Opinião

O mercado dos suplementos está saturado de marcas, não de ciência

Tiago Ferreira

O mercado dos suplementos está saturado de marcas, não de ciência. Nos últimos anos, o mercado dos suplementos alimentares cresceu a um ritmo acelerado. Criar uma marca tornou-se simples, rápido e acessível. Existem fabricantes que oferecem soluções completas, desde a formulação até à embalagem, plataformas digitais que permitem vender diretamente ao consumidor e um ecossistema de marketing enganoso que recompensa mais a narrativa do que o conteúdo técnico.

À primeira vista, este fenómeno pode ser interpretado como um sinal de democratização e inovação. No entanto, quando analisado com maior rigor, revela um problema estrutural. O crescimento do número de marcas foi muito mais rápido do que o crescimento do rigor científico aplicado aos produtos que chegam ao mercado. Hoje, o setor não sofre de escassez de ciência. Sofre de uma aplicação superficial da ciência existente.

Do ponto de vista científico, desenvolver um suplemento eficaz exige conhecimento em várias áreas. Fisiologia humana, farmacocinética, biodisponibilidade, estabilidade das matérias-primas, interações entre compostos e adequação das doses ao efeito pretendido. Estes fatores são determinantes para que um ingrediente produza um efeito mensurável no organismo humano. No entanto, observa-se com frequência que muitos produtos são construídos a partir de listas extensas de ingredientes populares, escolhidos mais pela sua notoriedade comercial do que pelo seu impacto fisiológico real. As doses utilizadas raramente correspondem às quantidades estudadas em ensaios clínicos e, em muitos casos, ficam abaixo do limiar necessário para produzir qualquer efeito biológico relevante.

Este não é um juízo subjetivo. Basta analisar rótulos e compará-los com a literatura científica disponível. Ingredientes com evidência sólida existem, mas a sua eficácia depende de fatores muito específicos, como a forma química utilizada, a dose administrada, a duração da suplementação e o contexto metabólico do indivíduo.

A ciência da nutrição e da suplementação é clara num ponto fundamental. Um ingrediente não é eficaz apenas por existir. É eficaz quando respeita critérios precisos de dose, biodisponibilidade e contexto de utilização. Da mesma forma, combinar vários ingredientes com evidência isolada não garante um efeito sinérgico. Sem racional fisiológico, a combinação pode ser neutra ou irrelevante. Apesar disso, muitas marcas surgem sem qualquer ligação real à investigação científica, sem leitura crítica de estudos clínicos e, frequentemente, sem profissionais com formação técnica suficiente para interpretar dados científicos de forma rigorosa. O resultado são produtos legais, seguros do ponto de vista regulatório, mas cuja eficácia prática é, na melhor das hipóteses, incerta. Importa sublinhar que o consumidor não é o responsável por esta realidade.

As pessoas procuram melhorar a sua saúde, desempenho e bem-estar e confiam na informação que lhes é apresentada. O problema reside num sistema que exige segurança, mas não exige demonstração de benefício clínico antes da colocação do produto no mercado. Esta distinção é fundamental.

A regulação europeia protege adequadamente contra riscos agudos e toxicidade, mas não avalia se um suplemento cumpre aquilo que implicitamente promete. Como consequência, o mercado cresce em volume, mas não necessariamente em qualidade, e a palavra ciência passa a ser utilizada como elemento de marketing enganoso em vez de critério técnico.

A saturação de marcas não deve ser confundida com maturidade do setor. Um mercado maduro caracteriza-se por consumidores informados, empresas tecnicamente responsáveis e produtos desenvolvidos com base em evidência sólida e transparente. Atualmente, existe uma assimetria evidente. O acesso à criação de marcas é elevado, enquanto o acesso ao conhecimento científico profundo continua limitado e, muitas vezes, ignorado. O resultado é ruído, confusão e uma crescente desconfiança em relação à suplementação como um todo.

O verdadeiro desafio da próxima década não passa por lançar mais produtos, nem por criar narrativas mais apelativas. Passa por elevar o padrão. Menos produtos, mais bem formulados. Menos promessas vagas, mais dados. Menos marketing enganoso e mais rigor científico. A ciência necessária para fazer melhor já existe. Está publicada, validada e acessível. O que falta não é conhecimento. Falta a decisão de o aplicar com seriedade. Enquanto isso não acontecer, o mercado continuará saturado. Não de ciência, mas de marcas que nunca chegaram verdadeiramente a utilizá-la.

 

Tiago Ferreira,
Microbiologista, especialista em saúde e suplementos
Co-fundador e CEO da Suplendi

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