibidora no país, atrás da NOS Lusomundo Cinemas.
Antes do fecho na Guarda e nas Caldas da Rainha, a Cineplace já tinha encerrado salas em Portimão, no Algarve Shopping, no Madeira Shopping, no Funchal, e no Rio Sul Shopping, no Seixal. Em Viana do Castelo, quatro salas do Estação Viana Shopping foram autorizadas a mudar de uso, a pedido dos proprietários, enquanto em Braga estava em curso um pedido semelhante para parte do complexo do Nova Arcada.
Mas a tendência vai além da Cineplace. A NOS Lusomundo Cinemas encerrou recentemente cinco salas no MaiaShopping, cinco no Tavira Grand Plaza, seis no Fórum Viseu e, já no início de 2026, as 12 salas do complexo Alvaláxia, em Lisboa. Neste último caso, o diretor-geral da exibidora, Nuno Aguiar, explicou à Lusa que o Sporting Clube de Portugal decidiu não renovar o contrato de exploração.
Contactado pela agência Lusa, o clube confirmou que o espaço será reconvertido num “novo espaço pioneiro de experiência imersiva”, integrado num projeto mais amplo de requalificação do complexo Alvaláxia, recentemente adquirido pelo Sporting por 17 milhões de euros. Segundo dados do ICA, o cinema do Alvaláxia registou 121.783 espectadores em 2025, um valor bem abaixo das entradas contabilizadas antes da pandemia.
Também a UCI obteve autorização para desafetar nove das 20 salas do Arrábida Shopping, em Vila Nova de Gaia, o maior complexo de cinema do país, alegando razões de “viabilidade económica”, segundo a Inspeção-Geral das Atividades Culturais (IGAC).
Com o encerramento de quatro salas de cinema, Guarda, capital de distrito, fica sem exibição comercial, regular e diária de cinema, num cenário semelhante ao que já acontece em Bragança, Beja e Portalegre. A par dos distritos de Guarda, Beja, Portalegre e Bragança, há outro distrito que corre o risco de também perder a exibição comercial de cinema: trata-se de Viana do Castelo, uma vez que o Ministério da Cultura autorizou em 2025 um pedido de desafetação de atividade das quatro salas do Estação Viana Shopping, exploradas pela Cineplace.
Perante esta sucessão de encerramentos, a ministra da Cultura, Margarida Balseiro Lopes, anunciou a criação de um grupo de trabalho para analisar a situação da exibição cinematográfica em Portugal. Em declarações à Lusa, a governante explicou que o grupo, que integra a IGAC e o ICA, irá analisar os pedidos de desafetação dos últimos três anos e apresentar conclusões no primeiro trimestre do ano.
Enquanto decorre essa reflexão, o mapa do cinema comercial em Portugal continua a encolher, com impactos diretos no acesso à cultura, sobretudo fora dos grandes centros urbanos.
com Lusa





